Por José Heleno Ferreira
Os primeiros meses do ano de 2026 foram impactantes paras as mulheres, para as meninas, para todas as pessoas que não compactuam com a violência, o machismo e a misoginia.
Os dados do Fórum Brasileiro de Segurança Pública (FBSP) mostram uma escalada do feminicídio no Brasil em relação aos anos anteriores. Não é possível normalizar o fato de que, em 2025, 1.568 mulheres foram assassinadas pelo fato de serem mulheres. Não é possível aceitar que, em média, quatro mulheres são assassinadas por dia no país.
Para além dos assassinatos, os números de assédio e estupro também têm crescido assustadoramente. Nos últimos dias, o caso de um estupro coletivo de uma menina de 17 anos, no bairro Copacabana, na cidade do Rio de Janeiro (RJ), chocou o país.
Como compreender esta situação?
O movimento Red Pill
Trata-se de uma questão complexa e muitas são as variantes. Uma delas está relacionada à liberação de armas entre os anos de 2019 e 2022. Mais de um milhão de armas entraram em circulação no país durante este período. Mas, obviamente, o fato precisa ser analisado também a partir do machismo estrutural que é uma das marcas de nossa formação histórico-cultural.
Para além disso, é preciso estar atento também ao movimento Red Pill que afirma serem os homens vítimas do feminismo. Um movimento que ensina meninos a odiar mulheres, que empatia é fraqueza e violência é sinônimo de força e masculinidade. O movimento Red Pill cresce ancorado nas redes sociais, que ampliam este sentimento, e nos algoritmos que premiam os discursos de ódio com maior visibilidade, gerando engajamento.
Educação de gênero e sexualidade nas escolas
O enfrentamento deste problema não é tarefa simples e exige políticas públicas de proteção às mulheres e também de educação dos homens para a não violência. E, embora saibamos que não é possível atribuir à escola a solução de questões tão complexas, é importante afirmar que uma das possibilidades de enfrentamento do problema passa pelos processos de escolarização.
É preciso educação de gênero e sexualidade nas escolas para construir uma outra socialização masculina e contribuir para que as novas gerações possam superar o machismo e a misoginia, possam compreender a empatia e o respeito como valores humanos e o direito à vida e à igualdade entre homens e mulheres como direito fundamental.
Impedir o debate sobre gênero e sexualidade nas escolas é reproduzir o ciclo de violência contra as mulheres
E se acreditamos que a escola tem um papel importante no combate à violência de gênero, precisamos compreender (para que possamos enfrentar) a cruzada falso moralista que nas últimas décadas vem se organizando contra a educação com o objetivo de proibir os debates sobre gênero e sexualidade na educação.
Ainda em 2004, sob a liderança do advogado Miguel Nagib, organizou-se o Movimento Escola Sem Partido propagando a ideia de que professores e professoras estavam doutrinando crianças e adolescentes. E, ainda mais, incentivando estudantes a denunciarem profissionais docentes que estivessem trabalhando questões de gênero em sala de aula.
A partir de 2014 esta situação se agrava com a proliferação de projetos de lei nas Câmaras Municipais e Assembleias Legislativas do país com o objetivo de impedir a doutrinação ideológica de esquerda nas escolas.
Embora o Movimento Escola Sem Partido tenha perdido força nos últimos anos, embora os diversos projetos de lei oriundos desse processo tenham sido derrotados judicialmente, as consequências foram danosas para o processo educacional. O clima de medo e tensão foi instaurado nas escolas e o debate sobre gênero e sexualidade tornou-se tabu.
A educação de gênero e sexualidade nas escolas é necessária! Do contrário, estaremos abandonando nossas crianças e adolescentes e permitindo que sejam educadas e educados pelo submundo da internet. E as consequências disso, já sabemos, é o crescimento da violência, é a desumanização dos homens e o assassinato das mulheres.
Trata-se de um princípio ético: não podemos prescindir do letramento de gênero para os meninos – para que novas gerações de homens sejam construídas.
José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e integra a Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]
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Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato
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Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

