Por Lorena Tavares de Paula
Os processos educacionais sempre foram e continuarão sendo afetados pelas tecnologias. Nesse contexto, a ascensão da inteligência artificial (IA) tem impactado os processos de construção de sentido e práticas formativas. Essas mudanças trazem benefícios à produção acadêmica, pois proporcionam mais dinamismo e ferramentas para a criação, organização e formulação de conhecimentos.
Entretanto, essas mudanças também trazem desafios significativos, pois a integridade acadêmica, em sua essência ética, pode encontrar novos paradigmas que ainda não foram considerados nos processos normativos da Associação Brasileira de Normas Técnicas (ABNT) para a elaboração de trabalhos acadêmicos.
Neste cenário, têm destaque as chamadas Inteligências Artificiais Generativas. Elas possibilitam a criação de novos conteúdos a partir de sua programação, dados existentes e de comandos (prompts) fornecidos pelos usuários.
Com essas ferramentas, pode-se buscar aprimoramento de escrita, passando pelo suporte na proposição de projetos de pesquisas e sistematização de dados para a elaboração de relatórios técnicos, dentre inúmeras outras possibilidades de aplicações nos mais diversos campos de conhecimento.
Mas em contrapartida, a IA tem proporcionado debates críticos quanto à originalidade dos trabalhos técnicos-científicos, além de questões relativas à propriedade intelectual e aos vieses envolvidos em sua programação.
Uma preocupação legítima, acerca do uso excessivo de ferramentas automáticas para produção de texto e organização de dados, é que possa prejudicar o desenvolvimento do pensamento crítico e a autonomia dos estudantes e da comunidade acadêmica em geral. Isso poderia levá-los a se tornarem prisioneiros de sugestões geradas automaticamente, prejudicando sua formação socio intelectual, que é fundamental para qualquer atividade profissional humana.
Então, por um lado o que se mostra cada vez mais evidente é a crescente conexão entre a IA e a produção acadêmica. Por outro lado, o uso responsável e ético ainda é uma escolha pessoal. Mas o certo é que se precisa encontrar um equilíbrio entre tecnologia, autonomia intelectual e integridade acadêmica. O que exigirá, inevitavelmente, ações que perpassam as instituições de regulação, desde as Universidades até as Associações, como a ABNT.
As normas, como as descritas pela ABNT para a produção de trabalhos técnico-científicos, garantem a integridade acadêmica, assegurando a correta atribuição de autoria e uso de fontes e recursos de informação por meio das regras de citação e referência. Essas são algumas garantias de integridade para o texto técnico ou científico. Assim, as normas auxiliam no combate ao plágio e protegem a propriedade intelectual do autor e outros direitos correlatos.
Diante disso, o ponto que queremos enfatizar neste breve texto é que todo uso “acadêmico” da IA estará diretamente vinculado aos conhecimentos pré-existentes e à clareza de ideias apresentadas no processo de geração de um trabalho técnico científico.
A exibição de textos produzidos de forma mecânica, sem a participação ou interação humana, está sujeita à detecção e constrangimento quanto à originalidade e autoria da produção textual. Acima de tudo, a tecnologia generativa não oferece às pessoas a sustentação das ideias apresentadas com a fluidez característica de um agente autor de conceitos, estudos e relatos.
O uso pleno de tecnologias de IA para a produção de trabalhos acadêmicos está e sempre estará inevitavelmente orientado pela formação socio intelectual dos sujeitos envolvidos na vida Universitária. Isso é somado à sua compreensão de normas de conduta previamente estabelecidas para a vivência e comunicação no campo científico. Muitas dessas garantias são oferecidas pela aplicação de normas técnicas, como as definidas pela ABNT, para além da pessoalidade da conduta ética.
Então, pode-se crer que estamos à espera de uma regulamentação associada à integridade acadêmica na era das tecnologias de inteligência artificial generativas.
No entanto, a velocidade de desenvolvimento das plataformas é significativamente maior do que a capacidade de compreensão e ação para consolidar mecanismos de padronização que garantam que a Inteligência Artificial, ao ser utilizada, esteja alinhada com os valores e princípios éticos compactuados no âmbito acadêmico.
Neste sentido, cabe a cada um dos integrantes da comunidade universitária, lidar com os princípios éticos fundamentais que sustentam a qualidade e a credibilidade de qualquer ambiente de aprendizado e pesquisa. Discutir e fomentar a integridade acadêmica engloba discorrer constantemente sobre a essencialidade da honestidade, a confiança, o respeito, a justiça e a responsabilidade em todos os aspectos do trabalho científico.
Manter a integridade acadêmica é crucial não apenas para garantir avaliações justas e a validade do conhecimento produzido, mas também é essencial para desenvolver as habilidades de pensamento crítico e a responsabilidade ética necessárias para a vida profissional e para a cidadania.
Esses pilares formativos não podem ser negociados ou reconsiderados à luz de tecnologias emergentes.
Lorena Tavares de Paula é professora adjunta da Escola de Ciência da Informação (ECI) – UFMG. Email: [email protected]
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