Por Mariana Brito da Fonseca* e Marina Bolfarine Caixeta**
O que é a geopolítica global alimentar que influencia o preço dos alimentos em vários países? Como é possível evitar o aumento do preço dos alimentos em um cenário de conflito e de guerra no mundo? É sobre esse ponto que o novo relatório do IPES-Food se debruça. Trata-se de um documento elaborado em um momento histórico crítico para reavaliar a governança global do abastecimento alimentar, oferecendo um roteiro prático para que governos enfrentem a volatilidade dos preços e a fome, propondo a transição para sistemas mais locais, ecológicos e autossuficientes.
A publicação foi liderada pela especialista Jennifer Clapp, membro do painel do IPES-Food, professora, presidente de pesquisa em Segurança Alimentar Global e Sustentabilidade na Universidade de Waterloo (Canadá) e membro do Comitê Consultivo Científico do Centro de Coordenação de Sistemas Alimentares da ONU. O documento foi validado por um painel de cerca de 25 especialistas de renome mundial, incluindo Elisabetta Recine, presidenta do Conselho Nacional de Segurança Alimentar e Nutricional (Consea).
Identificamos que todas as respostas para essas questões apontam para a importância do Estado como garantidor do interesse público. Portanto, buscamos explicar e dar exemplos de como o Brasil, no momento atual, tem contribuído para a construção de alternativas que fortalecem práticas sustentáveis, inclusivas e solidárias, voltadas à transformação desses sistemas alimentares.
O poder das corporações sobre os sistemas agroalimentares
O preço dos alimentos é uma questão central para garantir a dignidade humana, além de ser uma questão estratégica para assegurar o direito humano à alimentação adequada pelo mundo. Com a mercantilização dos alimentos, ou seja, a transformação da alimentação humana em produto, o alimento passa a depender de uma cadeia global de produção e de valor. Com isso, a volatilidade dos preços tem sido um desafio constante para as sociedades e para os Estados nacionais, que são os principais garantidores da segurança alimentar e nutricional por meio de suas políticas públicas (no nível doméstico) e, também, por meio de sua atuação na governança mundial de alimentos¹.
Atualmente, o controle de insumos para a produção de alimentos está nas mãos de poucas e poderosas empresas que dominam, principalmente, o mercado de sementes e organismos geneticamente modificados (OGM) e agrotóxicos. Essa situação é resultante de políticas que, ao longo da história, permitiram que as empresas agissem por meio de megafusões, possibilitando um modelo hegemônico de exportação que é orientado apenas pelo lucro e que separa elementos que deveriam estar integrados quando falamos de alimentação — como produção, consumo, meio ambiente, saúde, território e cultura.
A dependência dos Estados e sociedades em relação a esses insumos gera custos sociais, ambientais e climáticos que são ainda mais severos nos povos e países do Sul global, onde há um maior contingente de pessoas com baixo poder aquisitivo e onde a alimentação é mais baseada em importação. Em momentos de crise ou guerra, portanto, os preços de OGM e agrotóxicos, por exemplo, aumentam, e as grandes corporações aproveitam para ampliar seus lucros. Como consequência, o valor dos alimentos produzidos com tais insumos dispara, agravando ainda mais a vulnerabilidade das populações.
Novas práticas como resposta às crises globais
A posição assumida pelo Painel de Especialistas do IPES-Food se resume ao necessário compromisso dos governos de estabilizar os preços, proteger o acesso de sua população aos alimentos e reduzir sua vulnerabilidade aos eventos externos que saem do seu controle.
A questão da estabilização dos preços dos alimentos, de fato, se torna uma questão premente diante das guerras e conflitos mais recentes do cenário internacional. Tanto a guerra na Ucrânia em 2022 como a guerra no Irã em 2026 mostram o aumento do preço dos alimentos no mundo, conforme o Índice de Preço dos Alimentos da FAO.
Os efeitos das guerras escancaram a necessidade de reduzir a dependência de insumos químicos e fortalecer práticas mais ecológicas e inclusivas. Só assim será possível construir um sistema agroalimentar que assegure soberania, equidade e resiliência.
Alguns bons exemplos do Brasil
Conforme ressalta a Shalmali Guttal (palestrante do IPES-Food e analista sênior da Focus on the Global South), os movimentos sociais, camponeses e as iniciativas da agroecologia têm demonstrado caminhos concretos para a construção da autossuficiência. Complementando o posicionamento de Guttal, trazemos exemplos do Brasil que buscam ampliar esse posicionamento, mostrando como as experiências locais podem servir de referência global.
O Programa Sementes do Semiárido, coordenado pela Articulação Semiárido Brasileiro (ASA), fortalece a prática de estocar sementes crioulas, por meio do manejo da agrobiodiversidade. Nas comunidades, os(as) agricultores(as) selecionam as variedades mais adaptadas, que atendam às suas necessidades, e as guardam para os próximos plantios. Eles e elas são guardiões de uma verdadeira riqueza alimentar, capaz de assegurar a segurança e soberania alimentar e nutricional dos povos do Semiárido. O que mostra a importância do cultivo local associado às distintas culturas alimentares e práticas territoriais, uma questão da alimentação adequada no direito humano à alimentação.
Essa experiência demonstra que, no lugar de buscar soluções universais para atender às exigências do mercado, a agroecologia, no nível local, promove ambientes de inovação para o desenvolvimento de estratégias adaptadas aos contextos específicos, como banco de sementes e o uso de bioinsumos — que já fazem parte do conhecimento e das práticas tradicionais da agricultura familiar. Essa perspectiva promove autonomia e resiliência, respeitando os ciclos da natureza e fortalecendo os sistemas agroalimentares. Aqui ressaltamos a questão da sustentabilidade dos sistemas alimentares.
Nesse sentido, o Programa de Aquisição de Alimentos (PAA) se mostra uma política pública de sucesso que tem sido uma inspiração para outros países. A política pública brasileira garante mercado e sustentação de preços mínimos por meio de compras públicas governamentais sem licitação, muitas vezes associadas a outros programas como a alimentação escolar, restaurantes populares e a manutenção e garantia de estoques nacionais.
Especialmente nas modalidades Apoio à Formação de Estoques e Aquisição de Sementes, essas compras podem fortalecer iniciativas da agroecologia e, ao mesmo tempo, contribuir para a estabilidade dos preços dos alimentos no mercado doméstico. Há um controle de preços garantido pela atuação do Estado, algo que tem sido mundialmente conhecido como autossuficiência.
Essas experiências dialogam diretamente com o compromisso necessário dos governos em estabilizar preços, proteger o acesso da população aos alimentos e reduzir a vulnerabilidade diante de eventos externos fora de seu controle.
A pesquisa incentivada pelo Estado também é uma dimensão fundamental na redução da dependência dos mercados externos de insumos agrícolas. Sobre isso, destaca-se o trabalho desenvolvido na Embrapa, especialmente na área de insumos biológicos (bioinsumos) na agricultura. A pesquisa liderada por Mariângela Hungria, por exemplo, contribui para a fixação biológica de nitrogênio e o desenvolvimento de inoculantes microbianos para soja, feijão, milho e trigo, reduzindo a dependência de agrotóxicos provenientes de grandes corporações.
O uso de bioinsumos, ao fortalecer a independência dos(as) agricultores(as), consequentemente reduz a influência das flutuações externas sobre os preços finais dos alimentos. Esse movimento amplia a soberania alimentar e contribui para diminuir a insegurança alimentar e nutricional, consolidando sistemas agroalimentares mais resilientes, equitativos e ecológicos.
Conclusões: a relevância do Estado na geopolítica dos alimentos
Diante de todas essas experiências de sucesso no Brasil, e da identificação de outras boas práticas nos países enfocados no relatório — Índia, países da África ocidental, Canadá e Noruega —, chama-se atenção para a importância de se valorizar os sistemas alimentares locais como medida estratégica dos países no cenário de aumento dos preços dos alimentos provocado pelos conflitos geopolíticos globais.
Como afirma Shalmali Guttal, o alimento não pode ser utilizado como arma em nenhuma circunstância — seja para negar acesso ou manipular sua distribuição.
De acordo com o relatório, defender a autossuficiência resiliente é uma medida necessária para enfrentar os vários desafios apresentados pelo momento atual com base nos princípios de solidariedade, equidade, diversidade e protagonismo dos grupos sociais. Um sistema alimentar resiliente significa ser resistente às instabilidades geopolíticas globais e, mesmo, às ambientais que são esperadas com o aumento da temperatura terrestre e seu impacto no cultivo de alimentos.
Somente assim, espera-se reduzir as dependências globais sistêmicas dos países e das populações para se alimentar. Por isso, é preciso fortalecer a atuação dos governos na gestão dos mercados e fortalecer a pesquisa voltada para uma produção de alimentos adaptada a diversidades ecossistêmicas e populacionais, atenta aos limites e disponibilidades dos territórios. Outras respostas, segundo o relatório, seriam redução de impostos para bens essenciais, aumento de programas de proteção social, reservas globais de grãos, restrições à exportação de determinados alimentos e subsídios à produção agrícola para produção de alimentos importantes para atender à demanda doméstica.
Por fim, como afirma Shalmali Guttal, o alimento não pode ser utilizado como arma em nenhuma circunstância — seja para negar acesso ou manipular sua distribuição. Da mesma forma, políticas econômicas e financeiras não devem se transformar em instrumentos de coerção. Se tais práticas persistirem, o mundo continuará preso à precariedade e à falta de humanidade. Por isso, é essencial que as políticas públicas e internacionais sejam articuladas com a sociedade civil e elaboradas para proteger a vida, reafirmando a segurança alimentar e nutricional como um direito fundamental.
Nota
¹ O Comitê de Segurança Alimentar Mundial, por exemplo, é uma plataforma multilateral da FAO que reúne distintos atores na definição de consensos quanto às prioridades e iniciativas globais. No entanto, a Organização Mundial do Comércio (OMC) também assume um papel fundamental nessa governança. Por isso, a FAO e a OMC têm sido criticadas diante da inércia que se observa quanto à garantia da segurança alimentar e nutricional no mundo. Essa postura é especialmente problemática para países mais vulneráveis ao aumento dos preços dos alimentos. Segundo Shalmali Guttal, pesquisadora-membro do painel de especialistas do IPES-Food, não existe justiça nos acordos atuais. As regras da OMC preocupam justamente porque não garantem soluções estruturais: no lugar de ajudar os países a superar essas crises, a Organização acaba permitindo que as pessoas sobrevivam de forma precária no geral.
*Mariana Brito da Fonseca é cientista política pela Universidade Federal de Pernambuco (UFPE), mestre em Democracia e Instituições (PPGCP-UFPE) e colaboradora do FomeRI – Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da Universidade Federal da Paraíba (UFPB).
**Marina Bolfarine Caixeta é professora do curso de relações internacionais da Universidade Federal de Goiás (UFG) e colaboradora do FomeRI – Grupo de Pesquisa sobre Fome e Relações Internacionais da UFPB.
***Este texto foi construído com base no debate realizado em painel de lançamento do relatório “A nova geopolítica dos alimentos: navegando por políticas de autossuficiência resiliente”, realizado em 13 de maio de 2026, e disponível na íntegra clicando aqui.
****A opinião contida neste texto não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

