Por José Luiz Quadros de Magalhães
Estamos vivendo um momento especialmente complexo da existência da democracia representativa constitucional. A ideia de uma democracia plural e constitucional que se afirmou no pós-segunda-guerra mundial em diversos países, buscava a estabilidade de uma sociedade sem extremismos, na qual políticas públicas de centro direita e centro esquerda se revezavam no poder, com as garantias dos direitos fundamentais individuais, políticos, sociais e econômicos garantidos na Constituição.
Não havia espaço para radicalismos. Era um grande projeto centrista que se afirmou na Europa após diversas experiências extremas do início do século.
Com o fim do bloco socialista e a ascensão do neoliberalismo, este modelo plural de um certo capitalismo social, a social-democracia, foi cedendo espaço para a expansão da direita conservadora, e o encolhimento permanente da democracia social e da proteção dos direitos socioeconômicos. A esquerda encolheu a tal ponto que as pessoas não mais identificavam alternativas concretas às políticas neoliberais em seus governos.
De outro lado, a extrema-direita, representando os interesses dos bilionários, megaempresários privados, soube cooptar os sentimentos das pessoas, frustradas com as promessas não cumpridas de justiça, dignidade e bem-estar. O ressentimento gerado pela constante frustração é muito bem explorado e direcionado por meio da propaganda; fake-News; a geração do medo, raiva e o “ignoródio”.
Este movimento global reconfigurou as “democracias representativas” que passaram a admitir, sem questionamentos mais contundentes, a presença de partidos, propostas, discursos, ideias e valores que seriam inadmissíveis em uma democracia constitucional plural. A extrema-direita não pode ser, e não é, jamais, um ator legítimo no jogo democrático.
Assistimos de forma avassaladora aos discursos de ódio os mais variados, candidatos vazios, despreparados, pouco inteligentes, agredindo, xingando, defendendo o autoritarismo, o machismo, racismo, a homofobia, o trabalho infantil, a violência em diversas formas. As eleições tornaram-se espaços de agressões pessoais e mentiras constantes. Não há discussão de projetos e de ideias.
Neste ano em que teremos eleições presidenciais, as pessoas são mergulhadas em contradições, confusões absurdas. Desde patriotas com a bandeira dos EUA no dia da independência do Brasil, defendendo a intervenção dos Estados Unidos em nosso país e a entrega de toda a nossa riqueza, passando por cristãos com a bandeira de Israel, trabalhadores defendendo o fim dos direitos trabalhistas e a privatização da saúde e da educação, entre outras políticas que demonstram uma total perda de contato com o mundo real e qualquer coerência ou compreensão da política e da vida.
Vivemos uma espécie de delírio coletivo, em meio a mais total desinformação e negacionismo, em meio a um orgulho estranho da ignorância e da pouca inteligência.
Precisamos entender que, mais do que em qualquer outro momento da história, as eleições no Brasil deste ano de 2026, são fundamentais para barrar um projeto de hegemonia da extrema-direita, de destruição do Estado, dos direitos constitucionais e da vida, em favor de poucos bilionários mergulhados em seu mundo egoísta e doentio.
As eleições de 2026 são fundamentais não apenas para o Brasil e América-Latina, mas para todo o mundo. Pode ser um marco entre a expansão da extrema-direita, da violência e do ódio, ou a resistência democrática para construção de um mundo com respeito aos valores vinculados à vida em sua integridade e dignidade.
Não podemos esquecer, em nenhuma hipótese, que estas eleições serão decididas, especialmente, no plano dos afetos. Não adianta combatermos o ódio e a ignorância, com mais ódio. Já estaríamos derrotados. Temos que lutar com o que nos diferencia. Proximidade. Comunidade. Solidariedade. Vencemos nos nossos espaços.
Não significa que devemos abandonar qualquer campo de luta, de qualquer espaço de construção de vínculos positivos. Significa, entretanto, que só venceremos uma guerra de afetos nos espaços em que estes afetos podem se tornar positivos: a comunidade, a proximidade física, o abraço, o olhar, a energia da presença humana.
Temos que ser milhões de corpos presentes ao lado uns dos outros, em todos os momentos e sempre quando necessitemos. Milhões de corpos militantes, em todos os momentos, solidários, atentos, em comunidade.
José Luiz Quadros de Magalhães é constitucionalista e estudioso da política no sub-continente, professor da Faculdade de Direito da UFMG e integrante da Diretoria Setorial de Arte e Cultura do APUBHUFMG+
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.
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