Eu tomo de empréstimo a expressão Nego Fugido de uma manifestação cultural que acontece todos os anos, no mês de julho, em uma cidade do interior da Bahia, numa comunidade remanescente de Quilombo. A utilizo como um mito que constitui a formação de um povo, assim como o Moisés Egípcio de Freud. Quem quiser saber mais sobre essa manifestação cultural, indico a tese de doutorado de Monilson dos Santos Pinto, “A bananeira que sangra: desobediência epistêmica, pedagogias e poéticas insurgentes nas aparições do Nego Fugido”.
Num exercício de pensarmos e fazermos uma Psicanálise Amefricana, a experiência discursiva junto aos colegas do grupo de trabalho Psicanálise Amefricana da Après Coup e à escritora psicanalista Eliane Marques, somou-se às afetações com as aparições do Nego Fugido que tive a oportunidade de conhecer. Uma encruzilhada de experiências e memórias, de tempos diferentes produzindo algo que Carla Akotirene chamaria de oferenda analítica¹. Sobre o tempo e temporalidades, temos o texto de Rafa Dornelas, “Exu e o Tempo: Psicanálise e Amefricanidade” que nos traz uma percepção de tempo não ocidentocêntrica e Exu como esse fenômeno que tece a própria história e cria seu próprio tempo não linear, estabelecendo uma relação do tempo com o inconsciente e sua dinâmica poética em que os tempos se misturam, não há passado presente e futuro. É o Isso. As memórias recortadas e editadas do vivido, da transmissão de memórias e da reversibilidade e irreversibilidade do que é dito, sobretudo em análise.
E o Nego Fugido nos dá pistas de como analisar a produção de significação em relação à cor negra para pessoas negras e não negras numa sociedade racializada. Já que, como diz Isildinha Baptista Nogueira, “Não se trata, está claro, de significados explicitamente assumidos, mas de sentidos presentes, restos de um processo histórico-ideológico que persistem numa zona de associações possíveis e que podem, a qualquer momento, emergir de forma explícita²”, pela violência racista direcionada aos corpos não brancos. “O que a Raça pode dizer da Psicanálise?” Essa pergunta foi feita por Thamy Ayouch no livro “A raça no divã³”. Inquietações semelhantes encontramos também em “A cor do inconsciente: significações do Corpo Negro” de Isildinha. E não obstante, aproximam-se do esforço de pensamento e prática analítica que o grupo de trabalho tem se proposto a fazer, qual seja, encarar raça como ponto impensado no discurso psicanalítico.
Thamy continua sua provocação à Psicanálise com a questão “Quem pode falar?” e com isso evidencia os efeitos da branquitude no processo analítico como uma forclusão da diversidade. Ou seja, um mecanismo psíquico em que pessoas não brancas são aquelas excluídas da possibilidade de representação e por uma gramática hegemônica que trai a singularidade do sujeito. E portanto, o recalque e a alienação linguística são distintos porque a raça define uma relação desigual, de hierarquização e deslegitimação da competência do discurso de pessoas que sofrem com o racismo por não serem brancas. As escutas ficam reduzidas por produções ativas de ignorância, em que o branco dá a última palavra sobre o racismo, sobre tudo e qualquer coisa, fazendo a colonialidade atravessar as produções psicanalíticas dentro e fora do setting terapêutico, sobretudo com analisantes e colegas psicanalistas não brancos. Essa produção ativa de ignorância impede que o trauma da travessia seja escutado nos processos analíticos e compreendido como um sintoma da colonialidade que nos atravessa.
O trauma da travessia
O Nego Fugido será colocado aqui como uma espécie de alegoria que representa uma experiência de constituição subjetiva na Amefricanidade, a partir da memória de um trauma transatlântico, experimentado no real e na transmissão desse real primevo. E o trauma que nos referimos decorre de rupturas, travessias, retornos e restituições. A sobrecarga psíquica e emocional intensa e continuada impossibilita a simbolização e integração do vivido no sujeito. Desde quando se constitui como pessoa dentro de uma linguagem racializada e em uma sociedade estruturada para brancos, fora do laço social que nos dá uma noção de pertencimento e comunidade, esta sobrecarga é lançada para o inconsciente. Isto é, há um tormento transmitido intersubjetivamente e intergeracionalmente que exclui pessoas não brancas de um laço social intensificando o laço racial. Sobre laço social, o texto “O Supereuropeu4” de Evandro Luciano discorre como essa instância psíquica, que funda uma lei simbólica, se constitui em uma sociedade estruturada pela racialidade.
O Nego Fugido como significante é esta palavra que ao mesmo tempo ganha contornos definidos de uma experiência traumática e não se reduz a ela pela experiência da dor e do sofrimento, porque prenhe de significações. E estas significações se juntam às memórias de experiências de uma travessia transatlântica como campo de possibilidades da relação com o vivido, o incorporado, o dito, o não dito, o recalcado e o transmitido.
Para tecermos uma compreensão entre temporalidade e trauma do Nego Fugido, é preciso retornar às origens ancestrais, não no sentido de encontrar uma realidade intacta, fechada e isenta de afetações. Ou seja, é preciso atravessar o mar e pescar o que constitui um modo de existir de um povo não ocidental, diverso e místico. Uma vez escutei de um praticante de candomblé que a vida é feitiço e, de meu Doté que quando acaba o mistério, acaba o encanto. Estas duas falas remetem ao pensar Nagô tão bem apresentado por Muniz Sodré, como um sistema filosófico e ético cuja cosmologia afirma o divino como parte da vida.
A temporalidade é manifestada no desejo de constituir comunidade e na continuidade do grupo instituído. E essa relação é criada num tempo que não é cronológico, não passa pela referência ocidental de linearizar o tempo do vivido. Mas, um tempo litúrgico de um ritual, da presença do sagrado nos ritos que celebram os vivos, os mortos e as forças da natureza no mesmo plano. O sagrado não está apartado do mundo dos vivos, não há uma divisão entre céu, terra, inferno e política5 como impõe a mentalidade ocidental e cristã. Os vivos tocam, dançam e oferendam presentes para seus deuses, junto com eles. Uma comunidade que incorpora os mitos que acreditam. Os Orixás para além de mitos são forças da natureza, a energia ancestral de todos os seres, são princípios cosmológicos. A corporeidade é a palavra, a carne e o divino, o visível e o invisível. O sagrado está dentro e fora do corpo e não apenas na força dos Orixás. Aquilo que não vejo é sentido pelo sensível do corpo e compartilhado por uma comunidade de pertencimento.
Dito isto, a partir daí é possível compreender o trauma da travessia como Semiocídio, expressão utilizada por Muniz Sodré para designar o processo de ocidentalização, evangelização, colonização e escravização sofrido pelos povos sequestrados que aqui chegaram. A relação com a comunidade de origem e pertencimento, a relação com a terra e a natureza e a relação com o invisível, com o sagrado, sofreu uma fratura da ordem do esquecido e do matado. Do recalcado e da tentativa de aniquilamento. O trauma transatlântico produziu uma diferença na constituição subjetiva de um corpo que vive entre o Ayê e o Orun. Portanto, o pensar Nagô é uma experiência específica da diáspora africana nesta desterritorialização e dessacralização de formas originárias de vida, que estabelece uma relação telúrica com os acontecimentos do aqui e agora.
O povo que aqui se forjou se funda num pensar vivendo e não vivendo para pensar. Se funda na afirmação do acontecimento que comporta a ideia do trauma e da restauração ou restituição de uma memória que seria a continuidade da vida em comunidade que foi perdida. Assim, o banzo ou a tristeza profunda é um desencanto do mundo, a ausência da própria cosmogonia que sustenta o sujeito. O contrário da vida não é a morte, é o desencanto de ser com o outro, que não se resume à espécie humana, inclui a natureza e o sagrado.
Reconstituir a comunidade perdida através dos quilombos como os terreiros, reconstruir a história, resistir criando motins, inventar outra língua, sacralizar o cotidiano com arte são os modos encontrados para recuperar o mistério e o encanto pela vida. É fundar outra civilização e retornar à África mítica, mas não do mesmo jeito.
1.Texto publicado na Revista de Psicanálise Amefricana Bô Kibunda, ano 2025.
2. Isildinha Baptista Nogueira. A cor do inconsciente: significações do Corpo Negro. São Paulo: Perspectiva, 2021.
3. Thamy Ayouch. A raça no divã. Devires, 2025.
4. Texto publicado na Revista de Psicanálise Amefricana Bô Kibunda, ano 2025.
5. Política é entendida aqui como produção de vida em comunidade e não como sistema político-partidário.
*Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

