Se você foi para o Carnaval de rua, principalmente aqueles blocos mais populares, cheios de sátira, deboche e indiretas diretas, certamente leu ou ouviu a pergunta da temporada: “Raparigou ou não raparigou?”. Ela é simples, objetiva, não acusa nem absolve. É uma referência a uma cena do filme O Agente Secreto, mas o povo devolveu a frase ao Carnaval e ela virou frevo . Porque, no Brasil, rir do tabu é uma coisa que a gente sabe fazer. Na tela do cinema, o mistério da pergunta paira no ar; no livro que revela os bastidores do roteiro original, a “raparigagem” do casal é confirmada.
E “raparigar” – esse verbo tão injustiçado – nada mais é do que viver afetos, desejos e tropeços com alguma intensidade e pouca paciência para a hipocrisia. Aliás, hipocrisia não combina com Carnaval, que é o lugar onde a fantasia serve justamente para a gente expor as máscaras sociais. Existe um bloco paraibano que assume isso logo no nome: As Raparigas de Chico. Foi esse bloco que trouxe Fafá de Belém para um show em João Pessoa. Um show que, infelizmente, foi interrompido de forma desrespeitosa, alguém resolveu cortar o som bem na hora que ela cantava o sucesso Vermelho. Repetiram a prática, pois também cortaram o som no show de Daniela Mercury, na abertura do Folia de Rua. Falta de profissionalismo e também um cheirinho de incômodo. Porque mulher cantando relação abusiva pode. Agora, mulher cantando liberdade e que defende pautas progressistas… já é outra história.
Ao homenagear o álbum Cuscuz Clã, de Chico César, essa coluna quer também falar de desejo, afeto, poesia e aquele tempero agridoce que só a nossa música sabe dar. Na canção de abertura do álbum, Folia de Príncipe, o poeta evoca “uma declaração de amor, um beijo apaixonado” e ainda revisita os versos de Zé do Norte: “Tu me ensina a fazer renda, que eu te ensino a namorar”. O erotismo sempre esteve na MPB como poesia do encontro, tecnologia do afeto, política do corpo. Naquele ano de 1996, Chico tinha contemporâneos mais fogosos, afinal, viralizava nas rádios a canção Pau que Nasce Torto, do grupo baiano É o Tchan. Quase 20 anos depois de Cuscuz Clã, Chico publicou Versos Pornográficos, um fascinante livro de poesias.
Na temporada de 2026, tivemos uma avalanche de hits diretos, explícitos, metáforas picantes, sem véu, sem pudor. É o molho do baiano e da baiana, é a vampirinha que chupa gostoso, é o óleo que desliza no corpinho até o “popô”, teve aquele proibido em cima do jet-ski e aquele recado de que só vai ligar quando abril chegar. Gostando ou não, a trilha sonora é também um espelho de um pedaço do país e, às vezes, um manual de instruções nada sutil.
Enquanto algumas pessoas ficam indiferentes, uma parte do povo vive, dança, beija e decide, outra parte observa, comenta e julga. Nesse intervalo entre o desejo e a moral, entra o Estado com política pública séria, baseada em evidências, e sem caretice. É aí que o Ministério da Saúde do Brasil, por meio do Sistema Único de Saúde (SUS), veste a fantasia carnavalesca do “Ministério do Namoro” e faz a comunicação que precisa ser feita: prevenir infecções, ampliar acesso a testes, oferecer tratamento e informação. Sem pudor e sem moralismo –porque ciência não é igreja, e política pública não é sermão.
Com o mote “Carnaval com prevenção. Antes, durante e depois da folia, é o Governo do Brasil do seu lado” , a campanha mira especialmente jovens adultos. Uma ousadia que basicamente diz “se for raparigar, raparigue com cuidado”. Um escândalo para os conservadores, uma bênção para quem tem bom senso. A publicidade é protagonizada por Gaby Amarantos, que alguns anos atrás, ao lado de Romero Ferro, revisitou Em Plena Lua de Mel, clássico de Reginaldo Rossi, trazendo uma perspectiva feminina para essa história. É a mais fina flor da “raparigagem” musical – aquela que não pede licença para existir e, ainda assim, pede respeito.
O Ministério da Saúde sofreu com o negacionismo do ex-presidente golpista Jair Bolsonaro, que condenou mais de 700 mil pessoas à morte por infecção à Covid-19. Há exatamente seis anos, começávamos a enterrar os nossos. Passado esse desgoverno macabro, o Ministério da Saúde retomou mudanças importantes e relativamente inovadoras no combate às Infecções Sexualmente Transmissíveis (ISTs), combinando tecnologia, prevenção biomédica, políticas territoriais e comunicação.
Com 104 mil usuários de PrEP, o país vem avançando e ampliando estratégias de prevenção combinada, diagnóstico precoce e acesso gratuito à testagem. Aliás, vamos falar de PrEP e PEP sem complicar: a PrEP é um comprimido que você toma antes e que reduz muito a chance de pegar HIV. Já existe uma PrEP injetável, mas precisamos lutar para que ela esteja disponível no SUS. Já a PEP (Profilaxia Pós-Exposição) é uma medicação de prevenção ao HIV que deve iniciar até 72 horas após uma possível exposição ao vírus. Isso é muito bom, mas precisa avançar mais diante da nossa realidade. Os dados mais recentes mostram que a epidemia de HIV no Brasil tem hoje um perfil concentrado em homens jovens (principalmente 20 a 34 anos), população negra e periférica e com um aumento expressivo entre jovens heterossexuais.
A estratégia da campanha é a prevenção combinada. Antes da folia: camisinha e lubrificante, PrEP, vacina, teste. Durante a folia: camisinha e lubrificante (de novo), hidratação, bom humor e consentimento. Depois da folia: PEP, autoteste, água (de novo), descanso e, se possível, menos drama. Simples. Funcional. E gratuito.
E sim, ainda dá tempo de adotar uma dessas medidas. Tudo está disponível sem custo na rede pública brasileira. O SUS segue sendo uma das maiores e mais democráticas políticas de saúde do mundo. Ele cuida de quem raparigou, de quem não raparigou, de quem raparigou escondido e diz que não fez nada.
Então, da próxima vez que a pergunta vier, não importa o que você fez ou deixou de fazer, importa como você se cuida e cuida dos outros. Seja na folia de príncipes ou na raparigagem de versos ousados, viver o desejo pede alegria e responsabilidade.
*Stênio Soares é artista, crítico de arte e professor da UFBA.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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