Inicio esta reflexão da mesma forma que tenho andado nas ladeiras nesses últimos meses: reafirmando que, em Pernambuco, cabe todo mundo no Carnaval. Mas, para que isso não seja apenas um verso de marchinha, é preciso transformar essa frase em política pública, prioridade orçamentária e disputa de narrativa na luta pela preservação de nossa história e no fortalecimento da cultura popular.
O Carnaval de Pernambuco não é apenas a festa mais democrática do planeta. Ele é, antes disso, um dos pilares do que somos. São séculos de resistência e folia. Das máscaras de Papangu que nasceram do escárnio dos escravizados aos tambores do Maracatu Nação que ecoam o coração da diáspora africana. Dos bonecos gigantes que descem a ladeira anunciando o reinado da folia ao frevo que, infelizmente, não se aprende na escola, mas se herda no sangue e no suor dos músicos e passistas. O Carnaval é, historicamente, a expressão máxima de que o povo não espera licença para existir.
Do ponto de vista econômico os números são gritantes. Estamos falando de uma festa que injeta quase 2 bilhões de reais na economia do estado e movimenta uma cadeia produtiva que vai muito além do artista no palco: são costureiras, aderecistas, carregadores de faixa, seguranças, clarins, ambulantes, catadores de recicláveis. É dinheiro que circula na ponta, no suor de quem faz a festa acontecer enquanto o poder público, muitas vezes, só aparece na foto e nas postagens de redes sociais.
No entanto, o que temos visto na gestão municipal de Olinda é o oposto do cuidado com essa cadeia produtiva. Orçamento da festa escondido em pastas que não têm a palavra “Carnaval” no plano orçamentário. Diante disso, nosso mandato na Câmara Municipal de Olinda vem cumprindo uma fiscalização rigorosa. Mas não basta apontar o dedo para o escândalo e seguir em frente. É preciso responder com projeto e propostas.
Foi com essa convicção que construímos, ao longo do último ano, a iniciativa “Cabe Todo Mundo no Carnaval”. Ouvimos mais de 500 respostas por formulário online, realizamos audiências públicas e reuniões, sentamos com agremiações, ambulantes, fazedores de cultura e moradores do Sítio Histórico. Desse acúmulo coletivo emergiram algumas propostas que hoje tramitam e são debatidas no parlamento municipal.
A primeira delas é o estabelecimento de um prazo legal para o pagamento dos cachês das agremiações. É inadmissível que o Elefante de Olinda, a Pitombeira ou o Homem da Meia-Noite — instituições vivas que carregam a identidade da nossa cidade — recebam depois do Carnaval, com atraso, enquanto o dinheiro corre solto para shows de empresários bem relacionados. A cultura popular não pode ser tratada como um favor. É direito.
A segunda proposta é o reforço da Comissão Permanente do Carnaval como instrumento efetivo de participação popular. Não queremos uma comissão para carimbar decisões de gabinete. Queremos um espaço paritário, com poder deliberativo, onde o dinheiro público e o Carnaval sejam discutidos com quem conhece a rua. Onde as agremiações, a sociedade civil organizada e os trabalhadores da cultura tenham assento e voz.
Em terceiro lugar, estamos propondo mecanismos de transparência radical na execução orçamentária. O orçamento do carnaval precisa estar visível, rastreável e com rubrica própria. Não é possível que em pleno 2026 a gente precise garimpar contrato por contrato no Portal da Transparência para descobrir que o dinheiro que deveria fortalecer o frevo foi parar em produtoras gospel sem qualquer relação com a nossa história.
Defender o Carnaval como política pública é, portanto, um ato de resistência à privatização da festa. É contra o projeto de destruir nossa cultura popular e nosso patrimônio material e imaterial. A elite sempre tentou empurrar o povo para os cantos. Primeiro, com os antigos bailes de clube. Hoje, com os camarotes que segregam a cidade entre quem pode pagar e quem merece apenas o “espaço público” — geralmente sujo, mal iluminado e com pouca ou nenhuma estrutura.
Para nós, defender o Carnaval não é pauta identitária descolada da materialidade. É a defesa intransigente do trabalho, da renda e da dignidade do povo que faz a festa. É enfrentar o patrimonialismo que confunde o cofre público com o bolso de famílias políticas. É colocar a cultura no centro do desenvolvimento econômico com justiça social.
Termino como comecei: como uma foliã que já perdeu as contas de quantas quartas-feiras de cinzas chorou de saudade do que passou. Mas também como uma vereadora que aprendeu que o amor ao Carnaval não pode ser ingênuo. Se continuarmos tratando a festa como “dádiva” e não como direito, ela será cada vez mais refém de quem tem caneta e verba para distribuir.
Por isso, meu chamado aos brincantes, passistas, agremiações e ao povo de Pernambuco é este: vamos para a rua não só para pular, mas também para pressionar. O Carnaval não é da prefeita, não é da governadora, não é do empresário do camarote. O Carnaval é nosso. E sendo nosso, exige cuidado, respeito e prioridade. Ou a rua toma conta, ou a camarotização vence.
Viva o Carnaval de Pernambuco! Viva Olinda! E viva o povo que não deixa essa festa morrer!

