Gleide Andrade

Gleide Andrade é Secretária Nacional de Finanças e Planejamento do PT

Quase 50 mil mulheres violentadas em 2025: MG bate recorde e expõe crise no estado

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Mulheres cobram medidas contra a violência e denunciam o aumento do número de feminicídios | Crédito: Elineudo Meira (Chokito) / @fotografia.75

Não estamos diante de uma oscilação estatística

Minas Gerais encerrou 2025 com 48.846 casos de violência de gênero registrados em atendimentos no sistema de saúde. O número, por si só, já é devastador. Mas sua tradução no tempo revela a dimensão real da tragédia: foram 133 mulheres violentadas por dia, mais de cinco por hora, uma vítima a cada 11 minutos ao longo de todo o ano. É o maior índice desde o início da série histórica, em 2010, e o terceiro recorde anual consecutivo. Não estamos diante de uma oscilação estatística. Estamos diante de uma crise permanente.

Quando um fenômeno cresce de forma contínua por três anos seguidos e alcança o maior patamar em 15 anos, ele deixa de ser tratado como contingência e passa a exigir diagnóstico estrutural. Minas Gerais não enfrenta episódios domésticos dispersos. Enfrenta uma engrenagem social de larga escala, reiterada e brutal, que segue produzindo medo, trauma e morte diante de respostas públicas ainda insuficientes.

O que os dados revelam

Os registros analisados pela rádio Itatiaia têm origem no Sistema de Informação de Agravos de Notificação (Sinan), base alimentada pelas unidades de saúde. Isso significa que os números não retratam apenas boletins de ocorrência, mas mulheres que chegaram ao sistema de saúde após sofrer agressões físicas, sexuais, psicológicas ou outras formas de violência. Em termos técnicos, trata-se de um indicador robusto, porque capta justamente parte da violência que muitas vezes não chega às delegacias.

Esse ponto é decisivo. A literatura especializada mostra que a subnotificação policial é uma das maiores barreiras para dimensionar a violência doméstica. Dependência econômica, medo de represálias, vínculos familiares, vergonha, descrédito institucional e pressão social reduzem drasticamente a chance de denúncia formal. Quando os dados da saúde crescem, eles revelam não apenas o que apareceu, mas parte de um universo historicamente silenciado.

É correto afirmar que parte da elevação decorre do amadurecimento do sistema de notificação e da maior preparação dos profissionais para identificar e registrar casos. Isso é avanço institucional. A informação salva vidas, orienta políticas públicas e rompe o apagamento histórico dessas violências. Mas seria conveniente demais atribuir tudo ao aperfeiçoamento técnico. O terceiro recorde consecutivo evidencia algo mais grave: o sistema passou a enxergar melhor sem que a realidade tenha deixado de ferir.

Há, portanto, dois movimentos simultâneos: mais capacidade estatal de medir e incapacidade persistente de prevenir. Essa contradição resume o momento atual. O Brasil aprendeu a contar suas vítimas, mas ainda não conseguiu protegê-las na escala exigida pelos fatos.

Violência não nasce do acaso

Os dados também revelam padrões conhecidos: maior incidência entre mulheres pretas e pardas e predominância das ocorrências dentro da própria residência. Nada disso é aleatório. A violência de gênero tem recorte racial e território definido, incidindo com mais força sobre quem já enfrenta desigualdade e onde o agressor dispõe de maior controle.

Também por isso a resposta não pode se limitar à esfera penal. Violência de gênero é produzida e reproduzida por desigualdade salarial, precarização do trabalho feminino, ausência de creches, déficit habitacional, baixa cobertura de saúde mental, redes de acolhimento frágeis no interior e pela escalada dos discursos de ódio digital que normalizam a misoginia, incentivam humilhações públicas e ampliam a perseguição contra mulheres em ambientes virtuais.

O problema se agrava quando os serviços públicos operam de forma fragmentada. Saúde identifica a violência, assistência social atende parcialmente, segurança pública reage tardiamente e o sistema de Justiça frequentemente atua sob sobrecarga. Sem integração entre essas frentes e sem coordenação efetiva entre União, estado e municípios, a mulher percorre instituições enquanto o agressor permanece no centro de sua rotina. O caminho burocrático passa a disputar espaço com a urgência da sobrevivência.

Lei sem estrutura

É preciso reconhecer os avanços históricos representados pela Lei Maria da Penha, pela Lei do Feminicídio, pela tipificação da violência psicológica contra a mulher, pela Lei Mariana Ferrer, pelo programa Sinal Vermelho, pelo Pacto Nacional de Prevenção aos Feminicídios e por instrumentos recentes de enfrentamento à violência política de gênero e à misoginia.

O país rompeu, ao menos no plano normativo, com a velha lógica de que violência doméstica seria assunto privado. Mas norma jurídica sem capacidade operacional não altera a realidade na velocidade necessária.

O Brasil avançou ao transformar a violência doméstica em tema público e ao criar marcos legais importantes. Mas lei sem estrutura é promessa vazia. Campanha sem orçamento é peça publicitária. Indignação episódica sem política permanente produz apenas o próximo recorde.

A responsabilidade do governo

Se Minas Gerais registra uma mulher violentada a cada 11 minutos, o escândalo não está apenas no número. Está no fato de que o Estado conhece, mede e registra a tragédia, mas não responde à altura de sua gravidade. Sob o governo Romeu Zema (Novo), os recordes se acumulam sem que haja a prioridade política e a estrutura pública compatíveis com a dimensão da crise. Nenhum governo pode tratar a barbárie como rotina — e nenhum estado que falha em proteger suas mulheres pode reivindicar para si o nome de democracia plena.

Gleide Andrade é secretária nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT).

Leia outros artigos de Gleide Andrade em sua coluna no Brasil de Fato.

Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Ana Carolina Vasconcelos

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