Em meio à neve e ao vento do porto de Vancouver, cheguei à Lift & Co, um dos maiores eventos de cannabis do mundo. Era janeiro de 2019, dois meses após a legalização total no Canadá. O país foi o primeiro do G7 a legalizar a maconha e o primeiro a assumir o objetivo de desenvolver toda a cadeia produtiva e se tornar vanguarda mundial no comércio.
Na época, a Aurora Cannabis era uma das maiores do mercado, avaliada em cerca de R$ 20 bilhões, considerada uma das principais big weed (grandes corporações de produção de cannabis) do mundo. Cam Battley era vice-presidente da empresa na época, e como sua empresa era a principal patrocinadora do evento, tinha a fala de abertura. Eu nunca vou esquecer da fala, porque cheguei acreditando que ele faria o discurso padrão de uma gigante do setor: os negócios da empresa, cultivo em escala, investidores e bolsa de valores. Me surpreendi.
Battley iniciou sua apresentação dizendo que poderia falar sobre business e mercado, mas que usaria seu tempo para falar sobre o desencarceramento. Durante 30 minutos, apresentou dados que escancaravam o disparate: um mercado em expansão enquanto pessoas seguem presas pela mesma planta.
Atualmente, o Brasil tem acesso legal à cannabis por quatro vias: farmácias, importação de países onde a cannabis é legalizada, associações de pacientes e autorização da Justiça para cultivo individual. Desde 2019, a indústria farmacêutica tem permissão da Anvisa para comprar IFA (insumo farmacêutico ativo) de outros países, envasar no Brasil e vender nas farmácias de todo o país, mas não para produzir em solo brasileiro. Esse cenário mudou.
Em janeiro, a Anvisa publicou a RDC 1.013/2026, que autoriza o cultivo de cannabis por empresas privadas para fins farmacêuticos. A diretriz entra em vigor no início de agosto e, na prática, é a regulamentação da big weed no Brasil. Segundo a resolução, empresas vão poder agora cultivar e vender os IFAs, até então importados para a indústria farmacêutica, ou vender direto para o varejo farmacêutico, como já acontece. Mas por que a regulamentação para empresas nos moldes da nova diretriz não vai ser para qualquer empresa?
A régua de entrada é alta: autorização especial, estrutura técnica robusta, rastreabilidade total, laboratório e controle absoluto da produção.
Não é um modelo agrícola. Exige grau farmacêutico, o que não necessariamente significa qualidade.
Soma-se a isso o limite de 0,3% de THC, que complica a produção e não atende à maioria dos pacientes.
O resultado é uma Big Weed nos moldes canadenses, mas com limitações que podem fazer com que o negócio não valha a pena para o investidor. Quanto mais exigência, menos empresas entram, o que tende à formação de um oligopólio.
Na prática, a porta de entrada fica restrita a empresas com grande capital, em um mercado ainda incerto e de alto risco. O que deveria ser um avanço na reindustrialização do Brasil vai virar vantagem para poucos empresários com influência política.
O investimento estrangeiro no mercado nacional pode não ocorrer devido ao impedimento de exportação — o contrário do que se deu no Uruguai, no Canadá e na Tailândia. Desde 2022, os pacientes importam cannabis e, agora que vamos produzir, exportar não será uma opção. O Brasil está conseguindo chegar ao mercado da produção de cannabis medicinal com 10 anos de atraso e ainda criando barreiras desnecessárias. Confundindo “alhos com bugalhos”, como diz a expressão popular, ao misturar cânhamo industrial com cannabis sem gerar benefício real para produtores ou pacientes, o país expõe um desalinhamento entre regulação, mercado e ciência.
A institucionalização dessa nova casta no mercado canábico tende a ser bem menor do que se esperava, e a chamada big weed brasileira pode acabar pedindo arrego para poder plantar THC sem limites, assim como as associações de pacientes vão poder. Como ainda não há vantagem real para as farmacêuticas investirem em produção local, a tendência é que continuem comprando insumo fora do Brasil. Diferente de países da União Europeia, Canadá e Estados Unidos, o Brasil não protege seu mercado nem restringe a importação, mesmo com a possibilidade de produção interna.
Existe um campo de disputa claro: de um lado está a indústria da cannabis e, de outro, a indústria farmacêutica. A indústria da cannabis é composta pela big weed, pelas associações de pacientes, pequenos produtores da agricultura familiar e cultivadores individuais, além de contar com um mercado ilegal gigantesco e muito mais rentável. Essa distinção é multifatorial, por questões de ideologia, lógica, forma de produção e entendimento social.
A big pharma opera visando propriedade intelectual e previsibilidade: patenteia moléculas novas, formulações e formas de uso, garantindo exclusividade de mercado por anos. Busca dose exata, efeito previsível e um produto replicável, o que não acontece da mesma forma na indústria da cannabis, por se tratar de um produto fitoterápico e sem barreiras à produção.
As grandes corporações de produção de cannabis no Brasil sofrem de uma espécie de “crise de pertencimento”. Para a indústria farmacêutica, entram no jogo com o motor mais fraco e dependem, inclusive, do varejo farmacêutico para a dispensação. Para a big pharma, não há concorrência real: além de dinheiro, lobby, histórico e credibilidade social, não é preciso lucrar com cannabis; basta que a cannabis medicinal não se consolide como mercado e, se for para existir, que seja sob seu domínio. A big weed brasileira tenta operar como indústria farmacêutica sem ser, e como indústria da cannabis sem se assumir.
Grande parte das associações de pacientes não reconhece a big weed como parte do campo da cannabis. Quando reconhece, a vê como o primo rico: tem estrutura e capital, mas não tem vínculo, cultura nem legitimidade dentro da comunidade. Essas corporações também não se reconhecem na própria indústria da cannabis, porque operam sob a lógica e as regras da indústria farmacêutica, sem identificação social com o campo que tentam ocupar.
A big pharma não cultiva laranja para extrair vitamina C, da mesma forma que não planta cannabis para produzir CBD. Seguir as rígidas boas práticas de fabricação (GMP) não transforma uma produtora de cannabis em indústria farmacêutica, até porque não produz nenhum outro fármaco. Isso só evidencia a tentativa de se enquadrar em um modelo que não é o seu. E, pior, ainda se orgulham disso.
Essa “crise de pertencimento” pode ser menos um acidente e mais uma estratégia: um distanciamento calculado para não ser associada a algo historicamente criminalizado, historicamente associado à cultura preta, ter que lidar com consequências histórico-sociais e ainda carregado de estigma. A big weed não quer plantar maconha, quer produzir CBD. Isso vai acontecer até entender que o mercado de uso adulto ou recreacional, que tende a ser legalizado na sequência, é, em média, nove vezes maior que o médico, e que o próprio mercado médico tende a perder relevância.
Não entender seu lugar no mercado faz a big weed brasileira jogar errado e ficar sozinha em cima do muro. A cultura médico-farmacêutica é tão enraizada no imaginário da população, principalmente na América Latina, que os empresários tardam a perceber que a indústria farmacêutica não detém o monopólio da produção de remédios. A própria indústria da cannabis faz isso muito bem sozinha, como as associações canábicas do Brasil têm demonstrado nos últimos 12 anos. E tende a fazer ainda mais a partir de agora, com a entrada da agricultura familiar.
Exatos sete anos depois do discurso surpreendente que escutei do executivo da Aurora Cannabis sobre desencarceramento, estive presente na audiência da Anvisa que definiu a cadeia produtiva e os novos rumos da cannabis no Brasil. Janeiro de 2026 também vai ser inesquecível para mim.
Um pré-Carnaval em que se reuniram todos os atores da indústria da cannabis e da farmacêutica no auditório do órgão, em Brasília. Nós, da indústria da cannabis, parecíamos uma torcida do Corinthians, vibrando a cada fala e vaiando todos aqueles que tentavam usar falsos argumentos para limitar a produção das associações. A big weed brasileira estava lá, presente, sendo vaiada pela comunidade canábica e empurrada para escanteio pela indústria farmacêutica.
Já temos caminho e história suficientes para entender que não há como controlar o uso e o comércio dessa planta. A legalização não é uma hipótese, é um processo em curso. Nesse cenário, ignorar a dinâmica do próprio mercado não é prudência, é erro de leitura.
Não entender a importância de fazer um discurso sobre desencarceramento, como o executivo da Aurora Cannabis se prestou a fazer, mostra o atraso da big weed do Brasil no que é fundamental para a sociedade e sua própria sobrevivência no mercado. Se não for por humanidade e justiça, que seja por mão de obra e consumidor. Como repito desde 2020: indústria da cannabis não é indústria farmacêutica!

