Em períodos em que a história parece pisar no acelerador, os movimentos políticos e os conceitos que buscam explicá-los surgem como se fossem fenômenos que se sobrepõem uns aos outros como novidades que parecem enterrar a novidade antecessora. Perdemos cada vez mais a capacidade de historicizar os acontecimentos e entender a sua força ou causa motriz. Assim, na atual conjuntura parece que o imperialismo e o neofascismo estão enterrando o neoliberalismo.
Como o liberalismo da pax britannica do século XIX passou a ser o maravilhoso mundo do capitalismo comparado ao ascenso fascista e às guerras da primeira metade do século XX, o neoliberalismo corre o risco de ser interpretado como o civilizado mundo multilateral da globalização. Felizmente a sinceridade do premiê canadense vem para nos lembrar que tudo não passava de uma farsa e o que ocorre agora é apenas seu desvelamento.
A relação entre neoliberalismo, neofacismo e imperialismo tem determinações de causalidade semelhantes aos seus conceitos de origem.
O capitalismo da livre concorrência foi extinto ainda na primeira revolução industrial não sendo nada além de uma lenda da gênesis da mitologia do sistema. De fato, a livre concorrência entre países nunca existiu, sendo o poder dos canhões a fonte real da riqueza das nações ao saquearem o trabalho alheio. Nas colônias europeias foram fermentadas por séculos os elementos necessários para a ascensão fascista: a raça como dispositivo ideológico de dominação; a burocracia voltada para a contenção social dos explorados; e estes dois instrumentos colocados em função de um projeto de expansão ilimitada.
O liberalismo nada mais foi do que a justificativa que buscou dar um verniz civilizatório à brutalidade imperialista. Substituindo o dispositivo salvacionista religioso do mercantilismo que buscava salvar do inferno as almas perdidas, o liberalismo iluminaria o caminho dos povos primitivos ao céu do desenvolvimento por meio do deus mercado. No céu do desenvolvimento os povos até então tutelados poderiam enfim encontrar com a santíssima trindade da razão ética: igualdade, liberdade e fraternidade. Encontraram escravidão, miséria e saque, tendo que arrancar a independência com as próprias mãos através de prolongadas lutas de libertação em todo sul global.
Durante as décadas da ordem bipolar em que a luta dos países contra o imperialismo teve como centro a URSS e a organização do bloco socialista, o império estadunidense vendeu aos países da periferia do sistema planos de desenvolvimento irrigados por dívidas em dólar para conter a expansão socialista. Aí também o caminho da salvação estava dado pelo mercado.
A industrialização tardia da periferia do mundo transferiu a produção fabril e suas consequências ambientais, oferecendo empregos a baixos salários e sem direitos, situação garantida pela imposição de ditaduras fantoches.
A linha condutora do império britânico para o império estadunidense foi a concentração de capital cada vez maior em monopólios financeiros. Ao mesmo tempo, a redução das taxas de lucro pelo constante avanço das forças produtivas, ampliando o papel da tecnologia e reduzindo a participação do trabalho vivo na produção, tocava alto a sirene de alerta para necessidade de intensificação do projeto de expansão ilimitada dos capitais através dos canhões de seus Estados imperialistas.
Neoliberalismo foi resposta doutrinária a crise
O neoliberalismo foi a resposta doutrinária para nova demanda de acumulação de capital diante da redução da taxa de lucro. Mais uma vez foi reorganizada a burocracia estatal para ampliar a exploração de pessoas e recursos naturais tendo como modelo salvacionista o livre mercado.
No centro do edifício ideológico da reforma estatal propugnada estava a introdução nas constituições do mantra da eficiência. Tornar eficiente os Estados ineficientes seria a nova forma de salvar da miséria os povos do mundo. Para ser eficiente foi necessário privatizar as empresas responsáveis por recursos estratégicos e grandes serviços públicos, acabar com as garantias trabalhistas e previdenciárias, acabar com o caráter universal de direitos sociais.
As dívidas auferidas pelos países periféricos serviram de instrumento da nova chantagem do império para impor as reformas neoliberais. Mas, já naquele momento, a chantagem fiscal veio acompanhada da ameaça das baionetas. Vale sempre lembrar que o Chile sob Pinochet, a partir de 1973, foi o primeiro laboratório neoliberal.
O desmantelamento da URSS colaborou para a ilusão neoliberal ao dar a aparência de que a um mundo bipolar se seguiria um mundo multipolar. A mitologia fundadora da globalização baseada no avanço das tecnologias de transporte e comunicação, no surgimento de novos blocos econômicos e na ascensão dos tigres asiáticos levou a diversos pensadores sociais a riscarem de seus vocabulários o conceito de imperialismo. O pensamento se constrangeu ao ponto de filósofos como Negri abandonarem a análise da prática concreta do imperialismo dos Estados por um suposto império, baseado no mundo regulado pelas finanças especulativas.
Os próprios Estados tiveram seu fim decretado, junto com o trabalho, por pensadores como Domenico de Masi. O colonialismo não estaria mais na prática de dominação de Estados imperialistas, mas dentro dos Estados dominados por suas práticas autocolonizadoras e por isso precisaríamos cada vez mais ser decoloniais. Sob toda esta bagunça pós-moderno seguia pairando o pacto militar da Organização do Tratado do Atlântico Norte (OTAN).
Por isso, Milton Santos denunciava a globalização como globalitarismo. Sob o imperialismo neoliberal da OTAN vimos Kosovo ser bombardeada, Iraque e Afeganistão serem invadidos e o povo Palestino ser constantemente vilipendiado.
Após a crise financeira de 2008 as intervenções apenas se intensificaram através da guerra híbrida que varreu o Oriente Médio com sua ‘primavera árabe’, desestabilizou os governos progressistas da América do Sul e segue sendo utilizada, como no México com o suposto movimento de jovens contra o governo de Claudia Sheinbaum e a quarta transformação.
Trump é o imperialismo sem máscaras
Os ataques de Trump não abandonam o neoliberalismo, o neoliberalismo como prática imperialista denunciada a mais de trinta anos pelos movimentos populares do sul global continua vigente. Os pais do neoliberalismo do clube de Mont Pelerin e da Escola de Chicago sempre desprezaram a democracia. Em O Caminho da Servidão o filosófo do neoliberalismo Friedrich Hayek considerava a participação do povo na tomada de decisão estatal por meio do voto uma forma de opressão à liberdade de acumulação capitalista.
Trump faz um governo coerente com o imperialismo sob a doutrina neoliberal. O que o diferencia dos demais governos é o que diferenciou os fascistas do liberalismo de início do século XX: assumir o caráter antidemocrático e imperialista sem o verniz das ilusões democráticas da ordem burguesa, necessárias para criar hegemonia ideológica, mas que em tempos de crise se tornam amarras para ampliar as formas de exploração do trabalho e dos recursos naturais.
Esta diferença ao mesmo tempo não é desprezível e nem pequena. Ao transformar o cinismo em discurso mobilizador de massas e em discurso oficial, Trump abre a caixa de pandora da humanidade. Este cinismo é legitimador da crueldade e do sadismo como políticas sustentadas por massas sociais. Mas se apurarmos a visão, ele já estava lá. Como também sempre esteve no Brasil antes de Bolsonaro.
Os velhos inimigos sob novas roupagens devem nos lembrar da velha luta contra o imperialismo. Como já dizia Che, não devemos dar nem um dedo de confiança ao imperialismo.
Fábio Garrido é professor de Filosofia, doutor em Direito, mestre em Educação e militante do Movimento Brasil Popular
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Este é um artigo de opinião. A visão do autor não necessariamente expressa a linha editorial do jornal.
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Leia outros artigos de Fabio Garrido em sua coluna no Brasil de Fato.

