Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

Balas e cassetetes não educam

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Policial militar agrediu estudantes dentro de uma escola no Rio de Janeiro | Crédito: reprodução/redes sociais

Quando a escola chama policiais está abrindo mão de educar

Por José Heleno Ferreira

Na última semana do mês de março de 2026, nos deparamos com as notícias de agressões policiais a estudantes nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro.

Em São Paulo, no dia 26, um grupo de estudantes ocupou a Secretaria da Educação do Estado reivindicando melhores condições de ensino. O ato ocorreu após diversas tentativas dos estudantes de serem ouvidos pelo Secretário de Estado. 

Entre as reivindicações, a revogação do corte de R$11 bilhões na educação, melhorias na infraestrutura das escolas, o fim da “sala do futuro” e a apresentação de um projeto tecnológico alinhado com a realidade das juventudes.

Mas a resposta foi a truculência policial, o uso de spray de pimenta e cassetetes, além da detenção de 22 estudantes que, já liberados, respondem, agora, pelos crimes de organização criminosa e depredação do patrimônio público

Um dia antes, 25 de março, na cidade do Rio de Janeiro, um policial militar agrediu três estudantes dentro de uma escola estadual. Dezenas de jovens participavam de uma manifestação reivindicando melhores condições de ensino e também a apuração de uma denúncia de assédio por parte de um professor.

Os jovens agredidos (dois rapazes e uma moça) são membros de entidades estudantis e estavam na escola a pedido dos alunos e alunas. Mesmo assim, a instituição escolar chamou a polícia, que, ao invés de mediar o conflito, usou os cassetetes e spray de pimenta.

Ecos da história

As agressões a estudantes aconteceram justamente às vésperas do dia 28 de março, quando lembramos o assassinato de Edson Luiz Lima Souto, morto pela Polícia Militar no restaurante estudantil Calabouço, no centro da cidade do Rio de Janeiro.

O assassinato de Edson Luiz chocou o país e expôs a violência dos anos iniciais da ditadura empresarial militar. Na esteira desta revolta, em junho, acontecia a Passeata dos Cem Mil, uma das maiores manifestações populares contra a ditadura.

As agressões militares contra estudantes também acontecem justamente às vésperas do 62º aniversário do golpe militar empresarial de 1º de abril de 1964, que implantou uma ditadura que perdurou por longos 21 anos.

Balas não educam

As cenas de violência policial contra estudantes nas cidades de São Paulo e Rio de Janeiro não podem ser vistas como fatos isolados. Elas revelam um projeto educacional para o país. Ou melhor, um projeto contra uma educação emancipadora, contra a organização autônoma dos estudantes.

Quando a escola chama policiais para estudantes que estão se manifestando pacificamente, está abrindo mão do seu papel de instância educadora. Quando um órgão de Estado usa da violência ao invés de dialogar com estudantes, está explicitando um posicionamento político: a defesa da violência, ao invés da educação.

Em memória de Edson Luiz, Milton Nascimento compôs a canção “Menino”, cujos versos iniciais dizem “Quem cala sobre teu corpo consente na tua morte”… O silêncio diante da violência policial contra estudantes, o silenciamento diante de projetos de militarização da escola, de plataformização da educação não é inocente. Calar-se é se tornar cúmplice. 

Há que se posicionar! E se temos compromisso com a liberdade, com a educação em Direitos Humanos, há que se posicionar ao lado daqueles e daquelas que lutam contra todo tipo de opressão.

As lutas, sim, nos educam 

Num momento em que enfrentamos os processos de privatização das escolas, de ataques à autonomia docente e às organizações estudantis, de militarização dos espaços educacionais, as lutas dos estudantes nos educam. E nos mostram que, ao longo da história, foram aqueles e aquelas que enfrentaram o escuro da noite que contribuíram para a chegada da aurora.

O mesmo Bituca que cantou em memória de um estudante assassinado em 1968, nos lembra, noutra canção que se tornou um hino estudantil (“Coração de estudante”), das lutas das forças populares ao longo da história. Mas, fundamentalmente, nos indica o caminho. 

Sim, foram muitas as vezes que “podaram seus momentos, desviaram seu destino”, mas sempre “renova-se a esperança, nova aurora a cada dia”. E, principalmente, que, para que a aurora chegue “há que se cuidar do broto pra que a vida nos dê flor e fruto”.

José Heleno Ferreira é doutor em Educação (PUC MG) e integrante da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coord. Minas Gerais. Email: [email protected]

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Elis Almeida

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