FomeRI

FomeRI – Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).

O protagonismo feminino na segurança alimentar

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Projeto Quintal das Margaridas | Crédito: Túlio Martins/AS-PTA

As mulheres exercem um papel fundamental na implementação e nos resultados da agricultura familiar

Por Amanda Alves da Silva* e Alexandre Cesar Cunha**

A insegurança alimentar não é neutra: ela possui cor, gênero e endereço no Brasil. De acordo com o 2º Relatório Vigisan, da Rede de Pesquisa em Soberania e Segurança Alimentar e Nutricional (Rede Penssan), publicado no final de 2022, cerca de 15,5% dos lares brasileiros enfrentavam a insegurança alimentar grave entre o final de 2021 e abril de 2022, e cerca de 125,2 milhões de brasileiros conviviam com algum grau de insegurança alimentar (leve, moderado ou grave), sendo assim, 58,7% da população com a incerteza ou com a falta de alimentos. Os dados do relatório refletiam à época o impacto do desmonte institucional realizados a partir de 2016 no país e do agravamento da pandemia de Covid-19 em um cenário já instável.

O fenômeno da fome é marcado pela interseccionalidade; e as desigualdades de gênero apresentam-se acentuadas nesse aspecto, principalmente nas conjunturas de instabilidade que acometem o Brasil. Não é de hoje que os dados indicam que os domicílios chefiados por mulheres estão mais expostos à fome com relação aos lares chefiados por homens.

Dentre outros fatores, as diferenças de salário, os empregos precários e com maior instabilidade explicam a forte relação entre a maior incidência de casos de insegurança dentro de famílias chefiadas por mulheres. Em 2022, 19,3% das famílias chefiadas por mulheres estavam expostas à fome, enquanto em lares chefiados por figuras masculinas esse percentual diminuía para 11,9% (Rede Pensaan).

De acordo com o relatório da Organização das Nações Unidas para a Agricultura e Alimentação (FAO) de 2022, a disparidade de gênero em pontos percentuais foi de 9,1% na insegurança alimentar moderada ou grave na América Latina e Caribe. Diante dos dados, o termo “feminização da fome” tornou-se um conceito utilizado para descrever como a fome e a insegurança alimentar atingem desproporcionalmente as mulheres.

Esses dados representam uma disparidade marcante entre os gêneros, mas se a insegurança alimentar possui gênero, paradoxalmente a segurança alimentar também. Ainda que as mulheres representem o gênero mais afetado pela fome, as mulheres também correspondem às principais agentes de fortalecimento de sistemas alimentares resilientes e agroecológicos. As mulheres exercem um papel fundamental na implementação e nos resultados da agricultura familiar; as lideranças femininas comandam a gestão do autoconsumo e corroboram para a diversidade cultural de alimentos produzindo diversidade e garantindo o acesso à qualidade nutricional.

Além do valor nutricional, o trabalho das mulheres gera uma “renda invisível”, o dinheiro economizado com o alimento colhido no quintal de casa é reinvestido na compra de outros itens essenciais, equilibrando a economia doméstica. Nesse sentido, a atuação feminina configura uma autêntica ética do cuidado, que redefine os padrões de produção dos sistemas alimentares ao priorizar o bem-estar coletivo e a preservação da diversidade alimentar e do meio ambiente local.

As mulheres também desempenham papel central no combate à fome em comunidades urbanas, rurais e em assentamentos, não apenas por sua participação direta na produção, preparo e distribuição de alimentos, mas também por sua capacidade de organizar redes de cuidado, sustentar práticas solidárias e mobilizar coletivos em torno da segurança alimentar. A FAO destaca que as mulheres ocupam posição estratégica nos sistemas agroalimentares e que a redução das desigualdades de gênero nesse campo melhora a segurança alimentar, a renda, a produtividade e a resiliência das famílias e comunidades.

Em contextos rurais e nos assentamentos, a atuação feminina combina trabalho produtivo, gestão cotidiana da vida material e articulação política. Existe literatura acadêmica suficiente que nos permite afirmar que mulheres camponesas e assentadas têm papel decisivo na agroecologia, na preservação de sementes, na diversificação da produção, na sustentação de circuitos locais de abastecimento e na criação de economia solidária, o que fortalece a soberania e a segurança alimentar. Pesquisas sobre mulheres Sem Terra e sobre redes de produtoras rurais indicam ainda que sua ação coletiva contribui para transformar territórios, consolidar formas cooperativas de trabalho e ampliar a autonomia econômica e política das comunidades.

Nas periferias urbanas, esse protagonismo também se expressa de maneira contundente. Experiências recentes de cozinhas solidárias e iniciativas comunitárias de combate à fome mostram que o trabalho de cozinhar, acolher, distribuir alimentos e manter vínculos de solidariedade tem sido sustentado, em grande medida, por mulheres. Esses espaços não funcionam apenas como resposta emergencial à escassez de comida, eles operam como formas de organização popular, educação alimentar, construção de vínculos e defesa do direito humano à alimentação adequada. A capacidade feminina de gestão, cuidado e mobilização aparece como elemento estruturante da resposta comunitária à fome.

Todavia, o protagonismo feminino enfrenta barreiras severas impostas pelo patriarcado estrutural. Um dos problemas estruturais consiste na negligência e na invisibilidade social e econômica do trabalho das mulheres. A ONU Mulheres chama atenção para o fato de que as mulheres seguem assumindo parcela desproporcional do trabalho de cuidado não remunerado, o que inclui tarefas domésticas e, muitas vezes, ações comunitárias de alimentação e apoio social. Isso significa que sua liderança no enfrentamento da fome não decorre apenas de uma “vocação para o cuidado”, mas também de uma inserção histórica e desigual nas responsabilidades de reprodução da vida.

Para erradicar a fome e garantir a segurança alimentar, é imperativo enfrentar as desigualdades de gênero construídas sob a lógica patriarcal que organiza a divisão do trabalho. No capitalismo, esse processo é central porque a economia depende não apenas do trabalho remunerado, mas também de um amplo volume de trabalho não pago — cozinhar, cuidar, organizar a alimentação e garantir a sobrevivência cotidiana. São vetores de exploração e de desigualdade diretamente associados ao gênero.

Para promover a igualdade de gênero e, consequentemente, ampliar a inclusão feminina e a segurança alimentar, é necessário adotar um conjunto articulado de políticas que enfrentem simultaneamente a desigualdade no acesso a recursos produtivos, a sobrecarga do trabalho de cuidado e a sub-representação das mulheres nos espaços de decisão. A redução das desigualdades de gênero nos sistemas agroalimentares depende de medidas concretas como garantir às mulheres acesso à terra, a linhas de crédito, trabalho decente e proteção social. Entram neste leque políticas capazes de alterar normas sociais discriminatórias e ciclos de violência. A promoção da inclusão e do protagonismo feminino, transformar as bases institucionais que naturalizam a divisão sexual do trabalho, constituem-se ações imprescindíveis para o combate à divisão estrutural de gênero que tendem a ter impacto direto na segurança alimentar. Um caminho viável para um sistema alimentar sustentável e verdadeiramente popular é o fortalecimento da autonomia econômica das mulheres.

*Amanda Alves da Silva é graduanda em relações internacionais, na Universidade Estadual da Paraiba (UEPB), membra do Saciar LAB e da Cozinha Solidária Saciar.

 **Alexandre Cesar Cunha é docente da UEPB, coordenador do Saciar e do Saciar LAB e membro do FomeRI (UFPB).

***Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

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Editado por: Carolina Ferreira

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