Ana Paula Fagundes*
Inicia-se um novo ano, regido por Oya (ou Iansã), por Ogum, por Oxóssi. A proteção de Oya vai garantir a fala das mulheres. Certa da força de Ogum para seguir em frente na luta por uma sociedade melhor e a certeza de que nenhum passo é dado afastado da natureza e da sabedoria de Oxóssi. Começou o ano, mas voltamos a um assunto antigo, já que a tentativa de silenciamento das mulheres não é de agora.
Em menos de uma semana de campanha de colagem dos cartazes (lambes) tentaram arrancá-los dos postes e tapumes. Foram vários lambes danificados que verificamos nas ruas de Porto Alegre (RS). Por um lado, fica a certeza de que surtiram algum efeito. Outro dia encontrei uma amiga na rua e a poeta me comentou que andando pela Avenida Borges de Medeiros deparou com um homem olhando fixamente para um dos lambes, com cara de indignado. O que será que passava na cabeça dele?
A quem interessa nos silenciar? No Brasil sangraram e ainda sangram nos noticiários crimes crescentes e de tamanha crueldade contra as mulheres. Fala de homens que mataram, mutilaram, queimaram mulheres que não queriam ser suas amantes, ou melhor sua propriedade, ou porque simplesmente eram… mulheres.
Em 2025, uma jovem mulher indígena Harenaki Javaé, de 18 anos, teve a língua e parte do corpo cortadas, foi estuprada e carbonizada na Ilha do Bananal (TO). O suspeito é um indígena que foi solto por falta de provas, estando a investigação sob sigilo. De acordo com o Coletivo Gênero e Número a violência contra as mulheres indígenas cresceu 258% em dez anos (2014-2023).
Na mesma época em Porto Alegre escutei no noticiário a polícia descrevendo um assassino como “alguém inteligente e que queria deixar uma mensagem”. Possivelmente a polícia também seja inspirada nos filmes de serial killer dos EUA. O corpo da vítima – uma mulher – foi esquartejado. A “corte frio”, que significa ser feito com precisão, explicou o delegado. Feito por alguém que conhece a técnica, completou.
Na minha opinião, as mensagens nas ações do assassino eram: 1) mostrar que nossos corpos não valem nada, por isso o corpo da vítima foi espalhado pela cidade; 2) mostrar o quanto zomba da polícia e do sistema de justiça.
Após alguns dias de investigação a polícia encontrou o assassino. Um homem grisalho. Condenado há 28 anos por ter matado e concretado a própria mãe no armário de casa em 2015, estava livre nas ruas. Tinha tido bom comportamento na cadeia e obtido progressão da pena. Longe do cárcere e antes de fechar um ano de namoro, matou a namorada. Esquartejou e espalhou o corpo dela pela cidade. Um saco com parte do corpo na zona leste, um tronco em uma mala (uma mala!) na rodoviária, uma perna na zona sul… a cabeça ainda não foi encontrada.
Este homem deve encenar ser um sujeito “agradável”, um cidadão de bem, como tantas vezes escutamos quando se refere ao sujeito homem. Mesmo que acusado de estupro, assassinato e outras maldades o homem é blindado pelo machismo estrutural. Como o descarado da imagem do nosso lambe. Arrancado do poste!
Volto a pergunta, por qual motivo tentaram tirar o lambe? Para quem responde que é por causa do falo (para proteger as crianças) r e s p o n d o não! O falo ficou ali ereto, ainda. Aos que responderam que era por conta do poste (proteger “a vida” do poste) digo não! Havia outros cartazes no poste e estavam ilesos. Já estavam colados antes e se mantiveram colados.
Tentam silenciar a denúncia de homens que em uma face agradam as mulheres e em outra mostram sua face cruel, sádica, até mesmo nas ruas, tirando um lambe colado em um poste. Um desenho singelo e texto simples que só busca informar e amparar para cada pessoa garanta o seu direito a existência. Enquanto isto, agressores se fingem de cordeiros.
As pessoas que acreditam na face do cordeiro são homens e mulheres
Tento entender o que faz com que um homem que assassinou a própria esposa tenha sido absolvido no último mês do ano, em dezembro. E novamente vejo relação com a imagem do descarado do lambe. O crime ocorreu há 14 anos. Ele montou a cena para fingir que ela tinha se suicidado, sob o argumento de que ela sofria de depressão e conseguiu convencer a polícia. O processo foi arquivado e só depois de muita luta da família da vítima foi desarquivado. Comprovado que os disparos foram feitos pelo esposo o caso foi a júri popular, composto por seis mulheres e um homem. O assassino foi absolvido por clemência! Por clemência! Lembro do caso Ângela Diniz, assassinada e condenada. Seu assassinato aconteceu há cinquenta anos, no ano do meu nascimento.
Nas ruas a tentativa de retirada dos lambes. Nas redes (sociais) comentários tentando abafar denúncias de violências cometidas por homens, de todas as cores e fenótipos contra mulheres. Não foi em um lugar, não foi um caso dentro da capoeira envolvendo capoeiristas homens, há uma estrutura machista que protege estas práticas e deve ser rompida.
Teria sido um homem? Ou uma mulher? A pessoa que tentou arrancar o lambe? Tentou silenciar a manifestação de rua. Machismo não é mimimi, assim como racismo não é mimimi. São forças opressoras estruturantes e estruturadas na sociedade que precisam ser quebradas, modificadas, estas sim arrancadas de todos os lugares. Não vai adiantar tirar o lambe! Seguiremos colando, falando, denunciando!
Que estejamos armadas de palavras, fé, luta, ginga e união! Assim como nos próximos anos, ciclos que virão, avante sempre.
Campanha contra as violências na capoeira @capoeiracolher @mariasfelipas
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*Ana Paula Fagundes é bióloga, ambientalista, mãe, capoeirista no Coletivo de Capoeira Angola Gira Ginga, integra a rede Estudos e Intervenção Feminista na Capoeira Marias Felipas
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

