Corda Bamba

Coluna assinada por Surya Aaronovich Pombo de Barros – Historiadora, professora de Política Educacional, Educação e Relações Raciais e História da Educação na Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Email: [email protected]

Aproximações entre Colômbia e Brasil: ‘Lá Fora Cresce um Mundo’

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Adelaida Fernández Ochoa é uma escritora afro-colombiana autora do livro ‘Lá Fora Cresce um Mundo’ | Crédito: Reprodução/Planeta de Libros, Reprodução

Adelaida Fernández Ochoa, em Lá Fora Cresce um Mundo, nos possibilita entrar em contato com o impacto da escravidão

Por Surya Aaronovich Pombo de Barros*

Como o Brasil, a Colômbia também foi formada a partir da colonização europeia, da exploração e extermínio das populações originárias e pela diáspora africana. Logo, muitas questões aproximam os dois países. A Colômbia é composta por 26% de população afrodescendente. A existência dessa parcela da população e os temas da escravidão e liberdade, mestiçagem e desigualdades raciais permeiam reflexões, debates públicos e pesquisas sobre nosso vizinho, o segundo país mais populoso da América do Sul, e segundo em população negra na região.

A intelectual negra Lélia Gonzalez (1935-1994) desenvolveu um conceito fundamental para a interpretação sobre esse continente: a amefricanidade. Em Por um Feminismo Afro-latino-americano, texto de 1988, a autora convida à reflexão sobre a abolição da escravidão, que naquele ano completava um século no Brasil. Na Colômbia, a Abolição foi em 1851 e o passado escravista e a permanência do racismo também motivam reflexões de intelectuais, denúncias e políticas públicas.

Uma das contribuições definitivas de Lélia Gonzalez, entre tantas outras, foi chamar a atenção para como as experiências históricas brasileiras foram semelhantes a de outros países latino-americanos: “Neste sentido, as outras sociedades que também compõem essa região, neste continente chamado América Latina, quase não diferem da sociedade brasileira”.

Ao refletir sobre o feminismo e se contrapor ao feminismo hegemônico, pautado por mulheres brancas, Lélia Gonzalez denuncia que mulheres negras e indígenas da América Latina são “testemunhas vivas da exclusão” e que o feminismo avançaria muito se considerasse “a natureza multirracial e pluricultural das sociedades da região”.

A constatação do problema leva à discussão sobre o racismo e seu funcionamento: “O racismo latino-americano é suficientemente sofisticado para manter negros e índios na condição de segmentos subordinados dentro das classes mais exploradas, graças a sua forma ideológica mais efetiva: a ideologia do branqueamento”. E continua: “Para nós, amefricanas do Brasil e de outros países da região – assim como para as ameríndias – a conscientização da opressão ocorre, antes de qualquer coisa, pelo racial. Exploração de classe e discriminação racial constituem os elementos básicos da luta comum de homens e mulheres pertencentes a uma etnia subordinada”.

A aproximação das experiências vivenciadas no passado e no presente nessa região exige não apenas constatar os problemas, mas agir: ideologia do branqueamento, privilégio branco, racismo, desigualdades são temas atuais. Existem muitas pessoas e coletivos lutando contra isso em diferentes âmbitos: educadores/as, ONGs, ativismos virtuais e presenciais, ações jurídicas e instituições públicas, por exemplo.

A arte é uma das instâncias que ajuda a sensibilizar as pessoas, desnaturalizar o cotidiano e fortalecer o senso de justiça. Manifestações artísticas como música, teatro, cinema, televisão, artes plásticas… há um sem número de produções que discutem a realidade, questionam e sugerem mudanças.

Pensando ainda no conceito de amefricanidade, e nas semelhanças entre a história latino-americana, iniciei em novembro de 2025 um projeto de pesquisa que tem como objetivo comparar a educação da população negra colombiana ao longo do século 19 (período em que existia escravidão, aconteceu a abolição e se intensificaram os debates e realizações sobre o sistema educacional e o lugar dos afro-colombianos na formação da nação) e primeira metade do 20 (quando emergiu um conjunto de intelectuais negros e negras, que contribuíram para as reflexões com obras de ficção e não ficção sobre o país) com a história da educação brasileira. Por isso, nos próximos meses escreverei sobre Colômbia e Brasil, trazendo sugestões e reflexões sobre os temas mencionados.

Início essa fase sugerindo uma obra literária que dialoga com acontecimentos históricos e com o passado e o presente colombianos e, de certa forma, brasileiros. Trata-se do livro Lá Fora Cresce um Mundo, da escritora afro-colombiana Adelaida Fernández Ochoa, nascida em Cali, em 1957.

A obra, vencedora do prestigioso Prêmio Casa das Américas 2015, se passa no ano 1840, no Vale do rio Cauca, região sul-ocidental da Colômbia. As personagens principais são Nay da Gâmbia e seu filho Sundiata, quilombolas que empreendem uma viagem ao litoral colombiano com o objetivo de voltar para casa, para a África.

Como em livros que também reconstroem a luta pela liberdade e denunciam os horrores da escravidão em outras sociedades (por exemplo: Um Defeito de Cor, da brasileira Ana Maria Machado; Bem Amada, de Toni Morrison dos Estados Unidos; Eu, Tituba: bruxa negra de Salém, de Marise Condé, de Guadalupe), escritos por mulheres negras, Adelaida Fernández Ochoa, em Lá Fora Cresce um Mundo, nos possibilita entrar em contato com o impacto da escravidão e a ação de escravizados e escravizadas na busca por liberdade na Colômbia, pela perspectiva de uma escritora negra.

Além disso, diversas partes da obra permitem a aproximação com o universo letrado, nos instigando a pensar em aproximações e distanciamentos das experiências negras brasileiras e afro-colombianas. Mãe e filho, os dois personagens centrais do romance, sabem ler e escrever. Nay da Gâmbia, em uma passagem, explica como aprendeu a língua: “Quando Sardick saía, Gabriela ficava livre […]. De modo que, debaixo de seu nariz, mas ainda mais na ausência dele, Gabriela me ensinou esse idioma que agora me serve para escrever”. A carta de alforria, alcançada por Nay da Gâmbia, é um elemento central em sua trajetória:

Ao longo de incontáveis luas, aprendia a ler esta carta de alforria e já a tenho de cor […]. Nunca nenhuma fábula tinha soado mais bela, nem a do gato e do rato, como a da nossa alforria. […] fiz Gabriela repetir a leitura. E ela aproveitava para que eu praticasse o meu aprendizado, o “c” com o “a”, “ca”, mais o “r”, “car”; o “t” com o “a”, “ta”. Carta! Aquela palavra conjurava os defeitos das letras, o “c” não era mais uma boca aberta e contida, nem o “r” um gorjeio sem penas; e entendi como o “a” arrancava do “t” um infame taco de mudez. O “a” foi-me revelado como o primeiro símbolo e a primeira palavra, portadora de sentimentos e desejos, continha segredos primevos e tinha solucionado todos os sons. Concordei com um pensamento que veio dos séculos: Com a letra “a” diante os olhos, a voz já quer cantar. Cantar todas as fábulas. E aprendi de cor para sempre o fragmento mais sábio que ela contém: Faça Nay da Gâmbia tudo o que uma pessoa liberta e não sujeita a servidão pode fazer, usando em tudo de seu livre e espontâneo arbítrio (Adelaida Fernández Ochoa, em Lá Fora Cresce um Mundo).

Sundiata, nascido já na colônia e de um ventre escravizado, também domina a leitura e a escrita:

Na cozinha, entre os feixes de lenha e o banquinho onde ela se senta para debulhar o milho, encontro amarrados com uma fita, o caderno de minha mãe e meus rabiscos e minhas letras fazem mais volumes que as dela, mas é que as minhas são folhas soltas, as dela estão costuradas. Guarda minhas letras, que são lembranças e as dela, que são sua alma […]. Também não ia querer que lessem o que escrevo. Mesmo quando são coisas conhecidas, ainda sou eu. Além disso, se soubessem que escrevo, me castigariam ou debochariam; se lessem minhas letras, saberiam que sou outro, que quando vou caçar cutias com Matías, sou grande; e para um negro grande as coisas são piores. Só a minha mãe contei que guardo muitas coisas na cabeça e, depois, ao meio-dia, atrás do estábulo, as escrevo.

Esses trechos são um convite à leitura, que permite adentrar em muitos outros temas como o cotidiano, a família negra, as paisagens… A beleza da escrita de Adelaida Fernández amplia sua denúncia. E nos provoca a compreender melhor tais processos que aproximam pessoas negras e universo letrado na América Latina. Como escreve a personagem Nay da Gâmbia: “Na minha comarca, as mulheres não escrevem, aqui me espantou ver que algumas leem. E a maior das maravilhas, no entanto, foi que eu escreva”.

*Surya Aaronovich Pombo de Barros é historiadora, professora de Política Educacional, Educação e Relações Raciais e História da Educação na UFPB.

*A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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