Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta

O APUBHUFMG+ é o sindicato dos professores e das professoras da Universidade Federal de Minas Gerais. A Coluna do APUBHUFMG+ é mantida pela diretoria da entidade e conta com textos elaborados, principalmente, por docentes da UFMG. Os textos que compõem a coluna tratam de educação, ciência, tecnologia, cultura e artes, que, no conjunto, compõem o trabalho desenvolvido nas universidades.

Percepção pública de Ciência e Tecnologia

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Pesquisas mostram pequenas oscilações ao longo do tempo em relação às áreas de interesse dos entrevistados | Crédito: Reprodução

95,4% da população acredita que as mudanças climáticas estão acontecendo

Por Paulo Sérgio Lacerda Beirão

Como o povo brasileiro vê a ciência, os cientistas e as instituições de pesquisa? Para responder a essas perguntas, o Centro de Gestão e Estudos Estratégicos (CGEE) vem fazendo periodicamente pesquisas por amostragem desde 2006. A última, recentemente divulgada, se refere ao ano de 2023 e revelou coisas interessantes, algumas das quais comentarei.

As pesquisas mostram pequenas oscilações ao longo do tempo em relação às áreas de interesse dos entrevistados. Neste levantamento, a área de Medicina/Saúde se destaca com 77,9% de interesse, seguida de perto, com 76,2%, pela área de Meio Ambiente. A Religião desperta interesse em 70,5% dos entrevistados. Das áreas consultadas, a Política se mostra relativamente menos atraente, mas cujo interesse aumentou significativamente de 23,2% em 2019 para 32,6% em 2023.

De uma maneira geral, a pesquisa mostra uma confiança da população na ciência. Uma proporção de 66,2% dos entrevistados acredita que a ciência traz mais benefícios do que malefícios, contra 6,1% que acreditam no contrário. A confiança naquilo que é produzido pela ciência acaba se refletindo na confiança em seus porta-vozes.

Perguntados sobre as duas categorias profissionais em que têm mais confiança, a que alcançou maior índice de confiança foi dos médicos, seguida de perto pelos cientistas de universidades ou instituições públicas de pesquisa, ambas profissões fundamentadas no conhecimento científico.

Por outro lado, a categoria que goza de menor credibilidade, com alto índice negativo, é a dos políticos. Isso mostra uma preocupante distorção no nosso sistema eleitoral, porque, de todas categorias elencadas na pesquisa, esta é a única em que seus membros são escolhidos pelo próprio povo. Será que o sistema eleitoral tem favorecido quem melhor engana o eleitor, e este acaba se sentindo traído? Talvez o baixo interesse na política leve à desinformação, resultando em más escolhas.

Tecnologias, mudanças climáticas e vacinas

Quanto ao impacto das principais tecnologias, há uma avaliação de impacto positivo por 82,6% das pessoas em relação ao uso de energia solar, e de 76,9% em relação às vacinas. A maior desconfiança é em relação à energia nuclear, onde 40,2% acreditam que o impacto é predominantemente negativo.

A pesquisa inclui a verificação da opinião dos entrevistados em relação a tópicos mais polêmicos ou emblemáticos. O brasileiro se sai bem na crença de que o planeta terra é redondo (81,0% concordam integralmente) e em não acreditar em horóscopo (42,2% discordam integralmente contra 24,9% que acreditam integralmente).

A grande maioria (95,4%) acredita que as mudanças climáticas estão acontecendo, e 78,2% atribuem isto predominantemente a ações humanas. Pouco mais da metade (50,4%) acredita total ou parcialmente na evolução dos seres humanos a partir de outras espécies. No entanto, uma parcela significativa (35,5%) discorda totalmente disto, proporção um pouco maior do que a dos que concordam totalmente (33,2%), o que mostra uma significativa influência do fundamentalismo religioso.

Por outro lado, 35,7% dos entrevistados discordam totalmente que algumas vacinas causem autismo, contra 20,8% que concordam totalmente. Embora menor, esta proporção é muito preocupante para a saúde pública. Isto porque as vacinas trazem um duplo efeito benéfico: a proteção individual de quem a tomou e a proteção da comunidade. Para que a proteção comunitária seja plenamente alcançada, a vacinação tem que alcançar altas proporções de vacinados.

Vamos pegar como exemplo a vacina contra o sarampo. O sarampo é uma doença muito transmissível e que pode ser grave e letal, principalmente em crianças. A vacina é cientificamente comprovada como eficaz (a proteção chega a 98% depois da segunda dose) e segura (testada inicialmente em milhares de voluntários, vem sendo provada ao longo dos anos em milhões de vacinados). Como há pessoas que não respondem à vacinação ou não podem ser vacinadas (pessoas com baixa imunidade), elas somente estarão protegidas se não houver vírus circulante – e só não haverá vírus circulante se houver poucas pessoas suscetíveis.

Foi assim que a humanidade conseguiu erradicar a varíola e esteve próxima de erradicar a poliomielite. O Brasil chegou a erradicar várias doenças transmissíveis, como o próprio sarampo, e que agora podem retornar devido a narrativas negacionistas.

Estes e vários outros resultados dessas pesquisas podem ser encontrados aqui.

Paulo Sérgio Lacerda Beirão é professor emérito da UFMG, ex-presidente da FAPEMIG e integrante da Diretoria Ciência, Tecnologia e Educação do APUBHUFMG+

Leia outros artigos da coluna Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta, do APUBH, no Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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