Cuscuz Clã

Sobre o autor: Stênio Soares é artista, crítico de arte e professor da Universidade Federal da Bahia, cientista social formado pela UFPB, com intercâmbio na Universidade de Lyon 2 (França) e pós-graduado (especialização, mestrado e doutorado) pela USP. Foi professor da Universidade Estadual do Paraná e da Universidade de Bayreuth (Alemanha). Atualmente, colabora com o Ministério da Cultura e com a Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Sua obra artística se materializa em “encruzilhadas poéticas”, nascidas em residências artísticas realizadas no México, na China e na Alemanha.

A coluna Cuscuz Clã é uma encruzilhada poética de crítica social, que evoca e homenageia a obra homônima do poeta paraibano Chico César, que completa 30 anos em 2026.

E aí, Paraíba, tu vai de besta? Carnaval, apostas e a privatização provisória da alegria em João Pessoa

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Programação da Via Folia, em João Pessoa, em 2026, ocorreu de 6 a 11 de fevereiro
Programação da Via Folia, em João Pessoa, em 2026, ocorreu de 6 a 11 de fevereiro | Crédito: Carolina Ferreira/BdF-PB

A festa acontece, desde que respeite o patrocinador master, a estética autorizada e o plano de mídia

O capitalismo é esse folião incansável que nunca perde um bloco. O rico desfila fantasiado de patrocinador oficial, posa de benfeitor e ainda recebe agradecimento do cantor no trio elétrico. A gente “aproveita” o fervo e aprende o que deve consumir para continuar aproveitando. É uma aula prática de como gastar sorrindo. Agora, para completar o desfile, a jogatina legalizada também entrou no bloco. Empresas de apostas caíram no passo da folia, porque nada simboliza melhor o Carnaval do que a fantasia de ganhar dinheiro fácil. O folião aprende rápido: se não ganhou hoje, tenta amanhã. Apostar é persistir. No meio disso tudo, o que ainda resiste é o corpo molhado de chuva, suor e cerveja, ainda sem logomarca estampada na pele, mas não por falta de tentativa.

Aviso tardio, desses que deveriam ter vindo antes do primeiro parágrafo, mas chegam agora, quando o texto já está no meio da avenida: esta coluna nasceu no meio do cortejo do bloco de prévia carnavalesca Doido é Doido, ao som do frevo da Orquestra Paraíso Tropical, que atravessou o bairro Castelo Branco, em João Pessoa, no último sábado, 6 de fevereiro. Foi a folia quem pariu essas palavras. O tom é zombeteiro porque a realidade exige. E as ideias chegaram sem pedir licença, como o som do trio elétrico das Virgens de Tambaú, que impede a sagrada missa dominical da Igreja de Nossa de Fátima, no bairro Miramar.

Durante as prévias, a avenida Epitácio Pessoa se transforma na Via Folia. A cidade suspende a normalidade: carros saem, trios elétricos entram. O Carnaval é cercado, organizado, enquadrado e convertido em oportunidade de negócio. A festa acontece, desde que respeite o patrocinador master, a estética autorizada e o plano de mídia. Liberdade, sim. Mas com pulseira para subir no camarote, grade de shows com horário para começar e acabar.

É nesse cenário que entra a empresa de apostas VaideBet, ocupando a Via Folia com a tranquilidade de quem é de casa. No Brasil, os jogos de apostas foram legalizados pelas Leis nº 13.756/2018 e nº 14.790/2023. A mais recente criou a Secretaria de Prêmios e Apostas (SPA), no Ministério da Fazenda, para organizar, fiscalizar e botar ordem nesse mercado. Afinal, dizem, legalizar não é liberar geral. Embora, curiosamente, o “não” costume chegar atrasado nessa regra.

Sim, a VaideBet é uma empresa autorizada a operar apostas no Brasil. Com um detalhe pequeno, quase invisível no meio de uma chuva de confetes e serpentinas: essa autorização não veio do processo administrativo regular da Secretaria de Prêmios e Apostas, mas de uma decisão judicial.  Segundo o governo federal, a empresa não teria cumprido alguns requisitos exigidos para integrar a lista oficial.  O argumento foi a defesa do interesse público e da moralidade administrativa, palavras grandes, solenes, e que costumam perder potência quando o som do trio aumenta. Afinal, o Carnaval não é lugar para questões burocráticas ou técnicas. Um documento não dança frevo, nem nota de rodapé jurídica é tocada na guitarra elétrica.

Ainda assim, há fatos que insistem em atravessar a avenida sem serem convidados. Um relatório da Polícia Civil de São Paulo indicou que parte do dinheiro do contrato de patrocínio entre a VaideBet e o Corinthians foi parar em empresas apontadas como ligadas ao PCC. O caso levou ao indiciamento de dirigentes do clube por crimes financeiros e associação criminosa. A eventual participação direta da empresa segue sob investigação. Nada julgado, nada concluído. Apenas fatos em apuração, uma espécie de “estraga-folia” que insistem em aparecer quando a cidade só queria dançar.

Voltemos à Via Folia, aquele território provisoriamente encantado onde tudo se resolve com um palco em cima do caminhão e um banner bem posicionado. A venda de propaganda na avenida Epitácio Pessoa é regulamenta pela prefeitura, a partir do polêmico projeto de lei (nº 017/2023) do vereador Marcílio do HBE, dono do “Bloco dos Atletas”. O projeto foi criticado por ambulantes e blocos ligados à Associação Folia de Rua, que organizaram a festa por cerca de 30 anos. O grupo denunciou a proposta como uma possível “privatização” da festa, inclusive afirmando que o vereador poderia estar usando o mandato para obter vantagem pessoal por também ser proprietário de um bloco.

O discurso é antigo: o Carnaval é gratuito, aberto ao povo e caro. Alguém precisa pagar a conta — e, se possível, seu nome aparecer em letras grandes.

Nesse contexto, em 2026, a VaideBet assumiu visibilidade intensa nos espaços públicos da cidade. Tão intensa que chamou a atenção do Ministério Público de Contas da Paraíba, que investiga possíveis irregularidades na instalação de anúncios em postes e áreas da orla, o que pode violar o Código de Posturas do Município. Alguns mencionam isso como meros detalhes técnicos. Coisas que costumam ser varridas junto com o confete depois da Quarta-feira de Cinzas.

Politicamente, a coisa é simples de entender: quando a prefeitura vende a Via Folia como vitrine publicitária, a avenida se torna um imenso outdoor, a festa passa a ser o anúncio, o folião vira ator e também público-alvo, e sua alegria é a inebriante estratégia. O Carnaval também é campanha eleitoral, mas sem pedir voto explícito, basta agradecer nominalmente o político de estimação.

Na prática, o poder público escolhe quem aparece. Nem toda empresa entra. Nem toda mensagem circula. Nem toda imagem é permitida. A propaganda é filtrada, autorizada e carimbada. Não é só mercado. É direção política da alegria. É a administração do entusiasmo coletivo.

Apesar de tudo isso, a festa continua sendo do povo. Mas a paisagem da cidade tem dono temporário, cafona e envolvido em transações suspeitas. E, nesse Carnaval, Paraíba, a pergunta insiste, mesmo abafada pelo som: tu vai de besta… ou prefere mudar a fantasia que te deram?

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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