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Aos meus camaradas: ainda estamos aqui

Era segunda-feira de verão, dia 24 de fevereiro de 2025, 7 horas da manhã e já fazia um sol quente como o do meio-dia. 

Barulhos de instrumentos ecoavam na rua. Um amontoado de jovens se reuniam em frente ao prédio onde mora José Antônio Belham, no Rio de Janeiro. Zé Antônio foi ex-general reformado do exército, líder do DOI-CODI na ditadura, envolvido com a tortura, desaparecimento e morte de Rubens Paiva. 

Os jovens, organizados no movimento social Levante Popular da Juventude, com uma grande faixa estendida em frente ao prédio que dizia “Ainda Estamos Aqui”, pediam para que a Lei da Anistia não se aplique a crimes de desaparecimento e ocultação de cadáver.

Foto: Junior Lima @xuniorl / Levante Popular da Juventude

O que esses jovens fizeram neste mês quente de carnaval, é a continuidade da luta da juventude durante a ditadura militar no Brasil, e inclusive, no Paraná.

Estudantes secundaristas e universitários puxaram manifestações contra a repressão, a censura e a violência institucionalizada durante o período de 1964 a 1985. Faziam da arte e da cultura um megafone de denúncia das atrocidades do regime e anúncio de um país democrático. 

No Paraná, tivemos jovens que fizeram parte desse rio caudaloso de luta da história.

José Dirceu, apesar de mineiro, cresceu no Paraná, foi liderança estudantil na Universidade Estadual de Londrina e presidente da União Paranaense dos Estudantes. Durante a ditadura, precisou atuar na clandestinidade.

Vitório Sorotiuk foi presidente do Centro Acadêmico Hugo Simas (CAHS) da Faculdade de Direito da Universidade Federal do Paraná (UFPR), mais tarde foi eleito para presidir o Diretório Central dos Estudantes (DCE) da UFPR. Apesar de enfrentar uma ordem de prisão e a proibição de sua posse pelo reitor, realizaram a cerimônia de posse durante uma apresentação teatral na reitoria, diante de mais de duas mil pessoas. 

José Idésio Brianezi, natural de Londrina, se envolveu ativamente no movimento estudantil secundarista. Em 1968, participou do 19º Congresso Paranaense de Estudantes Secundaristas, parte da União Brasileira dos Estudantes Secundaristas (UBES), que resistia à ditadura militar. Mais tarde, aliou-se à Ação Libertadora Nacional (ALN) em São Paulo, onde faleceu em 1970 durante um confronto com agentes da Operação Bandeirante (OBAN). 

João Bonifácio Cabral, estudante da UFPR que foi preso por conta de sua atuação no movimento estudantil. Após sua liberação, enfrentou obstáculos para concluir seu curso, sendo impedido de colar grau pelo então ministro da Educação, Jarbas Passarinho. Somente após ação judicial conseguiu formar-se em uma cerimônia exclusiva

Resgatar esses nomes e sua história em um contexto em que a extrema-direita e ideias que relativizam a história de um povo crescem, se torna tarefa de todo sujeito com indignação no peito. Resgatar a memória é lutar por verdade e justiça, para que a tragédia nunca mais se repita! Seguir lutando é continuar afirmando que ainda estamos aqui e aqui continuaremos.


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*Ana Keil militante é do Levante Popular da Juventude

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