Esportes Rebeldes

Esta coluna é coordenada por Michel de Paula Soares. Debatemos diferentes temas sociais a partir e por meio dos esportes, sempre com uma perspectiva crítica.

Make boxe marginal again, parte 1

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Academia de Jailton Santos, na comunidade da Polêmica, em Salvador, Bahia
Academia de Jailton Santos, na comunidade da Polêmica, em Salvador, Bahia | Crédito: Michel de Paula Soares

No universo da academia de boxe, o desrespeito com os valores, com a ética, com as regras ou mesmo com os participantes não é tolerada

A cena foi vista por mim em uma academia de boxe, há cerca de 4 anos atrás. Um rapaz, cerca de 25 anos, chega, pela primeira vez, para participar de um treino. Arruma-se, prepara-se com seus próprios materiais (indicando não ser um iniciante) e se coloca na roda para iniciar o aquecimento. Cerca de 15 minutos depois, o treinador juntou todos para explicar a parte técnica do treino naquele dia. O rapaz, com ares de desdém e arrogância, chamou o treinador de lado e disse algo assim: “eu já luto muay thai, então já sei tudo que você disse, gostaria de ir direto para o combate.”

Lembro bem em como a feição do treinador mudou em segundos. Aos berros, ele respondeu: “ah, então você já sabe e quer ir direto para o combate, tudo bem, coloque a luva e o protetor, e suba no ringue”. Imediatamente, chamou o atleta mais experiente da turma, com passagem pela seleção brasileira, diga-se de passagem, e o colocou para fazer combate com o visitante. A luta durou poucos segundos. Recebendo duros golpes no corpo, o novato se ajoelhou no ringue e cuspiu o protetor bucal. Passada a dor, desceu, tirou as luvas e foi embora, para nunca mais voltar, que eu saiba. 

Entre 2021 e 2024, visitei mais de 30 academias de boxe, entre Salvador e Recôncavo baiano, São Paulo, Rio e Cuba. Como defendi em outros textos, no Brasil, o boxe nasceu nos quilombos urbanos. Por essa razão, acredito que sua tradição, ética e pedagogias estão mais próximas das lógicas dos terreiros. Há o respeito com os mais velhos. Respeito com quem chegou primeiro, antes de você. Respeito pelo treinador. Há linhagem, ancestralidade. Há o cuidado com o espaço. Há hierarquias que se formam e divisões de gênero que se dão a partir do cotidiano. Conflitos e contradições que são levantadas a todo momento. Há iniciação, rituais de passagem e rituais de renovação dos laços de comprometimento. Regras claras. Segredos. Regras menos óbvias. Regimes alimentares, tabus. Festas, muitas, e boas. E há o compromisso com a responsabilidade em calçar as luvas. 

E há o jogo em si, que nada mais é que a performance da agressividade, consistindo em golpear a pessoa adversária com a frente das luvas e buscar não ser golpeado. Um “xadrez com as tripas”, como diria Loïc Wacquant, regido por regras, acordos e princípios tradicionalmente estabelecidos. 

No universo da academia de boxe, o desrespeito com os valores, com a ética, com as regras ou mesmo com os participantes não é tolerada. Praticantes de outras modalidades de combate geralmente são bem vindos, mas precisam seguir os protocolos e fundamentos do boxe. E uma das pedagogias mais estabelecidas, com relação às pessoas desrespeitosas, é que estas acabam sendo punidas nos próprios termos do boxe, ou seja, com as luvas em punho e possibilidade de se defender, como na história contada no inicio. Nessas situações, gera-se uma tensão entre agressividade e violência difícil de ser antecipada, pois seus resultados são imprevisíveis, por mais que, de forma geral, o ofensor tenda a abandonar o local e não retornar. 

Defendo que agressividade e violência estão em polos opostos de um contínuo. Em uma academia de boxe, a agressividade se manifesta na ação competitiva, enquanto a violência acaba servindo enquanto exercício de autoridade. Mesmo assim, quase tudo é pautado na ideia de reciprocidade, por mais que essa esteja sempre a escapar pelas mãos. Incluindo a agressividade e a possibilidade de sua irrupção em ações violentas, sempre indesejadas. Contudo, é preciso pensar nesse contínuo para além de um consenso regido dentro dos parâmetros da democracia liberal. Uma academia de boxe não funciona através de contrato social, mas sim pela construção coletiva que acontece no dia-a-dia e se alimenta de múltiplas potências e possibilidades. 

Há alguns anos, recentes, começaram a surgir algumas academias de boxe em bairros nobres, um fenômeno exclusivamente paulistano, fundadas por pessoas da classe média alta, com catracas na entrada e mensalidades exorbitantes. Estes espaços buscam reproduzir o que seria uma academia tradicional a partir de um modelo estadunidense ou europeu, oferecendo aulas de boxe enquanto modalidade fitness para um público também de classe média alta. Outras experiências de boxe, mesmo entre a esquerda, buscam atenuar a lógica da competitividade e o teor agressivo da modalidade através de práticas que mais se assemelham a um tai chi chuan com luvas (obrigado, amigo do chutinho antipedagógico). Pelos motivos citados acima, esses exemplos podem se aproximar de uma experiência com o boxe, mas jamais serão academias de boxe. Mas isso eu trago na parte dois. Até lá.   

*Michel de Paula Soares é doutor em Antropologia pela Universidade de São Paulo, pesquisador do LabNAU/USP, coordenador do Boxe Autônomo e responsável pela coluna Esportes Rebeldes.

*Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Thaís Ferraz

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