O Agente Secreto começa no corpo dos atores. O filme respira por eles. E talvez aí esteja seu gesto mais ousado. Kleber Mendonça Filho volta a apostar alto na atuação — e é olhando para o elenco paraibano que o filme revela muito do que quer dizer. Estão lá Joálisson Cunha, Márcio de Paula, Buda Lira, Suzy Lopes, Fafá Dantas, Cely Farias, Beto Quirino e Flávio Melo. Artistas de longa travessia no ofício de atuar.
Em tempos de personagens pasteurizados e atuações domesticadas, ver corpos que pensam em cena já é quase um ato de resistência. Um dos segredos do filme está justamente em afinar a linguagem da atuação cênica na construção da trama. Cada gesto pesa. Cada pausa diz algo. E silêncio bem vivido grita, ainda mais quando a história atravessa o terreno áspero do autoritarismo.
Há também um dado simbólico nessa presença: a escola dramática da Paraíba aparece com força em um filme brasileiro indicado ao Oscar na recém-criada categoria Melhor Elenco. A novidade reconhece um trabalho quase invisível, mas decisivo: a direção de elenco. Afinal, escolher quem encarna uma história também é escolher como ela será contada.
A direção de elenco de Gabriel Domingues entende o jogo. Apostar em artistas socialmente reconhecíveis – gente de carne, osso e contradição – é inteligência narrativa. Nada de caricatura. A caracterização de Marisa Amenta aperfeiçoa esse desenho. Personagens que a gente já viu na vida real, mas que o cinema nos obriga a olhar de novo.
Logo na abertura, dois atores negros paraibanos ocupam a tela como quem finca bandeira: Joálisson Cunha e Márcio de Paula. A tensão dramática do frentista criado por Joálisson é tensão social. Trabalhar no feriado de Carnaval é menos escolha e mais sobrevivência num país empobrecido. Já o tempo da fala e, sobretudo, o tempo da pausa do policial vivido por Márcio, é puro discurso. No ofício do ator, o personagem ganha corpo: ali aparece a essência do autoritarismo.
Joálisson, integrante do Coletivo Atuador, já demonstrava vigor em A Saga de Zacarias (2007), dirigido por Marquinhos Pinto. Márcio também trabalhou com o diretor em Nada, Nenhum e Ninguém (2009). Ambos espetáculos onde o corpo aprende a encenar de forma consciente, energética e expressiva. No cinema, essa bagagem vira densidade. Como se cada gesto trouxesse consigo uma memória antiga.
Nas cenas no Instituto de Identificação, núcleo da burocracia do estado, entra um time paraibano que joga bonito: Buda Lira, Cely Farias, Suzy Lopes, Fafá Dantas e Beto Quirino.
Suzy Lopes constrói Carmem com a naturalidade de quem sabe que a vida não é ensaio. Funcionária pública que complementa renda, ela equilibra o mundo com gestos contidos. Mas quando a emoção chega, chega inteira, especialmente nas cenas com Fafá Dantas. Juntas, elas atravessam momentos de peso: observam a chegada da grã-fina pela janela, encarnam o desespero da mãe injustiçada, respiram na fuga do protagonista. O ritmo das cenas pulsa com elas. A gente respira junto. E às vezes perde o ar.
Suzy, que já esteve em Bacurau, de Kleber Mendonça Filho, é mulher da palavra. Pesquisadora das letras, agitadora de saraus em João Pessoa, ponte entre Paraíba e Rio de Janeiro, inspirou o dramaturgo Paulo Vieira na criação da força dramática de Mercedes (2015). Sua atuação tem raiz e tem asa.
Fafá carrega o teatro de rua no sangue. Vem do grupo Quem Tem Boca é Pra Gritar, dirigido por Humberto Lopes, escola de céu e peito aberto. E como produtora do projeto Embarque 83 cria espaços, convoca encontros, faz da cultura um verbo no plural.
Cely Farias nos entrega a grã-fina Cleide com firmeza. Não cai no melodrama fácil. Trabalha a personagem a partir de privilégios sociais que dialogam com o presente recente que vivemos. Ela finca os pés no drama e segura o chão. Integrante do Coletivo Atuador, com passagem pelos grupos Graxa e Ser Tão Teatro, circulou os palcos do país numa antropofagia bem-humorada de Tchekhov em Alegria de Náufragos (2015).
Beto Quirino, como Desidério, surge com humor rápido e certeiro. Um sopro de chanchada no meio da tensão, lembrando que rir também é um ato político. Fora da tela do cinema e da TV, há anos Beto encampa a luta de criação da Casa dos Artistas na Paraíba, abrigo para proteção social de artistas idosos.
E Buda Lira interpreta Anísio com a serenidade de quem já viu muita papelada na burocracia e muita história passar pela mesa. Integrante do grupo Piollin de Teatro, dirigido por Luiz Carlos Vasconcelos, o mais antigo grupo de teatro em atuação na Paraíba. Ainda encontra energia para agitar o bloco Cafuçu junto com outros artistas locais, na prévia carnavalesca de João Pessoa. Porque festejar também é resistência.
Do lado de fora do cinema, o pastor vivido por Flávio Melo prega aos berros. Sua voz passageira integra a construção da paisagem sonora e visual dessa sequência. Essa cena é muito Brasil e pincela uma ironia fina ao fanatismo religioso, fenômeno recorrente em regimes de exceção. Flávio, que já interpretou João Dantas em De João para João, de Tarcísio Pereira, sabe trabalhar o excesso na medida exata.
No cenário internacional, o Oscar tem reconhecido obras que confrontam autoritarismos e questionam democracias frágeis. A premiação virou tribuna global. O Agente Secreto dá seu recado: conta uma história local dialogando com fantasmas do mundo inteiro.
E um detalhe: mais de mil e trezentos empregos diretos e indiretos mobilizados pelo filme. Cinema é indústria, sim. Mas é também comunidade. É gente que ilumina, que costura figurino, que ajusta foco, que faz chover.
Talvez o verdadeiro agente secreto seja o próprio cinema. Essa arte coletiva que trabalha em silêncio e, de repente, ilumina as sombras do poder. Esse filme nos prova que a “gente secreta”, artistas e técnicos, operárias e operários, sustenta o drama e participa da criação. Ver nossos camaradas da Paraíba em cena, com seu jeito de atuar e nossa tradição cênica, é também assistir a uma infiltração cultural daquelas bonitas. Essa gente secreta sabe que é preciso “atuar, atuar, atuar — para poder voar”.
*Stênio Soares é artista, crítico de arte e professor da UFBA.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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