Nos dias 18 e 19 de setembro, estivemos na Ceilândia para viver um momento que ficará marcado na memória do Comitê de Cultura do Distrito Federal. Durante dois dias, os jovens foram protagonistas na construção de caminhos que refletem diretamente na vida deles e delas. Num espaço emblemático pela luta e construção coletiva, o Jovem de Expressão, jovens cheios de sonhos, curiosidades e incertezas sobre o futuro deram a letra sobre o que realmente importa para o jovem que vive o primeiro quadrante do século XXI.
Na quinta-feira, 18, realizamos uma escuta ativa com estudantes do Centro de Ensino Médio 02 de Ceilândia Norte. Foi um círculo de partilha potente, conduzido por um jovem facilitador brilhante de 21 anos, Gabriel Haje, que conduziu os jovens da plateia a responderem: quais são as principais dificuldades enfrentadas pelos jovens para acessar a cultura no Distrito Federal?
As respostas foram sinceras e diretas. Eles falaram da falta de recursos financeiros, que ainda limita o acesso a tantas experiências; denunciaram a invisibilidade da cultura das periferias em relação ao Plano Piloto; pediram mais diversidade nas atividades culturais; e mostraram como a escassez de oportunidades para ocupar espaços de criação enfraquece seus sonhos. A cada fala, percebemos que aquela juventude não apenas observa a realidade: ela a sente no corpo e na pele.
A professora Lidi Leão, que acompanhava a turma, destacou o quanto esses encontros ampliam a formação cidadã. Quando os jovens saem da sala de aula e mergulham em experiências culturais, entendem que a arte está no cotidiano: na música que escutam, na dança que improvisam, nas performances que criam entre amigos. E isso é poderoso.
No dia seguinte, a potência jovem continuou ativa! O painel Juventudes em Movimento: arte, identidade e futuro não foi apenas um encontro: foi um espaço de escuta verdadeira, onde diferentes vozes se encontraram para pensar sobre o papel da cultura na vida das juventudes. Na plateia, novamente repleta de futuros brilhantes, futuros tomadores de decisão ficou atenta e envolvida.
Na prática, criar um espaço em que a juventude não é apenas convidada a ouvir, mas sim a ser protagonista a se reconhecer e a participar das decisões que impactam suas vidas. A plateia era formada, em sua maioria, por jovens do Ensino Médio — um público que está em uma fase de transição delicada, entre a adolescência e a vida adulta. Escutá-los e permitir que se reconheçam nas falas da mesa é contribuir para que cresçam entendendo que também são parte das decisões coletivas, que seus sonhos importam e que suas vozes constroem caminhos.
A diversidade da mesa foi um reflexo da pluralidade da sociedade que queremos. Estiveram conosco jovens, idosos, pessoas cis e trans, mulheres negras e brancas, homens e mulheres, representantes de diferentes linguagens artísticas e instituições. Essa multiplicidade não foi apenas simbólica: mostrou, na prática, que a cultura é feita do encontro de diferenças, e é nesse diálogo que ela se fortalece.
As falas foram profundas e diversas: ouvimos sobre o protagonismo juvenil, a importância da acessibilidade nos espaços culturais, a potência das quadrilhas juninas, o movimento ballroom como espaço de resistência, o papel da universidade na permanência da juventude e a força da arte como prática política. Cada palavra reverberava na plateia, mostrando que quando jovens escutam experiências reais, vindas de pessoas que compartilham histórias parecidas com as suas, o efeito é transformador.
Para nós, como Comitê, ficou ainda mais evidente a responsabilidade de garantir espaços como este. Uma juventude que cresce participando das decisões que influenciam sua vida se torna mais consciente, mais crítica e mais preparada para transformar desigualdades em direitos. É essa juventude que, no futuro, estará à frente dos processos políticos, culturais e sociais.
*Deyse Hansa é coordenadora geral do Comitê de Cultura do Distrito Federal, gestora e produtora cultural.
** Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato DF.
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