Educação em Direitos Humanos em Pauta

A coluna “Educação em Direitos Humanos em Pauta” é mantida pela Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais (ReBEDH MG) – para contribuir com a problematização da realidade socioeconômica e cultural do país e nos educarmos, continuamente, para a construção de uma cultura de respeito e promoção dos direitos humanos.

Alguns ‘porquês’ e ‘para quês’ de educar em direitos humanos

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Educar em direitos humanos é escolher formar para a liberdade, não para a submissão | Crédito: Tomaz Silva/Agência Brasil

Educar em direitos humanos é escolher formar para a liberdade

Por Carlos Eduardo Petronilho Boiago

“Para que ensinar direitos humanos se isso não cai no vestibular?”. A pergunta, feita por um estudante em sala de aula, ecoou por dias em minha cabeça. Não pela ingenuidade que ela carregava, mas pela lucidez involuntária. Em uma sociedade que mede tudo por resultados imediatos e utilidade de mercado, para que serve mesmo educar em direitos humanos? Por que insistir nessa pauta, quando tantos a consideram desnecessária, perigosa ou até subversiva? Essas perguntas são legítimas e urgentes. Respondê-las exige que enfrentemos outras, mais profundas: que tipo de sociedade queremos construir? Que tipo de humanidade desejamos formar?

A indignação ética como ponto de partida

Paulo Freire nos ensinou que a educação nunca é neutra. Ela sempre serve a um projeto de sociedade. Educar em direitos humanos é escolher formar para a liberdade, não para a submissão. É cultivar a capacidade de se indignar diante das injustiças, de reconhecer a dignidade em cada pessoa, de recusar a naturalização das opressões. Mas por que isso incomoda tanto? Por que discursos que criminalizam a educação em direitos humanos ganham tanto espaço?

A resposta é simples e perturbadora. Pessoas conscientes de seus direitos não aceitam caladas as violações. Sujeitos críticos questionam estruturas de poder. Quem aprende a ler o mundo

criticamente não se contenta com a realidade como está. E é justamente por isso que educar nessa perspectiva é um ato político, ainda que muitos prefiram não enxergar assim. Educamos em direitos humanos porque a alienação serve à dominação.

Ver o outro de verdade

Em Ensaio sobre a Cegueira, Saramago mostra uma sociedade onde todos perdem a visão, mas apenas alguns conseguem enxergar de verdade: enxergar a humanidade no outro, a responsabilidade coletiva, a necessidade de solidariedade. Há algo de muito parecido com o que vivemos hoje. Somos cegos para o sofrimento alheio, para as desigualdades que nos cercam, para as violências cotidianas que fomos aprendendo a normalizar.

Educar em direitos humanos é, entre outras coisas, tentar recuperar essa visão, para que se possa ver o menino negro abordado violentamente pela polícia e reconhecer ali uma violação de direitos, não uma “medida necessária”. Para que se possa ver a mulher que ganha menos pelo mesmo trabalho e identificar machismo estrutural, não “diferenças naturais”. Para que se possa olhar para a pessoa em situação de rua e encontrar dignidade humana violada, não “fracasso individual”. O “para que” fundamental da educação em direitos humanos é humanizar. É recusar a desumanização que torna o outro descartável, inimigo, menos humano.

Democracia não se faz só com voto

Não existe democracia real sem educação em direitos humanos. Democracia não é apenas votar a cada quatro anos. É participar, questionar, reivindicar, fiscalizar. É reconhecer que todos têm direito à voz, à dignidade, à justiça. Como se formam cidadãos democráticos sem educar para o respeito às diferenças, para o diálogo, para a participação?

Vale perguntar: quantas de nossas escolas são verdadeiramente democráticas? Quantas permitem que estudantes participem das decisões? Quantas estimulam o questionamento, em vez de premiar a obediência? Se queremos formar para a democracia, precisamos começar democratizando nossos próprios espaços educativos. Acreditamos que outro mundo é possível. E sabemos que esse mundo não virá por decreto, mas pela construção coletiva de uma cultura de respeito e justiça.

A esperança como prática

Freire falava em “esperançar”, com esperança como verbo, como ação, como recusa da resignação. Educar em direitos humanos é isso. É apostar que podemos formar gerações menos preconceituosas, menos violentas, menos indiferentes. É acreditar que a educação transforma pessoas e que pessoas transformadas transformam o mundo.

Mas não se trata de esperança ingênua. É uma esperança que reconhece os obstáculos sem se paralisar diante deles, que identifica as estruturas de opressão sem desistir de enfrentá-las, que se indigna com as injustiças sem perder a ternura pelo outro.

O que vale cada dia

Cada violência evitada importa. Cada preconceito desconstruído importa. Cada injustiça enfrentada importa. Cada estudante que aprende a respeitar as diferenças leva essa aprendizagem para sua família, seu bairro, seu trabalho. Cada professor formado nessa perspectiva multiplica essa visão em dezenas, centenas de outros sujeitos. Educamos em direitos humanos não porque é fácil, mas porque é necessário.

Não porque garante resultados imediatos, mas porque planta sementes de transformação. Não porque o mundo nos pede, mas porque o mundo que queremos construir exige. A pergunta do estudante continua ecoando. E a resposta, afinal, é simples: educamos em direitos humanos para que, um dia, essa pergunta não precise mais ser feita. Para que o respeito à dignidade humana seja tão óbvio quanto respirar. Para que todas as vidas, sem exceção, importem.

Carlos Eduardo Petronilho Boiago é doutor em Educação (UFU), professor de Matemática (SEE-MG) e membro da Rede Brasileira de Educação em Direitos Humanos – Coordenação Minas Gerais. E-mail: [email protected].

Leia outros artigos sobre direitos humanos na coluna Educação em Direitos Humanos em Pauta no jornal Brasil de Fato

Este é um artigo de opinião, a visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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