A rejeição ao parlamento revela uma crise profunda de representação democrática. A nova pesquisa Futura/Apex divulgada nesta semana escancarou um dado politicamente devastador para Brasília: o Congresso Nacional é hoje a instituição mais rejeitada entre os poderes da República. São 60,1% de desaprovação contra apenas 26,1% de aprovação. O índice supera inclusive a rejeição ao Supremo Tribunal Federal, que aparece com 54,3%.
Não se trata de uma oscilação conjuntural de popularidade. O que os números revelam é algo mais profundo: o colapso progressivo da legitimidade social do parlamento brasileiro.
A população passou a enxergar o Congresso não como espaço de representação popular, mas como um centro de autopreservação das elites políticas, sequestrado por interesses econômicos, blindado por privilégios institucionais e cada vez mais distante das urgências reais do país.
O dado mais grave talvez seja este: o Congresso acumula poder numa velocidade diretamente proporcional à perda de confiança popular.
Nunca o parlamento controlou tantos recursos, tantas emendas, tanta capacidade de pressão institucional. E nunca esteve tão desacreditado. Democracias entram em zona de risco exatamente quando isso acontece.
Um parlamento para dentro e um país para fora
A crise do Congresso não nasceu da retórica política. Ela nasceu da experiência cotidiana da população brasileira.
O país que enfrenta inflação alimentar, precarização do trabalho, colapso dos serviços públicos e endividamento crescente assiste diariamente a um parlamento concentrado em disputas orçamentárias, guerras ideológicas artificiais e negociações internas de poder.
O orçamento secreto talvez tenha sido a expressão mais simbólica desse processo. A apropriação opaca de bilhões de reais em recursos públicos cristalizou a percepção social de que o Congresso opera frequentemente como estrutura paralela de distribuição de poder político e eleitoral.
Ao mesmo tempo, pautas diretamente ligadas à vida concreta da população permanecem travadas.
A regulamentação do trabalho por aplicativos enfrenta forte resistência empresarial enquanto milhões de trabalhadores seguem sem proteção previdenciária e direitos básicos. A redução da jornada e o debate sobre o fim da escala 6×1 são bloqueados por setores econômicos que transformam exaustão da classe trabalhadora em modelo de lucro.
No campo tributário, propostas de justiça fiscal seguem limitadas pela pressão do mercado financeiro e de grupos econômicos organizados. Direitos humanos e pautas sociais tornam-se alvo permanente da radicalização conservadora.
O resultado é um parlamento percebido como espaço de bloqueio social. Enquanto demandas populares permanecem empacadas, estruturas de poder político seguem funcionando com eficiência impressionante.
O Brasil não está sozinho nessa crise
O desgaste das instituições parlamentares não é exclusividade brasileira.
Nos Estados Unidos, o Congresso atravessou anos de rejeição recorde após crises econômicas, paralisia legislativa e ampliação da influência corporativa sobre a política. Na França, a desconexão entre elites políticas e população produziu explosões de revolta social como os protestos dos Coletes Amarelos. Na Itália, corrupção sistêmica e fragmentação parlamentar alimentaram décadas de antipolítica e ascensão da extrema-direita.
Em comum, esses casos revelam um padrão estudado pela ciência política contemporânea: quando parlamentos deixam de produzir identificação popular, cresce o risco de radicalização autoritária.
Mas existem experiências opostas.
Países como Noruega, Dinamarca e Finlândia mantêm elevados índices de confiança parlamentar porque conseguiram construir instituições mais transparentes, socialmente representativas e fortemente vinculadas ao bem-estar coletivo.
Parlamentos que protegem direitos preservam a legitimidade. Parlamentos capturados por privilégios produzem rejeição social. O Brasil aproxima-se perigosamente do segundo modelo.
O erro da antipolítica
Há, no entanto, um risco importante nesse cenário: transformar a rejeição ao Congresso em simples discurso antipolítica. O problema central não é a existência do parlamento. É sua captura.
Foi a ocupação sistemática das estruturas legislativas por oligarquias regionais, interesses empresariais e setores ultraconservadores que moldou o Congresso atual. Enquanto parte do campo democrático concentrou sua energia apenas nas disputas presidenciais, a direita ocupou o Legislativo com método, organização e presença territorial permanente.
O resultado foi um Congresso progressivamente mais conservador, mais fisiológico e mais distante das demandas populares. Por isso, a saída não está na destruição da política institucional. Está na reconstrução radical da representação democrática.
O Brasil quer um Congresso ao lado do povo
A ideia de renovação parlamentar deixou de ser slogan eleitoral, tornou-se necessidade democrática.
O que a sociedade brasileira começa a rejeitar não é apenas determinados parlamentares. É um modelo de Congresso incapaz de representar o país real.
O Brasil não precisa apenas de rostos novos ocupando cadeiras antigas. Precisa romper a lógica que transformou mandatos públicos em patrimônio privado de grupos políticos e econômicos.
Renovar o Congresso significa ampliar a presença de mulheres, trabalhadores, juventudes periféricas, lideranças populares e representantes comprometidos com justiça social, direitos trabalhistas e desenvolvimento nacional.
Significa construir um Parlamento que enfrente a desigualdade em vez de administrá-la. Que proteja trabalhadores em vez de servir ao mercado. Que legisle para a maioria — e não para minorias econômicas organizadas.
Porque o povo brasileiro já começou a perceber algo essencial: um Congresso distante da população deixa de ser apenas um problema político. Torna-se um obstáculo ao próprio país.
O recado das ruas já foi dado. Em 2026, a disputa não será apenas por cadeiras em Brasília. Será pela reconstrução de um Congresso finalmente aliado ao povo.
Gleide Andrade é secretária nacional de Finanças e Planejamento do Partido dos Trabalhadores (PT).
—
Leia outros artigos de Gleide Andrade em sua coluna no Brasil de Fato.
—
Este é um artigo de opinião. A visão da autora não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.

