Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

‘Estão lá os corpos estendidos no chão’: quais lições tirar da chacina no RJ 

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A chacina ocorreu em 28 de outubro na cidade do Rio de Janeiro, nos morros da Penha e do Alemão | Crédito: Foto: © Tânia Rêgo/Agência Brasil

Quem sustenta o crime organizado? De onde vêm as armas que chegam às favelas?

“Em vez de reza, uma praga de alguém. E um silêncio servindo de amém.” É como se João Bosco estivesse compondo agora a canção De frente para o crime. A chacina ocorrida na cidade do Rio de Janeiro, nos morros da Penha e do Alemão, no dia 28 de outubro, ainda sangra e denuncia o racismo estrutural, a ausência do Estado nas periferias urbanas do país e o uso da violência como medida eleitoreira. 

A operação policial que resultou em mais de 121 mortes foi um horror inominável e, inclusive sob o ponto de vista dos objetivos anunciados, um fracasso. Afinal, não foi presa a liderança do Comando Vermelho e não houve reconquista de território algum. A polícia invadiu, matou e foi embora. E as comunidades continuam expostas à violência do crime organizado.

Corpos empilhados como troféus

Mas a mídia corporativa apressou-se em declarar a operação como um sucesso e os corpos empilhados foram alardeados como troféus. Lideranças políticas utilizaram as redes sociais e outros meios de comunicação para louvar o sucesso da operação e, no mais absoluto escárnio, culpabilizar as mães que não souberam criar seus filhos.

Como se não soubessem que muitas daquelas mães deixam seus filhos em casa, quase sempre sozinhos, para cuidar e educar as crianças de famílias ricas. Como se não soubessem que muitos dos companheiros daquelas mulheres não estão mais ali, vitimados pela violência do Estado ou do crime organizado. 

E tal como diante da cena do crime, cantada por João Bosco, em que “um homem subiu na mesa do bar e fez discurso para vereador”, não faltaram governadores, senadores, deputados da extrema direita para elogiar a operação que matou mais de uma centena de pessoas, buscando capitalizar dividendos eleitorais sobre a dor e o luto das famílias.

Além disso, pesquisas de opinião foram prontamente divulgadas para afirmar que a maioria apoia a morte. Será isso mesmo? Ou o que revelam tais pesquisas não é o desespero e a insegurança diante da violência?

Outras perguntas precisam ser feitas

Quem sustenta o crime organizado? De onde vêm as armas que chegam às favelas? A vida do povo que mora nas comunidades atingidas melhorou após a chacina? Os complexos da Penha e do Alemão estão livres da violência? Ou tudo não passou de um espetáculo midiático para sustentar os discursos da extrema direita que se alimentam do medo, do desespero e do ódio?

O Estado tem oferecido às populações que vivem nas favelas e nas demais periferias urbanas condições de vida digna? Acesso à cultura, ao lazer, à educação, à saúde? Ou contribui, com sua ausência, para manter as pessoas em condições miseráveis e desumanas, para que as juventudes busquem no tráfico condições de sobrevivência e de uma ilusória ascensão social? Quais têm sido as medidas tomadas pelos poderes públicos para localizar e bloquear as fontes de sustentação financeira do narcotráfico?

Não é possível naturalizar a barbárie

João Bosco, na mesma canção, nos diz que “sem pressa, foi cada um para o seu lado, pensando numa mulher ou no time”. Não podemos correr esse risco. É preciso denunciar e dizer não à barbárie, à execução de jovens pobres e negros em nome de uma estratégia de “guerra às drogas” que já se mostrou, há muito, incapaz de resolver o problema (inclusive porque não é este o interesse político que a move).

Há que se construir alternativas. E elas passam pelo diálogo com as comunidades e pela presença efetiva do Estado, garantindo os direitos fundamentais a todas as pessoas que vivem nas periferias. Passam também pela Educação em Direitos Humanos para que se reconheça o direito à dignidade de toda e qualquer pessoa. Para que nenhuma pessoa cogite considerar corpos negros e pobres empilhados nas ruas como algo natural. 

Enfim, para que não seja possível “olhar o corpo no chão e fechar nossa janela de frente para o crime”.

José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos.

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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