Flores para o Povo

Uma coluna dedicada à cannabis e aos seus aspectos científicos, políticos e mercadológicos, com o objetivo de ampliar o conhecimento sobre essa planta, reduzir o estigma e promover ideias para uma legalização popular no Brasil.

Um século de fake news: o papel da mídia na proibição da cannabis

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Poster do filme Reefer Madness, dirigido por Louis J. Gasnier, 1936.
Poster do filme Reefer Madness, dirigido por Louis J. Gasnier, 1936. | Crédito: Divulgação

A grande mídia não tende a mudar porque a manutenção da chamada “guerra às drogas” gera lucro para toda a rede de repressão.

Nas últimas semanas, o Brasil deu um passo histórico no debate sobre a cannabis e sua cadeia produtiva. Depois de mais de uma década de lutas judiciais, desobediência civil e inúmeras batalhas pelo acesso dos pacientes à planta, a Anvisa regulamenta o cultivo para fins farmacêuticos e associativos e abre a possibilidade de pesquisa ampla no país. Esse novo cenário é divulgado na mídia burguesa com posicionamentos técnico-mercadológicos de viés neoliberal e com opiniões “especializadas” de médicos e representantes de entidades proibicionistas, que aprofundam o estigma em torno da cannabis.

A desinformação e as “fake news” publicadas na grande mídia sustentam o proibicionismo e reforçam o medo em relação à cannabis na sociedade. O pilar da comunicação na guerra às drogas é estruturante de um projeto em curso há mais de 100 anos, que criminaliza determinados grupos sociais e gera lucro para outros. A disputa de narrativas pode mudar as palavras e os conceitos ao longo do tempo, mas o objetivo permanece o mesmo: controle e manipulação social.

Ao longo da última década, tem sido realizado um trabalho de consolidação das mídias especializadas em cannabis no Brasil, que ainda são muito nichadas e têm pouco alcance, apesar da relevância e da vanguarda das discussões que promovem. A grande mídia tem aberto espaço para o tema, inclusive com colunas dedicadas a explorar o complexo universo da cannabis, porém com baixa qualidade nas análises e pouca profundidade sobre seus reflexos na sociedade.

Paralelamente a esse movimento, existem fatores que prestam um desserviço à informação e à educação da população sobre o assunto. As mídias hegemônicas publicam sistematicamente traduções de veículos internacionais de fontes duvidosas e sem base científica consistente. Essas mesmas mídias também dão espaço a entidades e profissionais que utilizam seu status para divulgar desinformação.

Por outro lado, há a falta de espaço nas mídias progressistas para abordar a cannabis e as políticas de drogas de forma qualificada, contribuindo efetivamente para a redução do estigma na sociedade. Esse cenário representa um desserviço à ciência e à população e atua na manutenção do proibicionismo que colonizou nossos pensamentos ao longo do último século.

A origem do proibicionismo no mundo está ligada a uma política estadunidense dos anos 1930, que só foi possível com o engajamento, o apoio e o investimento massivo nas mídias da época. Matérias de jornais e o cinema deram suporte e justificativa para a criminalização, o encarceramento e a morte de centenas de milhares de pessoas pelo mundo por uma substância que era amplamente utilizada e vendida em farmácias.

Reefer Madness se tornou um marco do uso do audiovisual para espalhar pânico e desinformação. Em 1936, o filme foi uma das principais ferramentas antidrogas e representa, até hoje, muitas das narrativas que ainda são reproduzidas por médicos, conselhos profissionais e políticos no Brasil. Originalmente intitulado Tell Your Children (“Conte aos Seus Filhos”), o filme convenceu uma geração de que a maconha levava os jovens à loucura, ao assassinato, ao suicídio, à depravação sexual e de que um único uso poderia destruir a vida de uma pessoa. A produção associava o consumo a negros, mexicanos e ao jazz, criminalizando essas populações, que até hoje sofrem as consequências dessa política nos Estados Unidos e no mundo. O impacto do filme foi tão grande que serviu de base para a criação de políticas públicas nos Estados Unidos, posteriormente difundidas e impostas, no contexto do imperialismo estadunidense, a diversos países.

O Brasil também é pioneiro no proibicionismo da cannabis, como foi muito bem registrado no livro Fumo de Negro, da pesquisadora Luisa Saad, que recupera as origens dessa política no país. Nos jornais da primeira metade do século passado, eram publicadas matérias com títulos como: “O veneno africano: está sendo vendida no Rio uma planta diabólica que leva ao sonho, à loucura e à morte”.

As notícias falsas sobre cannabis e outras substâncias, amplamente difundidas na grande mídia, são responsáveis por alimentar a cultura proibicionista que normaliza o encarceramento em massa da juventude negra no Brasil. Também contribuem para o sofrimento de centenas de milhares de pessoas que não têm acesso a tratamentos com cannabis por falta de informação qualificada e pelo peso do preconceito.

A grande mídia não tende a mudar porque a manutenção da chamada “guerra às drogas” gera lucro para toda a rede de repressão. Segundo o relatório Efeito Bumerangue (2024), do projeto Drogas: Quanto Custa Proibir?, as seis Unidades da Federação analisadas (Bahia, Distrito Federal, Pará, Rio de Janeiro, Santa Catarina e São Paulo) gastaram, juntas, R$ 7,7 bilhões em um único ano (2023) para implementar a Lei de Drogas, sem que isso tenha resultado na redução do consumo ou da violência.

Enquanto cientistas, produtores, pacientes e educadores utilizam evidências científicas e a experiência internacional para avançar no acesso e na formulação de políticas de drogas no Brasil, o negacionismo científico e conservador lucra com a morte, com o encarceramento e com a saúde tratada como mercadoria, mantendo grande parte da população com medo e sem acesso a substâncias que podem melhorar a qualidade de vida. O papel e o posicionamento das mídias progressistas são fundamentais nessa disputa. Não é preciso ter medo: a ciência e a história estão do nosso lado.

*Luna Vargas é mestra em Antropologia pela EHESS (Paris). Fundadora e educadora da INFLORE, projeto pioneira na formação de profissionais para o mercado canábico. Pesquisa mercado e regulamentação da cannabis em diferentes países. Atua como comunicadora, palestrante e consultora. Instagram: @lunavargas

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

Editado por: Nathallia Fonseca

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