“Para quê uma clínica em Psicanálise Amefricana?” foi a pergunta mobilizadora que gerou um movimento: o de sentir fazendo, que desaguou parcialmente em curso de verão “Introdução à Clínica Amefricana” da Après Coup Escola de Psicanálise e Poesia, organizado pelo Grupo de Trabalho Psicanálise Amefricana e desembocou no presente texto, já modificado para esta Coluna. Para responder a essa pergunta perturbadora e aberta como oceano, evoco o manifesto “Por uma Psicanálise Amefricana” escrito por Eliane Marques e Marcela Villavella:
“…ainda que um dos principais textos de Freud apresente um Moisés africano como fundante de certo tipo de sociedade onde se passa da pedra à palavra e Cheikh Anta Diop conceba a África como fundante da civilização, o não europeu ainda está longe de ser ouvido como sujeito na psicanálise, o não europeu ainda não se presenta como efeito da fala nesse campo que se pretende subversor de um discurso do amo. Nessa senda, psicanálise amefricana vai se constituindo numa nova maneira de se conceber o discurso em seu movimento estrutural. Psicanálise amefricana, enlaçada na concepção de Améfrica Ladina proposta por Lélia Gonzalez, vai se constituindo no pagamento de uma dívida que temos com nossas/nossos ancestrais. E ainda, psicanálise amefricana vai se constituindo num movimento de renovação na psicanálise onde Exu, como o fora e o dentro da série, é a base de um discurso fundante de novas formas de laço social. Se a psicanálise se impulsionou sobre o conceito de inconsciente, sobre a estruturação do inconsciente como linguagem, se a psicanálise se constrói sobre os equívocos, os atos falhos, os sonhos, os mitos, como é possível então que a Améfrica tenha de dar razões/explicações sobre si própria? É o momento de levantarmos do chão os mitos enterrados e de enterrarmos os monstros da razão, com trabalho e trabalho para ampliarmos ou mesmo derrubarmos conceitos ditos ocidentocêntricos”.
Trago esta passagem por acreditar que, ao conceber uma clínica na Psicanálise Amefricana, nosso trabalho passa por analisar a dinâmica psíquica fora da concepção coercitiva, de um sujeito consciente de si e idêntico a si mesmo, preso a uma ideia de representação de si imposta pelo/ao mundo. E mesmo que sejamos afeitos a existência do inconsciente como uma instância psíquica em que não temos plena consciência de nós mesmos, há partes de nós aprendidas nas sociabilidades ancestrais europeias e ocidentais que insistem em buscar uma consciência plena, transparente e idêntica a si mesmo no mundo. Não estamos imunes a este processo por nos constituirmos psicanalistas em território amefricano e escutar o que do trauma de travessia é exposto pelos sujeitos que escutamos. As nossas defesas entrarão em jogo mas já estaremos cara a cara diante de um espelho opaco dos horrores que nos habitam e desorganizam.
Trauma de travessia
A diáspora é um fenômeno abordado em “Moisés e o Monoteísmo” como uma travessia que funda sociedades e civilizações. Neste livro, Freud sai em defesa da africanidade de Moisés e discorre como uma memória traumática de travessia produz um funcionamento psíquico que tenta dar conta dos efeitos do trauma, das edições da memória na tentativa de recuperar ou reconstruir algo perdido e vivido em coletividade. Assim como recriar uma comunidade de pertencimento em que o sofrimento daquilo que desaparece se reencontra na partilha da mesma dor causada pelo trauma de travessia. Esta memória inconsciente da formação dos povos é a repetição da história de algo que tentamos resolver enquanto comunidade que passa pelos questionamentos de quem sou eu, qual a minha origem e porque as coisas funcionam de determinadas maneiras.
Por entendermos que o acontecimento a partir de Exu funda um tempo e não o contrário, experimentamos inconscientemente muitas diásporas na nossa constituição subjetiva. Contudo, para conseguirmos analisar os efeitos disso singularmente e coletivamente localizamos no tempo dos acontecimentos a diáspora imposta por uma escravatura que funda o que chamamos de capitalismo e neoliberalismo hoje. Uma espécie de produção de vida constituída pelo que Achille Mbembe chama de delírio branco, europeu e ocidental em Crítica da Razão Negra. Que produz adoecimentos de toda ordem, loucuras como desconexão da própria natureza de ser vivente em um mundo orgânico e mortes físicas e simbólicas. Um delírio transatlântico que continua em curso e agora não mira somente corpos, mas a própria terra que o alimenta. Como diz Édouard Glissant “A usura mais duradoura do que um apocalipse”. E para nós que se propõe a produzir uma psicanálise amefricana, os sintomas deste processo histórico não foi alvo de interesse teórico e nem de tratamento da psicanálise tradicional, uma vez que no lodo das memórias inconscientes estes processos não eram escutados com o devido cuidado como um resquício de violências que estruturam uma linguagem, uma sociedade e portanto seus processos de subjetivação e produção de vida. E isso faz toda diferença quando falamos da manutenção de violências como o racismo.
A opacidade do inconsciente em Édouard Glissant e o Espelho de Oxum
Freud rompe com a ideia de sujeito plenamente consciente de si mesmo, cujas operações psíquicas são transparentes e passíveis de conhecimento absoluto pelas faculdades racionais de seu funcionamento. E expõe uma das feridas narcísicas da sociedade moderna ao afirmar que o inconsciente é uma instância psíquica com suas próprias leis e o sujeito não tem nenhum domínio sobre isso, suas manifestações se dão em formas de sonhos, lapsos, sintomas e atos falhos não acessadas de forma imediata pela consciência. Portanto, este saber consciente e pleno de si mesmo é uma ilusão.
Já Lacan vai mais adiante ao afirmar o inconsciente estruturado como linguagem carregada de significantes que determinam pensamentos, desejos e ações. E o sujeito se constitui pelo atravessamento de uma linguagem que não diz tudo sobre si mesmo. É barrado porque pela linguagem é dividido entre o que sabe e o que não sabe de si. E o que sabe nunca coincide consigo mesmo, o que revela a opacidade desse olhar sobre si mesmo.
Na psicanálise amefricana, buscamos conceber o inconsciente racializado proveniente de um imaginário colonial e escravocrata não escutado, estruturado por uma linguagem racializante. Linguagem esta sustentada por uma operação especular que categoriza os seres hierarquicamente, produz identidades fixas e determina posições de poder. A colonização transformou o olhar em mecanismo de dominação em que o outro é capturado, passível de nomeação, representação e tradução pelo desejo e posição de poder de quem olha. E para seguirmos ampliando ou mesmo derrubando conceitos ocidentocêntricos acerca do inconsciente, buscamos em Edouard Glissant uma outra possível compreensão desta instância psíquica:
“A transparência deixou de figurar como o fundo do espelho em que a humanidade ocidental refletia o mundo à sua imagem; no fundo do espelho agora há opacidade, um lodo depositado pelos povos, lodo fértil, mas na realidade incerto, inexplorado, ainda hoje frequentemente negado ou ofuscado, cuja presença insistente não podemos evitar ou deixar de vivenciar” (Edouard Glissant, p. 140)
Podemos considerar então que o inconsciente amefricano, restos de uma relação colonial entre povos ocidentais e africanos, ameríndios e asiáticos de uma travessia afrodiaspórica, é este espelho opaco dos significantes eurobrancocidentais, mas também formulados por povos frequentemente negados ou ofuscados. E a presença destes não pode ser evitada. Porque, segundo Muniz Sodré, “a ausência corporal de quem se foi repercute no corpo vivo e, se ritualizada, pode transformar-se em linguagem para quem fica” (p.116). São como entidades que nos povoam e se expressam numa língua que ainda sofre tentativas de apagamento por escutas estéreis. A psicanálise também é este campo de veiculação de uma língua sobre um saber inconsciente e nas palavras de Glissant: “Veicular ou não, uma língua que não se aventura na perturbação do contato das culturas, que não se engaja na ardente reflexibilidade de uma relação paritária com as outras línguas, parece-me, talvez em longo prazo, condenada a um real empobrecimento”.
No documentário “Edouard Glissant: um mundo em relação” ele diz mais ou menos o seguinte: aqueles que fizeram a travessia como escravos não permanecem escravos, são livres e ganharam qualquer coisa na densidade da humanidade, passaram da unidade para a multiplicidade. Porque são mais do que foram em suas terras, são o que foram em suas terras e mais o que a nova terra lhe possibilitou ser e criar. Ou seja, a perturbação do contato entre as culturas na travessia diaspórica, tornou a opacidade da relação mais potente a ponto de inventar um outro povo, o candomblé e o Pretuguês no Brasil. Frutos dessa multiplicidade.
Nem tudo precisa ser completamente compreendido, basta ser sentido. Afirmar o inconsciente como este espelho que se recusa a mostrar nitidez e transparência, é afirmar a opacidade que nos constitui e constitui as relações. E por falar em espelho e opacidade, evocamos aqui Oxum, entidade da mitologia afro-brasileira associada aos rios e cachoeiras, à fertilidade, ao amor, ao acolhimento, à beleza, à magia que sempre carrega um espelho na mão (o abebé). O espelho de Oxum é como as águas correntes dos rios e a queda das águas de uma cachoeira. Assim como as águas, a imagem refletida é movente, portanto, não é totalmente transparente e nem nítida. Contrasta com as águas paradas de Narciso, que se aliena na imagem de si mesmo como uma totalidade.
Oxum e seu abebé ao mesmo tempo que mostra, oculta a imagem. Assim é a linguagem que povoa o sujeito. Ao erguer o seu abebé, Oxum devolve a imagem ao outro que se coloca no lugar de ver sem ser visto. Inverte a função especular por dominação em reflexo que desorganiza. Quebrando a série de violência que se dá por uma dinâmica totalizante do olhar.
Encontro das águas: o espelho e a transferência
Chamamos de pororoca o encontro do rio com o mar. É quando na lua cheia ou nova, a maré do oceano invade um rio. E na perturbação do encontro, forma ondas fortes e contínuas que duram um tempo e percorrem vários quilômetros do rio. O rio acolhe as águas do oceano em seu leito. Por fim, o rio sem deixar de ser rio se transforma um pouco no mar, e o mar sem deixar de ser mar se transforma um pouco no rio. E ambas as águas se tornam abundantes pela confluência iniciada com um encontro perturbador. Tomemos a metáfora da pororoca para relacionar espelho e transferência numa clínica amefricana que estamos nos propondo a fazer. Consideremos que o rio seja essa função de espelho desempenhada pelo analista na relação transferencial com o sujeito, que cria um espaço de acolhimento para o que deságua, oferecendo uma escuta-superfície em que algo pode ser mostrado, refletido com sua opacidade, incompreensão e mistério.
A transferência pode ser considerada como o mar carregado de significantes forjados por imagens, afetos, desejos, entidades que nos povoam, experiências que se entrecruzam em muitas correntes de acontecimentos no curso de vida, cuja potência gerada num tempo passado, retornam como água que invade e avança o tempo presente com uma força incontornável e incontrolável na praia analítica. Não existe fronteira entre passado, presente e futuro, mas acontecimentos que marcam o tempo de uma experiência vivida que retorna como ondas mais enérgicas e mais brandas.
A pororoca é um estrondo, as águas que pareciam calmas se agitam, o impacto do encontro do espelhoanalista com a transferência do sujeito, tem um quê desestabilizador, desorganizador de uma corrente. É um barulho que mexe, transtorna, vira onda. E é opacamente aí que o trabalho analítico acontece. Quando o barulho se torna audível, um novo som, um novo fluxo acontece. A clínica deixa de ser colonizante e passa a ser um espaço de relação em que o sujeito não tem que ser transparente para ser reconhecido e nem se justificar e adaptar-se a uma linguagem para existir. Mas quem está disposto, disposta a escutar, acolher e viver esta perturbação? Quem está disposto, disposta a abandonar suas águas paradas para deixar de ser um/uma e multiplicar-se?
Referências:
Achile Mbembe. Crítica da Razão Negra.
Édouard Glissant. Poética da Relação.
Muniz Sodré. Pensar Nagô.
Manthia Diawara. Documentário: “Édouard Glissant: um mundo em relação” (título original: Édouard Glissant: One World in Relation).
**Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal Brasil de Fato.

