Uma política de segurança que mata pobres — policial, morador e soldado do tráfico — pode ser tudo, menos um sucesso. Esta é a política de segurança pública no Rio de Janeiro nas últimas décadas, que se mantém inalterada e, o pior de tudo, mantêm o funcionamento do crime organizado em suas várias esferas.
O cidadão mais atento já percebeu que o crime organizado não está só na favela. Recentemente, entendeu que ele também está na Faria Lima, rua dos banqueiros de São Paulo, e nos condomínios da Barra da Tijuca, no Rio. Aliás, circulou na internet uma informação que trazia uma comparativo importante, a partir de uma reportagem publicada pelo G1, em 2019, para entendermos o atual cenário: as maiores apreensões de fuzis não foram realizadas nas favelas do Rio, mas em uma casa no Méier (117 fuzis), de um amigo do miliciano Ronnie Lessa, condenado pela morte de Marielle Franco, e no Galeão (60 fuzis), vindos dos Estados Unidos.
É curioso notar também que o que se apresenta como uma guerra contra às drogas, nos últimos anos, justifica qualquer tipo de atrocidade mal planejada no Brasil — ou até alguma intervenção externa dos Estados Unidos. O que as narrativas não contam é que se trata de uma decisão política. Até o século 18, o café era uma droga ilícita na Rússia. A mesma classe de drogas usada para a anestesia também é reconhecida na heroína, os opioides. Ou seja, a droga tanto pode salvar como matar, pois o que mata não é a droga, mas a sua dose e a forma de utilização.
Londres, há algumas décadas, era a capital com maior consumo de drogas. Em Amsterdã, elas são legalizadas e seu uso é permitido em vários cafés, fazendo sucesso entre muitos turistas, moralistas ou não. Nas duas cidades, os índices de homicídios são baixíssimos. Será que na Europa as “drogas” não matam? Ou o problema são os lugares em que estão matando em nome das drogas?
Há pouco tempo, fora das favelas, os tiros foram evitados em um caso de grande apreensão de drogas. A apreensão de drogas no avião presidencial, na gestão Bolsonaro, foi maior do que a apreensão na operação gigantesca realizada no Complexo do Alemão e na Penha. Ninguém foi alvejado.
No Brasil, está claro: o tráfico é uma justificativa para o extermínio e o encarceramento de uma parcela da população, independentemente da droga. O crime organizado continuará intacto depois de mais de 120 seres humanos executados nas favelas cariocas. Isso porque ele não está, simplesmente, na favela. O crime organizado está se encontrando com o governador Cláudio Castro nos corredores das instituições políticas do Rio – a exemplo do deputado TH Joias, amigo e da base política do governador, preso por ser um dos fornecedores de armas de ninguém menos que o Comando Vermelho (CV).
Enganam-se aqueles que pensam que o núcleo dirigente do CV foi destruído. Ele continua intocado e protegido das balas, que vão atingir aqueles que não possuem outra opção, a não ser entrar em um conflito sem futuro — como o soldado do tráfico, o morador da comunidade, o policial de baixa patente. Todos descartáveis para os dirigentes da política de segurança pública do Rio.
O Estado do Rio de Janeiro, tendo o governo Cláudio Castro à frente, potencializa a insegurança pública local ao limite, permitindo a paralisação da cidade em razão de uma operação desastrosa. Desastrosa porque nenhuma operação com a morte de todos os setores envolvidos pode ser considerada um sucesso. Desastrosa porque nenhuma operação com alta letalidade e uso de execuções sumárias por parte do Estado pode ser considerada um sucesso.
Nenhuma medida política efetiva foi tomada para resolver o problema das drogas e da violência no Rio. O governador e os deputados foram contra a PEC da Segurança Pública proposta pelo governo federal. Não priorizaram seu debate e nem sua tramitação. A “guerra às drogas” é um fracasso e engodo em todo o mundo. Passou da hora de se debater, na sociedade, essa realidade enquanto algo presente, que deve ser regulado de forma séria e que deve perpassar por política pública robusta. Se nada disso for feito, a política pública da extrema direita, pronta há mais de 40 anos, seguirá seu curso: o empilhamento de corpos pobres e negros para manter a ilusão de que algo está sendo feito — não para acabar com o crime, mas para manter-se no poder.

