Gildazio Moura

Fisioterapeuta, sanitarista, professor universitário e mestrando em Saúde Coletiva na UFRN.

Sol, veneno e câncer: o agronegócio que adoece quem produz nossa comida em Pernambuco

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Agricultor pulveriza plantação com herbicida
Agricultor pulveriza plantação com herbicida | Crédito: Pixabay/Reprodução

Em Pernambuco, quem colhe o alimento que chega à nossa mesa é quem mais sofre com o câncer causado pelo trabalho.

Dados oficiais do Instituto Nacional de Câncer (INCA) revelam que a exposição a agentes cancerígenos no trabalho atinge, de forma brutal, trabalhadores do campo, da construção e de setores essenciais, escancarando desigualdades e o custo humano do modelo atual.

Enquanto o Brasil se consolida como um dos maiores celeiros do mundo, um relatório oficial do INCA pinta um retrato brutal do custo humano por trás dessa produção. Em Pernambuco, quem colhe o alimento que chega à nossa mesa é quem mais sofre com o câncer causado pelo trabalho. A exposição ocupacional ao sol, a agrotóxicos e a poeiras cancerígenas atinge de forma massiva e desigual trabalhadores do campo, da construção civil e de setores essenciais. Os dados, extraídos da Pesquisa Nacional de Saúde (2019) e publicados em 2026, não deixam dúvidas: o adoecimento não é acaso, é uma escolha política de um modelo que prioriza o lucro acima da vida.

NÚMEROS QUE DENUNCIAM:

86,9% dos trabalhadores da agropecuária, pesca e florestas em Pernambuco estão expostos à radiação solar, causa comprovada de câncer de pele.

61,5% dos trabalhadores rurais enfrentam essa exposição, contra muito menos nos centros urbanos.

A exposição a poeiras minerais (ligadas ao câncer de pulmão) atinge 18,3% dos jovens trabalhadores (18 a 29 anos), mostrando um risco que começa cedo.

Trabalhadores informais têm quase o dobro da exposição ao sol (31,6%) comparados aos formais (16,6%).

Os números do INCA escancaram uma verdade que a Saúde do Trabalhador já anuncia há décadas: o câncer ocupacional tem cor, classe e CEP. A radiação solar ultravioleta, classificada como carcinogênica, atinge 28,6% dos trabalhadores pernambucanos. 

Porém, ao desagregar os dados, vemos quem paga a conta: são os trabalhadores pretos e pardos, com baixa escolaridade, renda inferior a um salário mínimo e vínculos de trabalho precários que estão na linha de frente dessa exposição. No topo da lista, com índices que beiram a totalidade, estão os trabalhadores elementares da agropecuária e da pesca (92,3% expostos ao sol) e os agricultores e trabalhadores qualificados do setor (86,7%).

O cenário não melhora quando olhamos para os químicos. A exposição a substâncias como agrotóxicos – fortemente associados a leucemias, linfomas e câncer de fígado – atinge 11,7% dos trabalhadores do estado, com pico de 24,4% no setor agrícola. Isso significa que quase 100 mil trabalhadores da agricultura e pecuária pernambucanas manuseiam esses venenos. O modelo do agronegócio, dependente de pacotes de insumos químicos e de longas jornadas sob o sol, se revela, nas planilhas de saúde pública, como um modelo gerador de doença.

Um dos dados mais alarmantes do relatório é a alta prevalência de exposição a poeiras minerais entre os jovens de 18 a 29 anos (18,3%). Esse risco precoce, comum na construção civil e em atividades ligadas ao transporte e à agroindústria, é uma bomba-relógio para o futuro. O câncer de pulmão ou as doenças respiratórias crônicas que podem surgir anos depois têm sua semente plantada no início da vida laboral, muitas vezes em empregos instáveis e sem proteção.

Diante desse cenário, a agroecologia defendida pelo Movimento dos Trabalhadores Rurais Sem Terra (MST) deixa de ser uma alternativa produtiva entre outras. Ela se apresenta como uma estratégia urgente de saúde pública e coletiva. Produzir alimentos sem venenos, respeitando os ciclos da natureza e a saúde de quem trabalha, é uma forma direta de prevenção primária do câncer. Cada hectare de terra livre de agrotóxicos, cada família assentada produzindo comida saudável, é um território de vida protegido contra esses agentes carcinogênicos.

A defesa da reforma agrária popular e da soberania alimentar é, portanto, também uma bandeira da Saúde do Trabalhador. Enquanto o atual modelo seguir intoxicando solos e corpos, a luta por terra, trabalho digno e saúde continuará sendo a mesma trincheira. Os dados do INCA não são apenas estatísticas; são a prova documental de um genocídio silencioso e permitido. Exigir políticas públicas de vigilância, fiscalização e a transição para um modelo agroecológico não é um posicionamento ideológico, mas um imperativo ético para salvaguardar a vida de quem nos alimenta.


Produzir alimento não pode ser sinônimo de adoecer. A ciência já provou a relação. A estatística já dimensionou o problema. Agora, é tempo de ação política e de coragem para mudar. A agroecologia é o caminho para uma produção de alimentos que cure a terra e proteja quem nela trabalha. Defender essa transição é defender o direito fundamental à saúde e à vida.

Editado por: Rostand Tiago

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