Educação, Ciência, Tecnologia, Cultura e Artes em Pauta

O APUBHUFMG+ é o sindicato dos professores e das professoras da Universidade Federal de Minas Gerais. A Coluna do APUBHUFMG+ é mantida pela diretoria da entidade e conta com textos elaborados, principalmente, por docentes da UFMG. Os textos que compõem a coluna tratam de educação, ciência, tecnologia, cultura e artes, que, no conjunto, compõem o trabalho desenvolvido nas universidades.

Menina cientista, se eu cheguei até aqui, você também pode

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Rosy Isaias é professora titular do departamento de botânica da UFMG, pesquisadora 1A do CNPq onde atua no comitê assessor da Botânica | Crédito: Reprodução/mulherespelosoceanos

A inclusão só ocorrerá se estivermos organizadas

Por Rosy Isaias

A menina que sonhou ser cientista ignorou os fatos e acordou, em 2024, como a primeira pesquisadora autodeclarada negra a alcançar o mais alto nível dentre os bolsistas de produtividade em pesquisa do CNPq (com licença poética para a bióloga-escritora Cláudia Vecchi-Annunciato).

Esta menina sou eu, Rosy Isaias, uma cientista que segue sonhando com a construção de uma grande galeria de jovens doutoras fazendo a diferença para a ciência brasileira e mundial.  Este texto é escrito pensando em vocês e, nas pessoas de gêneros diversos em espaços de poder.

Desde que a notícia da bolsa PQ 1A ganhou as mídias, a palavra que vem permeando minha trajetória é representatividade. Estar em ambientes e momentos tão diversos como a Fiocruz-RJ na abertura da Semana Nacional de Ciência e Tecnologia, institutos e universidades federais, bem como escolas públicas pelo Brasil, enriquece meu repertório por meio da troca de saberes e vivências.

O meu trabalho como uma professora que faz pesquisa em uma universidade federal, a UFMG, me levou a conhecer quase todos os estados brasileiros e alguns países da América Latina, da Europa, da Ásia e da Oceania. 

O ganho cultural é imenso e, além de novos horizontes de aprendizado, amplia minhas oportunidades de interações pessoais e profissionais. O ganho pessoal vem do brilho nos olhares, por vezes marejados de lágrimas, e dos depoimentos emocionados.

As interações são fundamentais, pois a disputa por posições profissionais, em geral, não é equilibrada. Nós, mulheres, ficamos para trás em muitos momentos na trajetória acadêmica. Esta perda de lugar pode ocorrer quando deixamos de acreditar no nosso potencial e deixamos a síndrome da impostora dominar nossa psique.

Por vezes, ficamos para trás na competição por índices quantitativos que desconsideram as pausas requeridas pelo cuidado maternal, bem como pelo cuidado com os pais e amigos. Pode ocorrer também de não sermos indicadas para posições de liderança, ainda que tenhamos o currículo e a formação adequados, porque, no inconsciente coletivo (ou será consciente?) os homens são mais aptos a liderar.

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Então, vale a pena organizamo-nos coletivamente e estabelecermos redes de contato para que nosso potencial seja reconhecido e que sejamos lembradas. Falar sobre a importância da ocupação dos espaços de poder por mulheres é fundamental para que as mudanças nos perfis de liderança continuem ocorrendo. A equidade de gênero só poderá ser alcançada se as pessoas em espaços decisórios estiverem cientes e conscientes do bem social que se faz ao promovê-la.

Mulheres organizadas coletivamente

A inclusão só ocorrerá se estivermos organizadas e quando as indicações levarem em consideração o papel fundamental que a diversidade desempenha nas tomadas de decisão.

A representatividade fala alto quando uma menina do ensino médio de uma escola pública diz: “se a professora Rosy chegou lá, eu também chegarei”. Esta mensagem reforça em mim a responsabilidade que a representatividade carrega e aumenta a certeza de que estudar vale a pena; é nosso ato de resistência.

Segundo levantamento da diversidade racial entre mestres e doutores, publicado na Revista FAPESP em setembro de 2025, a proporção de pretos, pardos e indígenas com pós-graduação no Brasil nas últimas 3 décadas cresceu, o que é animador.

A taxa de emprego formal de pessoas negras com doutorado, neste mesmo levantamento, alcança mais de 70%, o que é maravilhoso. Podemos afirmar que estudar é o melhor que podemos fazer para realizarmos nossos sonhos, ocuparmos os espaços de poder e, de dentro destes espaços, realizarmos a diferença social. 

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O dia 11 de fevereiro se configura como um momento para divulgarmos as mulheres cientistas que foram apagadas da história, mas também para enaltecer as que hoje chegaram e conquistaram seus tão sonhados espaços.

O meu sentimento é de que vale a pena seguir caminhando ao encontro das meninas e mulheres cientistas de todas as idades que atuam e sonham com o potencial de fazer ciência no Brasil e no mundo. Esse dia é nosso. Celebremos!

Rosy Isaias é professora titular do departamento de botânica da UFMG, pesquisadora 1A do CNPq onde atua no comitê assessor da Botânica, membro da Sociedade Botânica do Brasil, da Associação de Pesquisadores Negros e do Conselho Regional de Biologia – 4a região.


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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal

Editado por: Elis Almeida

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