Solidão negra na Esplanada 

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Poder Executivo Federal tem 32,89% de servidores negros ativos | Crédito: Ilustração: Caio Vinícius Bonifácio

Quando pessoas negras descansam, elas são revolucionárias

Desde o início de 2025, o Brasil adota oficialmente a Síndrome de Burnout como uma doença ocupacional. Além das diversas razões que comumente causam esse distúrbio, para pessoas negras existe uma camada a mais: o impacto do preconceito no ambiente de trabalho, levando-as ao esgotamento. Dessa forma, hoje já se faz um debate acerca de um termo específico, o burnout racial. 
 
Esse conceito se refere ao desgaste emocional que uma pessoa negra vivencia por conta de sua raça/cor de pele, impactado, entre outras razões, por estar em espaços que se demonstram contrários à sua existência. Ou seja: quem sofre e enfrenta cotidianamente o racismo, uma hora cansa. quando o ambiente racista é o seu local de trabalho, esse cansaço vai se somando e se transforma em adoecimento.  
 
Frantz Fanon nos lembra que, onde uma pessoa negra for, sua negritude o acompanhará. Em outras palavras, essa pessoa será sempre racializada. Já Djamila Ribeiro alerta que o racismo estrutura a sociedade e, assim sendo, está em todo lugar. Dessa forma, é justo considerarmos que os atravessamentos do racismo também impactam os servidores negros da Esplanada, em especial considerando que são uma minoria.  

Segundo os dados de 2025 do Painel Estatístico de Pessoal (PEP) do Poder Executivo Federal, os servidores ativos negros representam 32,89%. Uma população que, para a argumentação aqui proposta, dividi em três. 

O primeiro grupo é formado por quem não se sente à vontade ou não tem intenção de assumir um enfrentamento antirracista. Essa pessoa tem medo de sofrer algum ônus social, profissional, emocional ou econômico. Para tanto, busca passar ilesa: não comenta, não denuncia, não assume postura que classifica como lesiva, gerando algum desgaste ou malefício a si.  
 
Já o segundo grupo é dos que enfrentam, se indignam, buscam cada vez mais letramento racial para ter embasamento aprofundado e vitórias nos debates e embates do dia a dia.  
 
E o terceiro grupo é de quem atua profissionalmente na causa. São pessoas que reconhecem de longe um ato racista, pensam em políticas públicas para a comunidade negra, são ativistas e lutam pela negritude nos mais diversos espaços sociais.  
 
Seja qual for o grupo em que a pessoa negra estiver, o racismo vai cansar cada uma delas. Os atuantes e os não atuantes sofrem com a mesma solidão negra. Ao realizar o velho teste do pescoço, percebemos como é difícil encontrar outras pessoas negras nos mesmos ambientes, o que abate e desanima. Isso acaba impedindo ou dificultando a reflexão sobre assuntos negros nesse locais, inclusive sobre essas ausências. 
 
A partir daí, surgem várias dúvidas. Será que, quando essas pessoas se encontram, compartilham essas más experiências de trabalho? Em que momento elas têm um descanso disso tudo? Em que momento as pessoas negras do Executivo, Legislativo e Judiciário se reúnem apenas para viver quem são? Quando chega a parte em que elas só celebram? 

Durante quase quatro séculos, corpos negros foram obrigados ao labor pesado. Escravização foi o destino imposto aos nossos antepassados. Por conta desse histórico, nos dias de hoje, é comum percebermos que, quando uma pessoa negra pensa em descansar, ela sente um peso na consciência.

Colocamo-nos a pensar: Não há tempo a perder! É preciso ser três vezes melhor! É preciso vencer o receio de perder o status social e viver em vulnerabilidade! É preciso enfrentar as pessoas que não suportam ver pessoas negras em cargos de liderança! É preciso, é preciso, é preciso… 

Quando as pessoas negras descansam, elas são revolucionárias. Durante a escravização, descansar podia ser uma condenação à morte. Hoje, para quem sempre precisa fazer mais e ser melhor, soa como rebeldia. Mas não caia nessa: descansar é uma recomendação de saúde mental. Nós podemos e devemos descansar, sim. Sob qualquer ângulo epistemológico, descansar é fundamental. Até mesmo pelo viés capitalista neoliberal, caso te apeteça pensar assim, descansados nos tornamos mais produtivos. 

Lucas Veiga, psicanalista negro que fala sobre burnout racial, vai nos dizer sobre a importância dos espaços de aquilombamento onde a gente possa ser simplesmente quem é. Um espaço para pessoas negras que queiram ocupar um território sem ter que explicar nada a ninguém e sem a obrigação de se provar melhor do que os outros. Um lugar onde a gente possa simplesmente exercer, de forma livre, a nossa negritude. 
 
Esse foi um dos objetivos da fundação do Clube Social Negro de Brasília, que começou em 2024 com um coletivo de 30 pessoas e hoje tem mais de 150 na comunidade. O grupo se mobiliza e se articula para tornar realidade o objetivo de uma sede no coração político de Brasília, para descansar dos racismos e aquilombar as pessoas negras desses espaços. 
 
Se você acredita nessa ideia, já pegue o nosso contato e venha ajudar a evoluir o projeto. Por mais exaustos que estejamos, o Clube, enquanto lugar de descanso racial, só vai se tornar realidade com a participação ativa da Esplanada negra. 

*Heitor Perpétuo é especialista em comunicação e presidente do Clube Social Negro de Brasília 

**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato – DF.

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Editado por: Clivia Mesquita

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