Estudante de Letras, militante do Levante Popular da Juventude e vice-presidente da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP).

Estudante de Letras na UFPE, militante do Levante Popular da Juventude e vice-presidente da União dos Estudantes de Pernambuco (UEP).

A escala 6×1 e a juventude em modo sobrevivência

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“Quando nos tornamos coletivos, quebramos pouco a pouco as grades em que nos querem presos a uma lógica cruelmente capitalista. A juventude unida é a solução para construir um Brasil que nos permita viver”, escreve Evellyn Paiva
“Quando nos tornamos coletivos, quebramos pouco a pouco as grades em que nos querem presos a uma lógica cruelmente capitalista. A juventude unida é a solução para construir um Brasil que nos permita viver”, escreve Evellyn Paiva | Crédito: Levante Popular da Juventude

Discutir o fim da escala 6x1 não é só pautar condições trabalhistas. Para a juventude é pensar a possibilidade concreta de existir para além do trabalho

Acordar antes mesmo do Sol nascer, pegar um transporte público superlotado, atravessar a cidade, chegar ao emprego, trabalhar, terminar o expediente quando já não há mais luz do Sol, voltar para casa e dormir. Acordar antes mesmo do Sol nascer, mais uma vez, e viver essa rotina seis dias por semana, quarenta e quatro horas no total. Essa é a realidade dos jovens no nosso país. A juventude que já entra no mercado de trabalho sob um regime que normaliza o esgotamento.

Enquanto o debate sobre a redução da jornada de trabalho é tratado como exagero por alguns parlamentares, milhares de jovens vivem rotinas que mal deixam tempo para o estudo, o descanso ou outra perspectiva de futuro. A juventude brasileira entra no mercado de trabalho entendendo que é normal a exaustão, entendendo que antes do estudo, lazer ou descanso, existe o esgotamento que não nos permite viver isso.

Entramos no mercado de trabalho convivendo com jornadas extensas, baixos salários, longos deslocamentos e a sensação constante de que descansar é um privilégio impossível. Em um Brasil marcado pela desigualdade e pela precarização crescente das relações de trabalho, o cansaço deixou de ser entendido como consequência da exploração capitalista e passou a ser tratado como característica inevitável da vida adulta.

Essa realidade se manifesta principalmente nos setores que mais absorvem a juventude trabalhadora: o comércio, serviços de telemarketing, entregas por aplicativos e trabalhos informais. São empregos marcados pela escala 6×1, que transformam o tempo livre em exceção. O domingo não é sinônimo de descanso, apenas o curto intervalo entre uma semana de exaustão e outra.

E é nesse cenário que discutir o fim da escala 6×1 não é só pautar condições trabalhistas. Para a juventude é pensar a possibilidade concreta de existir para além do trabalho, quando a maior parte do nosso dia é consumida pelo emprego, pelo transporte e pela recuperação física do cansaço, sonhar outros futuros se torna uma realidade cada vez mais distante.

Talvez seja justamente essa ausência do sonhar uma das marcas mais violentas da precarização e das jornadas abusivas de trabalho. Nosso trabalho não é recompensado com dignidade e conforto, trabalhamos apenas para sobreviver até o mês seguinte. A ideia de almejar uma melhoria de vida foi substituída por uma lógica permanente de sobrevivência, onde o máximo que se conquista é continuar funcionando, apesar do desgaste. Ainda assim, essa vivência raramente se apresenta como violência, ao contrário, ela é constantemente revestida por discursos de liberdade, autonomia e empreendedorismo.

Neste país atravessado pelo desemprego estrutural e pela informalidade, aplicativos de entrega e terceirização de serviços se consolidaram não apenas como formas de trabalho, mas como símbolos de uma suposta independência financeira, a exploração passa a ser vendida como oportunidade — e é essa ideia que transforma a forma como a juventude se enxerga politicamente.

Muitos jovens trabalhadores já não se identificam como parte da classe trabalhadora, mas como “autônomos” ou pequenos “empreendedores” de si mesmos, mesmo vivendo sob relações de trabalho extremamente precarizadas. É nessa lógica que o capitalismo não apenas explora o trabalhador com as escalas arbitrárias, mas também reorganiza sua subjetividade para impedir que ele reconheça a própria exploração.

Não por acaso a CLT (Consolidação das Leis do Trabalho) passou a ser frequentemente retratada como atraso, enquanto a informalidade é romantizada como sinônimo de liberdade. É sob esse mesmo pensamento que os direitos trabalhistas viraram “obstáculos para o crescimento individual”. O trabalhador sem garantias e condicionado à escala 6×1 passa a ser visto como alguém “mais esforçado”, “mais ambicioso”. Em uma sociedade profundamente atravessada pelo neoliberalismo, até a ausência de direitos é transformada em virtude moral.

O que observamos é como a realidade concreta desmonta esse discurso. Vemos como o trabalho informal não garante segurança e transfere para o trabalhador os riscos da sobrevivência. O jovem que trabalha 12 horas por dia em aplicativos não controla o seu próprio trabalho, apenas assume sozinho todos os custos da precarização. A chamada “flexibilidade” existe apenas para quem manda, nunca para quem trabalha.

Os mesmo que querem a juventude em escala 6×1 e com os seus direitos minados, sequer estão inseridos no mercado de trabalho. Os parlamentares que votam para que você continue não descansando são os mesmo que nem cumprem a carga horária mínima de trabalho.

Sabendo disso, a única saída que temos é a organização da nossa força enquanto sociedade, para enfrentarmos juntos aqueles que nos querem sem direitos, sem acesso e que nos tiram a oportunidade de uma vida plena. Vamos fazer tremer os que um dia tentaram nos enfraquecer, condicionando a juventude ao cansaço para tentar para-lá.

Entender que quando nos tornamos coletivos, quebramos pouco a pouco as grades em que nos querem presos a uma lógica cruelmente capitalista. A juventude unida é a solução para construir um Brasil que nos permita viver.

Editado por: Vinícius Sobreira

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