Trabalhar como budtender, atendente de loja de cannabis, me deu duas coisas que nenhum evento ou pesquisa acadêmica poderia ter me dado: rede de contatos e vivência prática do mercado. O trabalho que realizei com educação e curadoria de produtos, entre 2018 e 2022, me proporcionou conhecer mais de 800 marcas do mercado canadense e seus representantes comerciais.
Essa rotina diária de pesquisa de produtos e as longas conversas com profissionais da indústria me permitiram entender como os arranjos comerciais, as parcerias estratégicas e os negócios entre empresas eram construídos, além de observar, na prática, como a rígida legislação da cannabis no Canadá era implementada.
Pela legislação canadense, marcas estrangeiras não podem simplesmente vender cannabis importada no mercado adulto sem produção local ou licenciamento. Mas, em uma conversa com um representante da Wana, uma das marcas de gominhas mais conhecidas dos Estados Unidos na época, descobri como uma empresa americana conseguiu entrar no mercado canadense. A marca atravessou a fronteira, mas a cannabis não. Para operar no Canadá, a empresa americana precisou buscar uma produtora local, a Indiva, compartilhando sua propriedade intelectual e realizando um investimento significativo na companhia.
Foram mecanismos de proteção como esse que ajudaram a forjar o que hoje é um dos principais mercados de legalização total do mundo, consolidado há quase uma década.
Apesar de uma legalização neoliberal, com altas barreiras de entrada e prioridade para grandes corporações, o Canadá não legalizou a cannabis para entregar seu mercado ao livre comércio. Legalizou depois de construir fronteiras regulatórias, controle genético, licenciamento federal, barreiras técnicas e restrições à importação.
O Canadá é um país cuja economia pode ser comparada a de um único estado estadunidense. Uma nação que cresceu à sombra da fronteira do império e cujo PIB inteiro é comparável ao do estado de Nova York. Sem mecanismos de proteção diante da força econômica dos Estados Unidos, dificilmente existiria hoje um mercado canadense de cannabis.
A Anvisa autorizou a exportação da produção de cannabis no Brasil, tema que havia ficado de fora quando publicou suas resoluções em janeiro deste ano. Grandes corporações e a indústria farmacêutica receberam a notícia com entusiasmo diante da possibilidade de o país finalmente entrar no mercado global da cannabis. Mas, na prática, estamos assistindo à construção de algo muito diferente: uma nova fronteira de exportação antes mesmo da consolidação de uma produção nacional robusta, da estruturação da cadeia produtiva e do próprio estabelecimento de um mercado interno, principalmente porque a agência manteve aberta a possibilidade de importação de produtos.
As dinâmicas coloniais enraizadas na prática política e social brasileira também podem ser observadas no mercado da cannabis na forma de um extrativismo canábico, em que a biodiversidade tropical, o conhecimento local e a mão de obra nacional passam a alimentar cadeias globais de alto valor agregado. O resultado pode ser a formação de um enclave produtivo, altamente regulado, voltado para exportação e cada vez mais distante das necessidades da própria população.
Quando o Brasil organiza sua regulação não a partir das necessidades do mercado interno, da sua população ou da sua capacidade produtiva local, mas a partir das demandas de investidores, exportadores e cadeias globais de valor, a legalização deixa de operar como política pública e passa a funcionar como uma plataforma de extração econômica concentrada nas mãos da classe dominante.
Todo esse cenário está sendo construído à brasileira, ou seja, tentando agradar os atores com maior poder político e econômico, como o agronegócio, a indústria farmacêutica e as grandes corporações. O problema é que, ao mesmo tempo em que desconsidera as necessidades internas do país, essa estratégia também parece ignorar a própria dinâmica do mercado global. O Brasil discute exportação antes mesmo de consolidar uma cadeia produtiva nacional robusta, antes de estruturar seu mercado interno e, em muitos casos, antes mesmo de ter escala comercial suficiente para competir internacionalmente.
Do ponto de vista geopolítico, entramos tarde em um jogo que já está em andamento há anos. Colômbia, Uruguai, Paraguai e Argentina já desenvolvem produção, pesquisa, exportação ou políticas industriais ligadas à cannabis há bastante tempo. Nos Estados Unidos, a produção de Hemp com baixo teor de THC foi consolidada com o Farm Bill de 2018, e seus derivados são vendidos não como medicamentos, mas como produtos de bem-estar em supermercados, lojas de conveniência e dispensários. Na União Europeia, o movimento é semelhante, embora alguns países, como a Alemanha, também enxerguem a importação como estratégia ambiental, preferindo preservar recursos naturais e terceirizar parte da produção agrícola e industrial.
Essa lógica não parece preocupar nem parte do governo nem parte do empresariado brasileiro. Enquanto outros países regulam pensando em soberania, tecnologia e proteção de mercado, o Brasil parece disposto a repetir sua velha vocação exportadora.
Como declarou a Embrapa: a cannabis tem tudo para ser “a nova soja”.
O discurso da Abiquifi na reunião da Anvisa que autorizou a exportação apresenta a abertura do mercado externo como um caminho para baratear preços e ampliar o acesso. Se essa lógica realmente funcionasse dessa forma, o maior exportador de proteína animal do planeta não conviveria com um “Canadá inteiro” de brasileiros em situação de insegurança alimentar. O mesmo vale para o café: exportamos os grãos de maior qualidade, enquanto boa parte da população consome um produto cada vez mais caro e, muitas vezes, inferior.
Mais uma vez, o trabalho de produzir localmente e ampliar o acesso tende a continuar nas mãos de quem já vem sustentando essa agenda há anos: associações de pacientes, agricultura familiar e assentados da reforma agrária. Exatamente os atores com pouco investimento e pouco apoio do governo.
Há ainda uma contradição regulatória pouco debatida. Enquanto o modelo corporativo autorizado para as empresas opera com limites rígidos de THC, são justamente os modelos associativos e comunitários que hoje possuem maior capacidade de trabalhar com formulações mais amplas e mais próximas das necessidades reais de muitos pacientes.
A regulamentação da cannabis, por si só, não vai alterar as dinâmicas coloniais sob as quais o Brasil historicamente opera, seja nas terras raras, no petróleo, no minério ou em tantas outras cadeias estratégicas. O governo brasileiro não parece ter um projeto consistente para a construção do mercado da cannabis no país, assim como há muito tempo também não apresenta um projeto claro de nação. Por isso, debates fundamentais como soberania nacional passam longe das regras que hoje estão moldando a criação desse chamado “mercado verde”. Mais distante ainda está qualquer discussão séria sobre participação do Estado na produção, distribuição ou regulação estratégica dessa cadeia.
Alguns anos depois de deixar o Canadá, me mudei para a Tailândia para pesquisar o processo de regulamentação da cannabis no país. Trabalhar lá é bem mais complexo para um estrangeiro. Para contratar um profissional de fora, as empresas precisam empregar quatro trabalhadores tailandeses, criando mecanismos concretos de proteção dos trabalhadores.
Para abrir uma empresa, investidores estrangeiros também precisam operar ao lado de sócios locais com participação majoritária em diversos setores estratégicos. Ainda me impressiona, e até me gera certa admiração, observar como um país pode exercer sua soberania econômica com tanta naturalidade e tão pouco entreguismo. Talvez isso não seja coincidência. A Tailândia foi o único país do Sudeste Asiático a escapar formalmente da colonização europeia, e talvez seja justamente essa memória histórica que ainda se reflita na forma como protege seu território, seus trabalhadores e seus mercados.
Se a cannabis brasileira nascer olhando para fora antes de cuidar de quem está dentro, não estaremos construindo soberania. Estaremos apenas inaugurando mais uma commodity para o lucro do Agro, a Big Weed e a Big Pharma.

