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FomeRI – Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

A crise da fome em Gaza e a urgência do cessar-fogo

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Segundo Norwegian Refugee Council (NRC), desde que o cessar-fogo entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, as autoridades israelenses rejeitaram 23 pedidos de nove agências de ajuda humanitária | Crédito: Foto: UNRWA

Tudo indica que o cessar-fogo tenha sido uma estratégia para reverter a péssima repercussão pelas decisões de Netanyahu ao longo deste período de massacre

Por Ana Loísa Brito Duarte Gomes* e Alexandre Cesar Cunha Leite**

O relatório da IPC Global Iniciative, divulgado em 22 de agosto de 2025, confirmou que a fome já chegou ao nível mais grave na governadoria de Gaza, classificado como Fase 5 – quando há falta extrema de alimentos, desnutrição severa e risco real de morte. O IPC é uma escala internacional que mede a insegurança alimentar, indo de Fase 1 (segurança alimentar) até Fase 5 (fome/colapso total). Além disso, o relatório alerta que a situação deve se agravar, com a fome se expandindo para Deir al-Balah e Khan Younis nas próximas semanas.

A estimativa contida no relatório era que, entre 16 de agosto e 30 de setembro de 2025, cerca de 641 mil pessoas enfrentariam condições catastróficas de insegurança alimentar extrema (Fase 5), enquanto 1,14 milhão estariam em emergência alimentar (Fase 4). O documento projeta que até junho de 2026, aproximadamente 132 mil crianças menores de cinco anos sofrerão de desnutrição aguda, incluindo 41 mil casos graves, e 55,5 mil mulheres grávidas ou lactantes necessitarão de apoio nutricional urgente. No total, estima-se que mais de 1,98 milhão de pessoas enfrentam algum nível de insegurança alimentar: 32% em catástrofe (Fase 5); 58% em emergência (Fase 4); e 10% em crise (Fase 3).

O relatório aponta que a crise na Faixa de Gaza é agravada pelo bloqueio de ajuda humanitária, restrições ao acesso a bens essenciais e colapso dos serviços de saúde. Porém, esse bloqueio não começa com a guerra atual, ele tem raízes no início dos anos 1990, quando Israel passou a controlar rigidamente a circulação de pessoas e mercadorias após a Primeira Intifada, que foi a manifestação da população palestina contra a ocupação israelense em 1987.

Mesmo após a retirada dos assentamentos em 2005, Israel manteve o controle das fronteiras terrestres, do espaço aéreo, das águas costeiras e do comércio exterior na Faixa de Gaza, o que, no direito internacional, continua caracterizando ocupação. A situação se intensifica em 2007, após o Hamas assumir o governo local: é nesse contexto que o bloqueio se torna uma política deliberada, sistemática, de controle da vida humana, afetando desde a entrada de alimentos e combustível até materiais básicos para a vida civil.

Para operacionalizar essa política, o Ministério da Defesa israelense elaborou em 2008 o documento conhecido como Linhas Vermelhas para o Consumo de Alimentos na Faixa de Gaza, que estabelecia cálculos de calorias mínimas necessárias para evitar a morte da população por fome, permitindo a entrada de alimentos apenas no limite da sobrevivência. O objetivo era administrar a escassez como forma de pressão política – resumido pela frase de Dov Weisglass, então conselheiro do primeiro-ministro israelense Ehud Olmert, em 2006: era necessário “colocar Gaza em dieta, mas não deixá-la morrer”. O documento permaneceu sigiloso até 2012, quando veio a público após uma ação judicial movida pela organização israelense Gisha. Embora o plano não apareça nominalmente nas políticas atuais, sua lógica permanece: Israel continua controlando a entrada de alimentos, água, combustível e insumos básicos.

Assim, segundo o documento da IPC, em Gaza, cerca de 87% dos caminhões de ajuda da Organização das Nações Unidas (ONU) têm sido barrados, enquanto 80% das famílias enfrentam riscos à vida ao tentar buscar alimentos. A produção alimentar colapsou: 98% das áreas agrícolas estão destruídas ou inacessíveis e a pesca foi totalmente proibida, o que fez o preço de itens básicos, como a farinha, aumentar mais de 3.400% desde fevereiro de 2025. Com o sistema de água, saneamento e saúde em colapso, doenças como diarreia, infecções respiratórias e de pele se espalham, especialmente entre crianças, revelando um cenário em que fome e doença avançam juntas.

O Comitê de Revisão da Fome (FRC) classifica o cenário como uma “catástrofe inteiramente causada pelo homem”, destacando que a fome pode ser interrompida e revertida mediante o cessar-fogo imediato, restauração dos fluxos comerciais e acesso humanitário irrestrito. Numa tentativa de parecer imparcial, o comitê atribui responsabilidade às ações deliberadas de Israel, que insiste em utilizar o subterfúgio de retaliação à ação terrorista do Hamas. O FRC concluiu que ações urgentes e em larga escala são necessárias, incluindo: respostas humanitária multissetorial (alimentos, saúde, nutrição, WASH, abrigo, combustível, assistência a meios de subsistência); o cessar-fogo imediato e sustentado para permitir acesso humanitário irrestrito; e, a proteção da população e restauração dos serviços essenciais.

A análise do IPC reitera a dimensão ética e política da fome, ao afirmar que a tragédia atual é o produto direto de decisões humanas, não de escassez inevitável. Segundo o diretor-geral Tedros Adhanom Ghebreyesus, da Organização Mundial de Saúde (OMS), essa “catástrofe sanitária e humanitária” que pode durar (e afetar) gerações. Tedros enfatizou que “há muito tempo dizemos que a paz é o melhor remédio”, mas lamentou que “o cessar-fogo que temos é muito frágil” fazendo menção às mortes ocorridas mesmo após o cessar-fogo, que já foi desrespeitado e quebrado algumas vezes. Para ele, “é muito triste ver pessoas que celebravam nas ruas, felizes com o acordo de paz, estarem agora mortas após acreditarem que a guerra havia acabado”. Tudo indica que o cessar-fogo tenha sido uma estratégia para reverter a péssima repercussão pelas decisões de Benjamin Netanyahu ao longo deste período de massacre.

Segundo Norwegian Refugee Council (NRC), desde que o cessar-fogo entrou em vigor em 10 de outubro de 2025, as autoridades israelenses rejeitaram 23 pedidos de nove agências de ajuda humanitária para o envio de suprimentos de abrigo urgentemente necessários, como barracas, kits de vedação e estrutura, roupas de cama, utensílios de cozinha e cobertores. Organizações humanitárias alertam que a janela de oportunidade para ampliar a assistência para o inverno está se fechando rapidamente e a população tende a sofrer com a adição de mais uma condição adversa.

As decisões recentes do governo de Israel têm contrariado os termos do acordo de cessar-fogo, mantendo a instabilidade e impedindo a garantia de segurança para a população palestina. O caso de Gaza exemplifica como a fome contemporânea se configura como um fenômeno político. Em Gaza, a fome é resultado de decisão intencional israelense, sendo consequência de políticas de bloqueios, de constrangimento ao acesso à bens e serviços essenciais e da desintegração de infraestruturas civis, aplicando sob o pretexto de um objetivo pragmático, uma política de punição coletiva, em violação ao direito internacional humanitário. Trata-se de uma política de morte. Quando se age deliberadamente para destruir um grupo populacional, comete-se um crime internacionalmente reconhecido como genocídio.

*Ana Loísa Brito Duarte Gomes é graduanda em relações internacionais pela Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), bolsista do projeto de extensão Saciar e integrante do Saciar Lab.

**Alexandre Cesar Cunha Leite é docente da Universidade Estadual da Paraíba (UEPB), coordenador do Saciar Lab, criador do Saciar (@_saciar) e membro do FomeRI (UFPB).

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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