Por Adriana Borges e Maria Luísa Nogueira
Uma matéria publicada no New York Times intitulada Sonecas curtas, longas jornadas: como clínicas de autismo extraem recursos do Medicaid a partir de crianças em idade pré-escolar, publicada em 23 de maio de 2026, reacendeu a discussão sobre a já propagada “indústria do autismo”.
A reportagem relata o caso de uma menina que dorme de cansaço durante a “tortura” da terapia comportamental e como as clínicas lucram ao cobrar por esse tempo de soneca da garotinha. Embora o texto discuta o contexto estadunidense, os “especialistas” em autismo das redes sociais lançaram vídeos incitando a opinião pública a se posicionarem contra os tratamentos designados como “tortura” (mais especificamente, as terapias comportamentais) ou como exploração do sistema.
Diante destes fatos de grande repercussão no Brasil, nos propomos, neste texto, a discutir o que tais “especialistas” brasileiros não disseram sobre a chamada “indústria do autismo”.
Não te disseram que Brasil não é Estados Unidos. A maior parte das famílias brasileiras não têm acesso às terapias, tão necessárias para o melhor prognóstico no Transtorno do espectro do autismo (TEA), ao contrário das famílias estadunidenses. Aqui, as mães lutam todos os dias para que seus filhos tenham acesso aos tratamentos de qualidade.
Pesquisas realizadas em nossa realidade descrevem a dura realidade das famílias, como o estudo da Rede REAL (2020) que fez um levantamento sobre desafios, barreiras ao cuidado e estigma no contexto do TEA na América Latina, e o MAB (Mapa Autismo Brasil, 2026), o estudo sociodemográfico especificamente dedicado ao TEA mais abrangente realizado até hoje.
Em nosso país, estamos longe de qualquer intensidade de tratamento semanal [18,1% fazem zero hora de terapia; 29,9% fazem uma hora semanal; 12,4% fazem duas horas semanais, sendo que menos de 30% acessam ABA – Applied Behavior Analysis (Análise Aplicada do Comportamento)], e apenas 15,5% acessam alguma terapia no SUS, a maior parte é via Planos de saúde (35,3%) que, não te disseram, não querem atender os autistas e se beneficiam profundamente da narrativa da “mercantilização do TEA”.
– Não te disseram que Análise Aplicada do Comportamento (ABA) não é tortura. É a terapia de base utilizada na maioria dos países, porque é a terapia que apresenta os melhores resultados. Trata-se de uma ciência que avançou e que hoje propõe intervenções pautadas pelo que é próprio ao universo infantil (brincar) e, como qualquer intervenção, demanda monitoramento e fiscalização. O Conselho Federal de Psicologia já tem orientações claras e bem fundamentadas, como a nota técnica 23/2025, que inclusive reconhece a importância de diversas abordagens no TEA, não só ABA.
– Não te disseram que sim, existem clínicas e profissionais que não são confiáveis, em qualquer área do conhecimento. Mas tomar uma denúncia, realizada sobre uma clínica localizada na Carolina do Norte, ou um caso isolado em São Paulo, como se fosse a regra e não a exceção, é duvidar do trabalho sério de inúmeros profissionais da saúde que se dedicam ao autismo.
– Não te disseram que as mesmas pessoas que criticam as clínicas que oferecem o tratamento em ABA, defendem outras abordagens. Ou seja, quando a terapia é ABA, é “indústria”, mas quando é outra abordagem (que não é gratuita, pelo contrário, e também é cobrada por hora e vende cursos, capacitações, etc.), não é indústria.
– Não te disseram que quem propaga essa narrativa utiliza um dossiê/artigo que foi feito utilizando dados da ABRAMGE (Associação Brasileira de Planos de Saúde), curioso, não é mesmo? Mas já te dissemos que esse discurso esconde outros interesses, dos planos de saúde, que lucram milhões sistematicamente e que se colocam contrários ao que seria indicado em termos de tratamento para os autistas.
– Não te disseram que tem muita gente, inclusive que não tem nenhuma relação com o tema (e lá se vai o lema “nada de nós sobre nós”) lucrando em cima dos likes de vídeos que criticam a “indústria do autismo”.
A pergunta que não foi feita é quais seriam as medidas efetivas para essa questão? Certamente é preciso mecanismos de regulação e fiscalização, afinal, o “ismo” que atravessa tudo isso é do Capital.
Por fim, não te disseram que enquanto esses vídeos são feitos, o que realmente importa fica invisível. É um desafio imenso ter um filho com autismo, demanda tempo, tratamento e conhecimento. Sem recursos, sem políticas públicas, sob discursos rasos, as famílias estão sucumbindo.
Os casos se agravam, as mães sofrem (protagonistas do cuidado também neste campo) e a inclusão fica impossibilitada: a evasão é uma realidade (não concluem o fundamental, segundo o IPEA) e os docentes estão adoecendo, já que as capacitações que chegam a eles não trazem as ferramentas que existem (e que são seguras e funcionam) para que possam realizar aquilo que os moveu ao campo da educação: ensinar. Quem paga são os autistas e suas famílias.
Pergunte-se, quando ver uma reportagem realizada nos EUA apresentada como se fosse no contexto brasileiro, a quem interessa espalhar informações deturpadas. Já te disseram, o inferno está cheio de boas intenções.
Adriana Borges é professora de Políticas Públicas de Educação Especial e Inclusão na Faculdade de Educação e da pós graduação em Educação: Conhecimento e Inclusão Social, da FaE/UFMG. Líder do Laboratório de Políticas e Práticas em Educação Especial e Inclusão (LaPPEEI) que integra a Rede Infinito – Inclusão, Inovação, Transformação.
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Maria Luísa Nogueira é professora do Departamento de Psicologia da UFMG, coordenadora do Programa de Atenção Interdisciplinar ao Autismo (PRAIA/UFMG), da Especialização em TEA (UFMG) e do LEAD (Laboratório de estudo e extensão em autismo e desenvolvimento/UFMG), que integra a Rede Infinito – Inclusão, Inovação, Transformação. Mãe atípica.
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Este é um artigo de opinião. A visão das autoras não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

