A euforia de uma criança ao chegar em um parque de diversões. É assim que eu descreveria ser recebida em um resort canábico. À primeira vista, um hotel comum. Mas os detalhes transformam completamente a experiência. No lobby, uma pequena loja com produtos canábicos, com comestíveis, flores e bebidas. No restaurante, um menu à parte com pratos infusionados. Um tour pela propriedade revela um cultivo com uma centena de plantas. No quarto, um baseado já bolado na mesa de cabeceira, acompanhado de um cartão de boas-vindas: “bem-vindos ao primeiro resort canábico da Tailândia”.
Essa foi minha experiência em Koh Samui, uma das ilhas mais visitadas da Tailândia. O país descriminalizou a cannabis em 2022, tornando-se o primeiro da Ásia a adotar uma política ampla de liberação. A decisão não foi por questões médicas ou sociais, foi principalmente econômica. O turismo representa cerca de 20-30% do PIB do país, segundo a Autoridade de Turismo da Tailândia, e havia colapsado durante a pandemia. A cannabis entrou como estratégia de recuperação. No dia da legalização, o governo distribuiu cerca de 1 milhão de mudas à população e retirou 3 mil pessoas do sistema prisional, sinalizando uma virada na política de drogas local.
Em poucos anos, o país viu surgir mais de 13 mil dispensários e um mercado que já ultrapassa US$ 1 bilhão, segundo estimativas do governo. Em torno disso, formou-se um novo ecossistema turístico: hotéis, restaurantes, tours, experiências terapêuticas e espaços culturais. E conseguiu, em pouco tempo, uma recuperação econômica, dar suporte para os agricultores e diminuir o encarceramento. Essa realidade impressionante vem se modificando com novas políticas e mudanças de governo, mas o impacto continua sendo um dos mais importantes na atualidade.
O turismo canábico global não é novidade e existem circuitos clássicos. Dos coffee shops de Amsterdã às fazendas da Califórnia, das praias da Jamaica às regiões produtoras do Marrocos e Índia, esse setor movimenta bilhões de dólares e integra cadeias que vão da agricultura ao entretenimento. Em estados como Colorado e Califórnia, o turismo ligado à cannabis já é reconhecido como vetor econômico relevante, aumentando o tempo de permanência de turistas e o consumo local e ampliando roteiros como os tours de degustação de vinho e cannabis.
Ainda que não seja reconhecido oficialmente, o Brasil já vive há décadas uma forma de turismo canábico. Ele acontece em certas praias de norte a sul, nas Chapadas do interior, em cidades como São Thomé das Letras, no carnaval, nos festivais de música e em circuitos de “turismo espiritual”, como cunhou o pesquisador Jean-Loup Amselle, que incluem também ayahuasca, cogumelos, jurema, entre outros. Existe uma demanda mundial por esse tipo de turismo, sustentada por um desejo de experiência, de reconexão e cuidado com a saúde mental.
O potencial turístico do Brasil é subestimado e muito aquém do que poderia ser, considerando sua diversidade cultural, sua natureza e suas medicinas tradicionais. O turismo canábico deveria ser um pilar central nas discussões sobre legalização. Não só para ampliar o potencial econômico, mas como um braço fundamental na redução de estigma e normalização da cannabis e outras substâncias na nossa sociedade.
Mesmo sem uma regulamentação ampla, muitas atividades poderiam estar sendo feitas hoje no país, como expedições e visitas às associações produtoras de cannabis de forma sistemática para um grande público. Dispensários educacionais (lojas especializadas) para educar e dar acesso, criando um circuito importante para informação da sociedade. Hotéis e pousadas “420 friendly”, que significa que são abertos a receber usuários. Na indústria do bem-estar, existem os retiros, spas e práticas como Ganja Yoga. O turismo científico e educacional em torno da cannabis e outras substâncias, com congressos, oficinas, cursos conectados a locais emblemáticos e instituições. O turismo cultural para remontar a história da cannabis no Brasil, com museus, roteiros históricos e comunidades.
Tudo isso gera uma outra economia ligada à formação e treinamento de profissionais especializados para atuar em todos esses campos de atuação, como sommeliers de cannabis, guias especializados, consultores terapêuticos, curadores de experiências etc., assim como agências especializadas e outras estruturas para o desenvolvimento do setor.
O turismo canábico pode parecer mais uma forma de explorar um nicho exótico e desconhecido. Mas ele tem um papel crucial na normalização da planta na sociedade. Ver, ouvir histórias, ver anúncios e cartazes no dia a dia, experienciar em seus múltiplos aspectos ajuda a recuperar a cultura e as práticas que o proibicionismo calou durante um século. O que o turismo mais contribui para a humanidade é o simples fato de mostrar que existem outras formas de viver, outros hábitos e outras culturas, e isso gera tolerância e amplia a empatia. Viajar e compartilhar experiências de reconexão e autoconhecimento tem o potencial de transformar a forma como nos relacionamos com o outro, com o mundo e com a natureza.
*Luna Vargas é mestra em Antropologia pela EHESS (Paris). Fundadora e educadora da INFLORE, projeto pioneira na formação de profissionais para o mercado canábico. Pesquisa mercado e regulamentação da cannabis em diferentes países. Atua como comunicadora, palestrante e consultora. Instagram: @lunavargas
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.

