Por Elvis Rezende Messias
Somos diariamente educadas(os) para reproduzir atitudes machistas. Há uma pedagogia difusa nas estruturas sociais que nos leva a naturalizar gestos que inferiorizam mulheres e superiorizam homens. Denunciar essa realidade cultural é um imperativo educacional urgente para o des-ensino da tolice, segundo expressão de Marie de Gournay.
A sociedade moderna/colonial formou-se em dinâmica patriarcal, perspectiva cultural que submete os alicerces cotidianos à cosmovisão da figura do “pai”. O masculino se impôs às relações ideológicas e de poder erigidas entre nós, normalizando a estrutura de violência de gênero no Brasil. Lutar contra isso é um combate educativo de lucidez.
Uma das facetas do patriarcalismo é o machismo, ideologia hierarquizante, discriminatória e violenta que se sustenta na suposta desigualdade de capacidades entre homem e mulher; desigualdade de força física, mas também de exercício de poder sócio-político-econômico, de produção de conhecimento, mantendo o estado vigente de instituições, valores e costumes.
Na raiz, o machismo é uma violência de gênero que se capilariza em violência estrutural, evidente nas sociedades dominadas por homens há milênios. Daí que em nossas mentalidades há elementos de uma colonialidade cultural que marca de machismo nossas condutas, expressões e emoções, que se podem notar:
- na linguagem colonizada, androcêntrica, que resiste a expressões inclusivas como “todas e todos”, pronomes neutros (“todes”, “bem-vindes”) etc.;
- em um modelo de formação que reproduz padrões que reforçam estereótipos do que é função de homem e de mulher (“homem não chora”, “mulher é frágil e precisa ser protegida”);
- na dificuldade para as mulheres ocuparem vários lugares, por terem de aturar tantos assédios, pelo esgotamento vindo de múltiplas funções que se acumulam como se lhes fossem exclusivas (cuidar de filhos, casa, alimentação…).
Além disso, machismo e patriarcalismo também se evidenciam:
- nos salários inferiores que mulheres recebem exercendo a mesma função que homens;
- nos lares onde mulheres vivem de forma submissa a homens;
- na alta taxa de feminicídio, inclusive dentro dos próprios lares, onde ocorre majoritariamente, muitas vezes com a tese da “legítima defesa da honra” do homem;
- no moralismo que diz ser “feio” uma mulher beber “muito” e que considera absurdo que mulheres saiam juntas sem um homem com elas;
- em falas que ridicularizam o feminismo (feministas como “feminazi”, “mulheres feias”, “mulheres mal-amadas”, “falta de homem”…).
Disso decorrem outros fatos:
- estereotipação da mulher (sexo frágil, pessoa que fala muito, fofoqueira, “histérica”);
- casos recorrentes de estupros, que também ocorrem em casa pelos próprios companheiros;
- nas “justificativas” de estupros que culpabilizam a vítima (roupa que usava, horário e local que estava quando ocorreu o estupro);
- estetização e erotização da mulher, normalizando o olhar masculino sobre seu corpo e confundindo assédio com elogio ou paquera.
Há também uma idealização e sexualização da própria figura masculina, naturalizando ideias de que o homem:
- não controla desejos sexuais ou não pode ter situações de baixa libido ou impotência;
- não deve fazer exame de próstata ou apenas por coleta de sangue, sem toque retal;
- não deve ser uma “pessoa sensível”: chorar, ser atencioso, dialogar, rever atos e ideias;
- não deve fazer “coisas feminizadas”: ter amigos gays, ter “amigas”, cursar Pedagogia, fazer “serviço de mulher”.
Sobre o cursar Pedagogia, um dos principais cursos de formaão de professoras no Brasil, há muitas falas discriminatórias, como: “pedagogia é curso de mulheres”, “se tem homem na turma, é gay”, dentre outras que sutilmente perpetuam uma repulsa ao sexo feminino e à comunidade LGBTQIAPN+.
Já a expressão “serviço de mulher” evidencia que a colonialidade de gênero sobrecarrega a mulher com múltiplas funções e atribui ao homem o provimento financeiro. Isso é tão arraigado que, mesmo que a mulher exerça trabalho formal externo, a ela são impostos os “trabalhos da casa” (limpar, cozinhar etc.), ainda chamados de “trabalhos de mulher”.
Vários homens lutam contra o machismo e assumem tarefas equitativas. Mas há quem diga que “ajuda” em casa. Esse termo é carregado de heranças também patriarcais e machistas, “linguísticas” e “morais”, pois manifestam que a atitude de “ajudar em casa” é, no fundo, uma “caridade” que o homem faz por bondade e altruísmo e não porque está necessariamente obrigado a cumprir.
O machismo se forma por um processo educativo difuso. A sociedade, estruturada patriarcalmente por séculos, educa para a reprodução dessa lógica. Atentar-se às formas sutis de sua manifestação é um imperativo da educação atual. O machismo está presente e ativo de muitos modos, sendo necessário desnudá-lo sempre, a fim de que modos outros de relações de gênero se estabeleçam. É preciso, então, que a sociedade seja educada para não aceitar o jeito machista de ser homem e de ser mulher. Sim, o machismo é um problema educacional, ainda que não apenas.
Elvis Rezende Messias é filósofo, teólogo e doutor em Educação. Docente do Instituto Federal do Triângulo Mineiro (IFTM), Campus Patos de Minas
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