Hack Basilone*
A convite da grande escritora mariam pessah, com quem os diálogos despertam transformações significativas, venho nessa coluna contribuir com algumas questões relevantes para temas que vem sendo levantados por aqui. Digo isso porque os argumentos foram inspirados justamente pela leitura de textos escritos pela autora em sua coluna própria e de outras autorias na Diálogos Feministas, provocade como transmasculino não binárie, sociólogue, militante de direitos humanos, no sentido coletivo das experiências, encorajade pelo movimento que constitui e dá sentido a todo um conjunto de transmasculinidades e não binariedades que se afirmam na expressão do masculino. Desse modo, inicio aqui uma defesa que tem sido bastante complexa e difícil, dentro da simultaneidade de um entendimento transfeminista e da especificidade constituinte das existências transmasculinas. Há muito a se debater nesse sentido, mas vou me deter aqui nas questões da linguagem.
A afirmação da linguagem neutra/não binárie foi se tornando, cada vez mais, um ato de resistência diante das censuras que foram sendo impostas pela extrema direita com leis vetando o uso em diferentes espaços. Tal censura se reverte em prejuízos para a saúde mental de pessoas não bináries, pois sendo a linguagem criadora de mundo, ao ser cortada impõe tais pessoas à invisibilidade e condena a própria riqueza cultural linguística por não incluir a diversidade das existências. Saudar uma linguagem viva é resgatá-la como elemento ativo na construção e estruturação da realidade, sendo tão importante para garantia da dignidade.
No entanto, tal defesa não visa uniformizar todo pronome como não binárie. Muitos homens trans e transmasculinos, por vários fatores, não se identificam como “elu”. Nesse caso, o respeito à identificação do pronome é um ato de rebeldia à cisnorma. Mesmo quando se refere a “ele” e se utiliza o masculino (ainda que tenha sido há tanto tempo, de maneira descabida, utilizado para apagamento do feminino), já se tem aqui outro contexto, pois outro tipo de voz. Trata-se do reconhecimento de que o corpo lido e nomeado no nascimento é e tem direito a existir no gênero que se nomeia, de maneira completa. Não podemos nos esquecer do quão recente é a história de patologização sofrida por pessoas trans, diante da qual somente em 2018 deixou de ter a alcunha de transtorno para ser uma condição relacionada à saúde sexual, no CID 11. Portanto, não se tem aqui a reprodução de uma relação de poder assimétrica e opressiva tal qual a configurada na heterocisnorma, então pronomes masculinos aos homens trans e transmasculinos também importam!
Diante disso, conferir o status de universalidade ao gênero de uma pessoa que se reconhece naquele que foi atribuído no nascimento sem fazer referência à cisgeneridade é fazer uma grande injustiça. Por essa razão, utilizar o adjetivo cisgênero (geralmente de maneira abreviada, cis) é a denúncia e crítica da naturalização de uma regra que ainda insiste em colocar determinados corpos à margem também na linguagem. Não há homens e homens trans. Há homens cis e homens trans. Não há mulheres e mulheres trans. Há mulheres cis e mulheres trans (e também travestis).
Há agravantes, como a equiparação a homens cisgênero, em espaços que prevêem paridade de gênero (entre homens e mulheres, de maneira cisnormativa), sentencia a participação de transmasculinos à não representação. Não fazer a diferenciação, para as transmasculinidades, também reforça o estigma de um viés muitas vezes de opressor, violentador, assassino e tantas outras mazelas que o machismo e a misoginia mostram, em estatística. No entanto, muitas vezes o lugar desses outros homens, que não foram assim designados no nascimento, é de ser vítimas de tais violências e serem fadados ao silenciamento e falta de acesso a políticas públicas que sequer os enxergam, especialmente os mais vulneráveis, negros e periféricos. Sequer existem dados suficientes que mapeiem nossas demandas de direitos.
Nesse sentido, a inclusão na linguagem, que não seja driblada na pseudo-inclusão da ausência marcação de pronomes de gênero, já faz uma diferença significativa enquanto potência de vida. Existem homens transmasculinos e não bináries que podem gestar, menstruar, que demandam direito ao aborto, que também sofrem violência de gênero.
Com interlocuções e redes, abrindo espaço para diálogos sobre gênero e linguagem temos perspectiva de avançar pela multiplicidade das vidas, com integridade e dignidade! Sigamos!
*Hack Basilone é transmasc não binárie, cientista social/professore de sociologia, direitos humanos.
* Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

