Gleide Andrade

Gleide Andrade é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do PT

A trama golpista não terminou em 8 de janeiro 

No audio source provided.
olpistas invadem prédios públicos na praça dos Três Poderes.
olpistas invadem prédios públicos na praça dos Três Poderes. | Crédito: Joedson Alves/Agencia Brasil

Trata-se de uma disputa entre democracia e autoritarismo

O 8 de janeiro de 2023 entrou para a história como a mais grave tentativa de ruptura democrática desde o fim da ditadura militar. Não foi um episódio isolado, tampouco uma explosão espontânea de descontentamento. Foi o resultado direto de uma estratégia golpista liderada por Jair Bolsonaro e sustentada por sua base política, que se recusou a aceitar o resultado das eleições e a soberania do voto popular.

A invasão e a depredação do Palácio do Planalto, do Congresso Nacional e do Supremo Tribunal Federal tiveram um objetivo claro: criar o caos institucional, desacreditar a democracia e abrir caminho para uma intervenção autoritária. Nada daquilo teria sido possível sem anos de ataques sistemáticos às instituições, sem a propagação deliberada de mentiras sobre o sistema eleitoral e sem o estímulo permanente à radicalização política promovido pelo bolsonarismo.

Bolsonaro não foi um espectador dos acontecimentos. Foi o principal responsável por orquestrar o ambiente político que desembocou no 8 de janeiro e foi condenado pela Justiça Eleitoral exatamente por atentar contra a democracia e o sistema eleitoral. Questionou reiteradamente as eleições sem apresentar provas, promoveu ataques sistemáticos ao Supremo Tribunal Federal, estimulou a deslegitimação das instituições e flertou abertamente com a ruptura constitucional. 

Após ser derrotado nas urnas, abandonou o país, enquanto seu entorno político e sua base radicalizada mantinham acampamentos golpistas e articulavam ações contra a ordem democrática. As decisões judiciais que o condenaram e o tornaram inelegível deixam claro que não se trata de opinião política, mas de responsabilidade objetiva. Tentar dissociá-lo dos atos golpistas é uma operação deliberada para apagar responsabilidades e reabilitar um projeto autoritário que segue em disputa no Brasil.

O que o 8 de janeiro representou foi um ataque direto à democracia, à Constituição e à soberania popular. Representou a tentativa de substituir o voto pela violência, a política pela força e a disputa democrática por uma lógica de imposição autoritária. Representou, também, o esgotamento do bolsonarismo enquanto projeto institucional: incapaz de vencer dentro das regras do jogo democrático, recorreu à ruptura.

A resposta das instituições foi decisiva para conter o golpe. A atuação do Supremo Tribunal Federal, das forças de segurança que cumpriram seu papel e da sociedade civil organizada impediu que a tentativa de ruptura avançasse. No entanto, conter o ataque não significa que o problema tenha sido superado. A trama golpista não terminou em 8 de janeiro. Ela persiste nas tentativas de relativizar os crimes cometidos, de propor anistias disfarçadas e de normalizar o discurso antidemocrático no Parlamento e no debate público.

O debate sobre leniência com os golpistas não é jurídico, é político. Trata-se de uma disputa entre democracia e autoritarismo. Não existe democracia sólida onde se perdoa quem tentou destruí-la. A ausência de responsabilização abre precedente para novas investidas e fragiliza a confiança nas instituições.

O período pós-trama golpista exige clareza e firmeza. O Brasil precisa fortalecer suas instituições, enfrentar a desinformação organizada, as redes de ódio, desmontar os esquemas de financiamento do extremismo e reafirmar o compromisso com a democracia e a soberania nacional. Também é fundamental avançar em uma agenda política que enfrente desigualdades e promova inclusão, impedindo que o ódio e o medo continuem sendo explorados como instrumentos de mobilização autoritária.

A tentativa de golpe foi derrotada, mas a ofensiva antidemocrática continua. O Brasil vive um período de reconstrução institucional que exige firmeza, memória e justiça. Não há soberania popular onde golpistas são tratados como vítimas. O futuro democrático do país depende de não recuar um centímetro diante do autoritarismo.

Gleide Andrade é secretária nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT).

Leia outros artigos de Gleide Andrade em sua coluna no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Elis Almeida

|

Newsletter