Ciência, coisa boa!

Escrita por Renan Santos, professor de biologia da rede estadual de ensino Minas Gerais.

‘Professor, tomar sol nos testículos aumenta a testosterona?’

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Estudos apontam que cerca de 2% dos homens apresentam deficiência clínica de testosterona | Crédito: Canva

Por interesses financeiros ou ideológicos, setores dizem que os níveis de testosterona em nossa sociedade estão baixos

Nos últimos meses perguntas como essa começaram a aparecer em sala de aula, quase sempre feitas por alunos homens. Dúvidas sobre níveis de testosterona, como aumentá-los e a influência disso no organismo. Até onde me lembro, tais preocupações não eram típicas da adolescência. Portanto, algo aconteceu nos últimos tempos que colocou essa pulga atrás da orelha de nossos jovens.

Não se trata de um fenômeno restrito à adolescência. Há uma fixação hoje em torno da testosterona, o hormônio sexual masculino.

Produzido principalmente pelos testículos e, em bem menor quantidade, pelos ovários, esse hormônio é responsável pela definição das características sexuais masculinas. Desenvolvimento do pênis, libido, produção de espermatozoides, crescimento de pelos e engrossamento da voz são alguns dos fatores em que atua.

Além disso, a testosterona também aumenta a síntese de proteínas, o que faz com que ela fortaleça os ossos e aumente a massa muscular. Por isso, é a principal substância usada como anabolizante por aqueles que querem ficar fortões.

Três setores hoje são os principais responsáveis por essa febre em torno da testosterona, principalmente nas redes sociais. Os influenciadores fitness, os que querem lucrar com a suplementação hormonal, e o movimento masculinista/redpill.

Essa turma, seja por interesses financeiros, seja por ideologia (ou uma junção das duas coisas), propagandeia que os níveis de testosterona em nossa sociedade estão baixos. E que é preciso reverter isso, para que os homens voltem a ser “homens de verdade”: fortes, viris, violentos e sexualmente ativos.

A ciência entende que níveis normais de testosterona são de algo entre 240 e 1000 ng/dL de sangue para homens e 12 a 70 ng/dL para mulheres. Isso é uma média na população. Variações individuais são normais. Com a idade, principalmente, há redução natural na produção do hormônio.

Estudos apontam que cerca de 2% dos homens apresentam deficiência clínica de testosterona. Tal porcentagem aumenta para certos grupos, como entre obesos e diabéticos. Em tais casos, é necessário sim acompanhamento médico, que pode sugerir a suplementação hormonal.

Mas, se não há sintomas como baixa libido, disfunção erétil, fadiga constante e depressão, os mais tipicamente relacionados a quadros de déficit de testosterona, não há com que se preocupar. 

Algo muito estranho há em uma sociedade em que adolescentes completamente saudáveis se preocupem com o nível de suas testosteronas. É urgente refletirmos sobre isso.

Um abraço e até a próxima!

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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