Por Maria Luísa Nogueira
O acesso à escola já é uma realidade para as crianças com Transtorno do Espectro do Autismo (TEA), porém o direito à educação é muito mais do que estar fisicamente presente na escola. O que estão aprendendo? Que recursos estão disponíveis para elas e para seus educadores para garantir esse direito?
O TEA é um transtorno do desenvolvimento, bastante heterogêneo, que afeta habilidades sociocomunicativas, envolve certa rigidez cognitiva e dificuldades no processamento sensorial, influenciando na forma de interagir e na maneira como a pessoa percebe, organiza e responde ao mundo. Hoje vemos como um espectro porque há muitas formas de ser autista: diferentes perfis, diferentes necessidades de apoio, diferentes potências.
O TEA provavelmente sempre existiu, mas só foi descrito na década de 1940. Desde lá, mudamos muito o nosso entendimento sobre o diagnóstico, “o mais instável da história da medicina”, segundo a professora de História da Ciência Amy Lutz. Só mais recentemente o estamos compreendendo (temos mais pesquisas científicas nos últimos 4 anos do que nas 4 décadas anteriores, somadas). O TEA exige atualização constante.
O que a ciência descobriu nas últimas décadas? Intervenções precoces, intensivas e realizadas nos ambientes naturais da criança, de maneira lúdica e com profundo envolvimento dos pais (especialistas em seus filhos e os maiores interessados em seu crescimento) produzem os melhores desfechos no desenvolvimento.
Mas há um problema concreto: quem acessa esse tipo de intervenção? Além disso, a intervenção não tem resultados com poucas horas (uma, duas horas por semana de terapia não vão trazer os melhores benefícios), por outro lado, se a criança passa seis horas ou mais em terapia, estamos deslocando a criança de seu universo próprio, com seus pares de idade, para o contexto artificial do consultório. E, sabemos bem, tem coisas que só uma criança ensina à outra.
A escola
Entretanto, as crianças já estão muitas horas por semana em um espaço cheio de adultos estudiosos de desenvolvimento infantil, e com pares de idade! A escola.
Por isso, o Modelo Denver de Intervenção precoce (Early Start Denver Model – ESDM), que nasceu na clínica, onde mostrou ótimos resultados, foi adaptado e testado para o contexto de grupo, o G-ESDM. Ele foi aplicado no âmbito da escola especial, mas foi replicado e mostrou resultados positivos em contextos inclusivos e também socialmente vulneráveis – contexto mais próximo da nossa realidade no Brasil, e uma oportunidade para ampliarmos o precário acesso a terapias no país.
O G-ESDM propõe algo potente: ensinar a partir dos interesses da criança, em interações significativas, mediadas por adultos, as habilidades básicas de imitação, atenção ao outro, comunicação, jogo, que parecem mais desafiadoras às crianças com TEA.
Se elas não aprendem essas habilidades “automaticamente” como as crianças típicas, vamos ensiná-las! Não para que deixem de ser autistas, uma condição permanente e de base genética, mas para que possam ter melhores recursos para serem quem são – num mundo que não foi feito pensando nelas.
O G-ESDM não transforma a escola em clínica, nem o aluno em paciente. Seus objetivos são compatíveis com a BNCC (Base nacional comum curricular) e buscam garantir o direito real à educação. A proposta é trabalhar, na rotina escolar, habilidades que crianças com TEA não alcançam, porque a forma de ensinar não considera as especificidades desse aprendizado.
Na neurobiologia do TEA, vemos que esse cérebro apresenta uma “circuitaria” distinta da que convencionamos chamar de cérebro “normal-típico”. Ou seja, há menor conectividade entre as áreas e hemisférios, mas maior atividade dentro de cada parte especializada, o que leva, portanto, a outra maneira de se expressar e experimentar o mundo.
O fato é que, se eu ensinar a uma criança autista como se ela não tivesse autismo, ela vai aprender muito menos do que se eu considerar as suas especificidades.
Ainda hoje, professores, em geral, chegam à sala de aula sem formação adequada sobre TEA — não por falta de interesse, mas por lacunas na formação inicial. Currículos de educação, medicina e psicologia ainda trazem poucas e desatualizadas referências ao tema. Assim, ainda que existam metodologias testadas e úteis para o processo de ensino-aprendizagem da criança com TEA, elas não são usadas.
E, sem apoio, menos aprendizagem, mais exclusão — ainda que silenciosa.
Vemos com alegria que as crianças com TEA chegaram à escola comum, de todos. Antes invisíveis, segregadas, institucionalizadas. Hoje estão na sala de aula, na pracinha, no cinema. Dados do INEP (Instituto Nacional de Estudos e Pesquisa Anísio Teixeira) mostram que as matrículas cresceram mais de 300% desde 2016. No entanto, a permanência ainda é um desafio: a evasão é alta e poucos chegam ao ensino médio.
Inclusão não é apenas acesso, não é atravessar o portão da escola. Precisamos de mais do que a boa vontade do professor, precisamos de formação continuada de qualidade, para que chegue à mão do professor e ao chão da escola os recursos que existem e funcionam! Precisamos que as condições de trabalho reflitam nosso ideal de inclusão, isso diz da própria condição material docente.
É necessário rever a proporção adulto/criança, permitindo a atenção mais individualizada quando ela se faz necessária, o que vai ser benéfico para qualquer criança. Precisamos disso para que todos aprendam. Crianças típicas aprendem muito ao conviver com crianças com deficiência, assim poderão compreender que a diferença é natural, e é o que nos torna humanos.
O passo agora é garantir que crianças com TEA, que sempre podem aprender, tenham acesso à educação: permanência, participação e aprendizagem.
Maria Luísa Nogueira é professora do Departamento de Psicologia da UFMG, coordenadora do Programa de Atenção Interdisciplinar ao Autismo (PRAIA) da UFMG e da Especialização em TEA (UFMG). Mãe atípica.
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Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

