Ana Paula Fagundes*
É um lamento, uma cantinga, uma oração
É uma dor, é um sofrimento
que trago nesta canção
Chooora viooola
Ê dindindim domdomdom
Acalenta o meu peito
Alivia o coração
ÊEE camarada
Mano da vadiação
A chamada é de angoola
Vem trocar o pé pela mão
Vem pra esta roda
Vem mudar esta visão
Vem te livrar desta rasteira
Da covardia e omissão
Eu rogo as Deusas
Que nos dê a direção
Pra encontrar a capoeeeira
Que pregou libertação, camaradinha
(Ladainha Mestra Samme, (Laborarte/Matroa/ Coletivo Quem Nunca Viu Venha Ver)
Dia após dia enfrentamos tempestades, retrocessos inimagináveis até chegar mais um oito de março. Sim, o Dia Internacional das Mulheres é um dia de luta, como os demais, mas pelo encontro também brilha o arco-íris!
Como aquele arco completo que vem depois de uma tormenta, colorindo o céu cinza e embelezando nossos olhos, nosso dia. “Vamos juntas companheira, que eu não posso andar só, eu sozinha ando bem, mas com você ando melhor” se canta na Marcha 8M e enche o coração, traz esperança de dias melhores, da união entre pessoas em prol de um mesmo objetivo.
Hoje se convoca os homens para lutar contra o feminicídio, mas fico pensando como afastar os falsos aliados. Que ninguém é perfeito, todo mundo sabe, mas dói quando a gente vê uma mulher na defesa do agressor, ou quando a gente está do lado do agressor e não sabe de nada! Recentemente passamos por situação assim que motivou a campanha de colagem de lambes. Surgiram lobos em pele de cordeiro e pavões por todas as partes e ofendidos/as com nossa manifestação.
“O que vale a vida de uma mulher negra?” questionou Zonzon ao relatar o feminicídio cometido por K., mestre de capoeira, livre e enaltecido no meio capoeiristico. Sabemos que a justiça é demoradae sofremos – às vezes de forma muito drástica, com a presença dos agressores no meio da capoeira.
Se o que ocorre na capoeira é mais restrito, no meio do futebol tem-se todos holofotes e ampla divulgação. E Bruno que cumpre em liberdade condicional a pena de 22 anos volta ao campo! O crime envolveu esquartejamento de Eliza Samudio e dar a carne aos cachorros. A condenação ocorreu em um dia 8M de 2013 e foi uma vitória, porém seguida de idas e vindas do goleiro aos gramados. Desta vez, ele volta ao campo ao mesmo tempo que outros jogadores da equipe (Vasco- AC) fazem homenagem a três dos quatro jogadores presos por estupro coletivo.
Reduzir a vida a um objeto, algo sem importância é o que justifica toda sorte de agressão e violência. Quando se reduz a vida a objeto, ou hierarquiza a vida, se dá permissão à crueldade.
Assim Bruno ainda é considerado um ídolo e os jogadores têm a coragem de homenagear os estupradores.
Jovens se acham no direito de torturar e matar um cachorro comunitário, como foi com Orelha na Praia Brava/SC.
Rios são vistos pelo governo e corporações como um instrumento para escoamento de commodities de exportação, como é o caso do Rio Tapajós, Madeira e Tocantins na Amazônia. Comunidades tradicionais têm seus direitos de escuta livre e informada violados, sua cultura e sua vida violada.
Mãe Bernadete (ialorixá e líder quilombola) é assassinada no próprio quilombo, Quilombo Pitanga dos Palmares, apesar de estar sob proteção do estado.
A pajé e líder indígena Negra Pataxó sangra até a morte na presença da força nacional, 14.
Jovens negros seguem sendo alvo da polícia.
Crianças, são tratadas como objetos sexuais. Ao ponto de desembargadores de MG absolverem um homem de 35 anos acusado de estupro de vulnerável contra uma menina de 12 anos por “vínculo afetivo consensual” e “uma relação análoga ao matrimônio, fato este que seria do conhecimento de sua família”. Ou seja, nesta decisão uma criança vira esposa, rasga-se a obrigação do estado em proteger a infância. O caso teve reviravolta, como descrito adiante.
Importante perceber que esta decisão se deu no mesmo momento histórico onde o caso Epstein foi aberto com três milhões de arquivos tornados públicos e dali saíram denúncias de relação com o Brasil. Homens poderosos de todo lugar, da direita e da esquerda progressista envolvidos nos casos de pedofilia e estupro de vulneráveis. A absolvição no caso de estupro de vulnerável é uma maneira de normalizar esta violência. Mecanismo para defender, desde já, os desvios de conduta que aparecerão com maior frequência, quando vai se desvendando os arquivos e expondo ao público.
Algumas decisões e violências aqui narradas foram revertidas, pela comoção nacional e pressão nas redes sociais e nas ruas. Como é o caso da revogação do Decreto nº 12.600/2025 que desestatiza os rios Tapajós, Madeira e Tocantins para escoar commodities, o que aconteceu após muita pressão popular e luta indígena com a ocupação da Cargill pelas comunidades por 33 dias. O julgamento que havia absolvido o estuprador foi revertido via voto monocrático do relator. Estuprador e a mãe da menina foram presos, ao mesmo tempo que surgiram denúncias de crimes sexuais praticadas pelo desembargador relator do julgamento de absolvição.
Outras situações recentes como o julgamento de Marielle e condenação dos assassinos, irmãos Brazão, trazem um alento, porém a luta continua. O julgamento do assassinato de mãe Bernadete que aconteceria em 24 de fevereiro foi adiado para 13 de abril. E o de Nega Pataxó, morta em 2024, com o assassino preso em flagrante, mas liberado após pagar fiança, ainda não foi a julgamento.
Antes de fechar este texto veio a notícia de que o advogado e professor de direito foi preso em um processo que apura denuncia de estupro e outro crimes contra pelo menos dez mulheres. E assim, entre vitórias e novas batalhas, vamos passando o ano até um novo 8 de março.
Reafirmando em cada passo que vidas não são objetos descartáveis. Estupro e violência contra crianças e mulheres não serão normalizados! Não será naturalizado! A guerra é todos os dias, mas juntas, juntes o arco-íris há de brilhar.
*Ana Paula Fagundes, bióloga, ambientalista, mãe, capoeirista no Coletivo de Capoeira Angola Gira Ginga, escritora e ilustradora do livro “Tranças de Mulheres na Capoeira Angola”, integra a rede Estudos e Intervenção Feminista na Capoeira Marias Felipas.
**Contribuição de Christine Zonzon
***Acesse o blog para consultar materiais. https://mariasfelipas.wordpress.com/

