Querida gente leitora do Brasil de Fato Pernambuco, vivo na cidade de Petrolina, no Vale do Rio São Francisco. Aqui testemunho diariamente os milagres do Velho Chico, que reúne Pernambuco e Bahia e faz a caatinga florescer em pleno semiárido, apesar da permanente ameaça de desertificação imposta pelos modelos predatórios de urbanização e agronegócio.
É desse chão de beleza machucada e resistente, dessa realidade socioambiental tão linda quanto complexa, que nasce mais uma de nossas conversas sobre as relações entre religião, política e cultura. Sob impacto do novembro negro, a conversa se inspira na memória profética de Zumbi dos Palmares e celebra as muitas Consciências Negras que fecunda pelo país.
Dados de “raça e cor” do Censo 2022, do Instituto Brasileiro de Geografia e Estatística (IBGE), indicam que em Petrolina, terceira cidade mais populosa de Pernambuco, cerca de sete em cada dez habitantes se autodeclaram pessoas pretas ou pardas – negras, portanto.
Em termos estaduais, mais da metade da população pernambucana se declara parda e cerca de 10% preta, compondo um quadro em que a maioria é negra. Várias cidades sertanejas, como Santa Maria da Boa Vista, Orocó e Verdejante, figuram entre as maiores proporções de população negra do estado, com índices acima de 80%.
Como se vê, o coração sociocultural de nossos Sertões Pernambucanos bate num compasso negro-ameríndio muito mais vibrante do que o racismo das elites econômicas regionais consegue admitir. Esse coração pulsa na espiritualidade e na religiosidade do povo, atravessando confissões, igrejas, centros, terreiros, festas populares e romarias. Molda nosso jeito de falar do (e com) o Sagrado, de cantar, dançar, chorar os mortos e celebrar a vida. E condiciona o modo como aqui ganham carne e sangue as lutas contra o racismo religioso e socioambiental.
Duas experiências vividas nas últimas semanas fortaleceram em mim a convicção de que precisamos divulgar amplamente o que já sabemos sobre as raízes afro-asiáticas do cristianismo. A primeira foi o Abraço ao Velho Chico, realizado à beira-rio no último dia quatro de outubro, festa de São Francisco de Assis. A segunda, a sessão solene em alusão ao Dia da Consciência Negra, em 18 de novembro, na Câmara de Vereadores de Petrolina, sessão presidida pelo vereador Prof. Gilmar Santos (PT).
Em ambas as ocasiões, fez-se presente a força reconciliadora e restauradora do fogo sagrado misteriosamente aceso nos encontros fraternos entre diferentes tradições de fé. Reunimo-nos – indígenas, quilombolas, umbandistas, candomblecistas, espíritas, cristãs de várias denominações e pessoas sem religião (mas com fé no futuro!) – para assumir publicamente a defesa das tradições ancestrais do povo e, em seu lastro, de todas as formas de vida no planeta.
No rosto de todas transparecia a consciência de que essa é, ao mesmo tempo, uma tarefa espiritual, religiosa e política: ou nos comprometemos com ela ou as filhas e os filhos de nossa e das demais espécies não terão futuro. Na condição de sacerdote cristão, reconheci, nas experiências do Sagrado partilhadas ali, um mesmo mover renovador da Divina Ruah, soprando por entre rezas, cantos, tambores e palavras de denúncia. A cada novo encontro com essas irmãs e irmãos de outras fés, aprofunda-se em mim a fé no Cristo que se revela universalmente nos corpos oprimidos em luta.
É do chão dessas experiências que proponho: o cristianismo, quando visto com lentes descolonizadas, revela-se uma religião de matriz afro-asiática.
E isso não é apenas metáfora militante, tem densidade histórica, bíblico-arqueológica e teológica. Desde o Primeiro Testamento, a Bíblia é atravessada por geografias e povos afro-asiáticos: Cusi, Egito, Etiópia, Líbia, Sabá, Canaã, Babilônia, Filístia, Tiro, Assíria, dentre outras. A história do chamado Pai da Fé, Abraão, desenha o arco afro-asiático da revelação bíblica: sai de Ur dos Caldeus, na antiga Mesopotâmia, passa por Harã, na região hoje entre Síria e Turquia, desce ao Egito e peregrina por Canaã.
Mas são várias as figuras veterotestamentárias cujas vidas nos lembram que as fronteiras entre Israel e os povos africanos e asiáticos nunca foram muros estanques, a exemplo, dentre outras, de Agar, mulher egípcia escravizada acolhida por Abraão; Jetro, sábio sacerdote de Midiã e pai de Zípora, esposa de Moisés; e o profeta Sofonias, descendente cusita. Em diversos textos, essas nações aparecem chamadas pelo Divino como “meu povo”, “obra de minhas mãos”, “minha herança”, sinal de que a história da salvação messiânica jamais foi monopólio europeu.
No Segundo Testamento, essa matriz afro-asiática está ainda mais evidente. Toda a ambientação dos Evangelhos e Atos está na Palestina, Síria, Egito, Arábia, Chipre, Ásia Menor, não em Roma ou na Europa. O próprio Jesus, que viveu sua primeira infância como refugiado no Egito, território africano, cresceu na “Galileia das nações” (Mateus 4:15), região de encruzilhada entre povos semitas e mediterrâneos, e carregava na pele e na cultura essa mistura.
Sua árvore genealógica passa por mulheres de povos afro-asiáticos: Tamar, cananeia; Raab, mulher de Jericó; Rute, moabita; e a “mulher de Urias”, ligada a um heteu, dentre outras. O Messias Nazareno emerge, portanto, numa linhagem tecida por corpos de fronteira, marcados por diversidade de línguas, cores, culturas e religiões.
Na hora extrema da cruz, foi um africano de Cirene, Simão, quem foi chamado a carregar o madeiro (Marcos 15:21), num dramático sinal da participação de corpos africanos no coração do mistério cristão. Em Pentecostes, o vento da Divina Ruah reúne uma assembleia afro-asiática, dando nascimento a uma fé, desde sempre, diversa e intercultural: “partos, medos, elamitas, habitantes da Mesopotâmia, Judéia, Capadócia, Ponto, Ásia, Frígia, Panfília, Egito e regiões da Líbia próximas à Cirene, forasteiros romanos, cretenses e árabes” (Atos 2:9-11).
Uma das primeiras pessoas a ser batizada como cristão é um alto funcionário etíope, catequizado por Filipe no caminho de Gaza (Atos 8:26-39). Aliás, seguidoras de Jesus são pela primeira vez nomeadas como “pessoas cristãs” na cidade de Antioquia, hoje na fronteira entre Síria e Turquia. Ali, a comunidade cristã tinha entre sua liderança “Simeão, chamado Níger” (Atos 11:26; 13:1).
Se os textos bíblicos não apenas suportam, mas exigem que reconheçamos a matriz afro-asiática do cristianismo, a história de seus primeiros séculos, antes de seu sequestro pela branquitude colonial europeia (medieval e, sobretudo, moderna), torna ainda mais nítida sua ligação com a África. Afinal, o antigo reino de Axum, na região da atual Etiópia e Eritreia, adotou oficialmente o cristianismo no século IV, sob o rei Ezana, tornando-se um dos primeiros Estados cristãos do mundo.
Em Alexandria, no Egito, desenvolveu-se uma das mais importantes escolas teológicas da Igreja antiga, com figuras como Orígenes, teólogo nascido naquela cidade, que marcou de forma decisiva a leitura cristã da Bíblia. No mesmo período, a África romana viu surgir pensadores como Tertuliano e Cipriano, em Cartago, e Agostinho, bispo de Hipona. Todos eles africanos do norte, cujas obras moldaram a doutrina cristã sobre Trindade, graça, pecado e Igreja. Atanásio de Alexandria, outro africano, foi protagonista na defesa da fé de Niceia contra o arianismo e teve papel central na formulação do Credo que até hoje une igrejas católicas, ortodoxas, anglicanas e boa parte das protestantes ecumênicas.
Antes de se tornar religião imperial europeia, o cristianismo foi, portanto, um movimento afro-asiático de comunidades marginalizadas, espalhadas pela Palestina, Egito, Síria, Líbia e Etiópia. Afirmar, hoje, que a fé cristã tem matriz africana é apenas reconhecer essa história que o colonialismo europeu tentou apagar, trabalho sujo hoje realizado pelo neoliberalismo e sua expressão religiosa, o fundamentalismo. Resistamos e lutemos.
Nesse sentido, aprendi recentemente, com o biblista Edmilson Schinelo, que um dos textos mais antigos de toda a tradição bíblica é o cântico-dança de Miriã e outras mulheres ao som de tambores, em Êxodo 15. De fato, pesquisas exegéticas clássicas – como as de Frank Cross e David Freedman, Brian Russell, dentre outros – tratam o chamado “Cântico do Mar” como um dos estratos mais arcaicos da poesia hebraica preservada. Em outras palavras: uma das memórias fundantes da fé bíblica nos chega na forma de corpos femininos em roda, em torno de oferendas, celebrando em dança a libertação de um povo escravizado.
Se alguém, hoje, participa de um xirê de Candomblé e depois relê Êxodo 15 limpando seus óculos interpretativos da sujeira racista eurocentrada, percebe facilmente o parentesco profundo entre eles: roda conduzida por mulheres, percussão que organiza a assembleia, canto responsorial, corpo inteiro participando do louvor ao Sagrado que salva do mal e da morte.
Esse parentesco atravessa séculos, singra oceanos e reaparece, com diferentes expressões, nos movimentos e manifestações culturais de resistência à escravização na diáspora africana nas Américas: nas canções de trabalho e no pentecostalismo negro nos Estados Unidos; na capoeira, no samba e no Candomblé no Brasil; e também em experiências como a de Agostinho José Pereira, conhecido como Divino Mestre, pregador negro letrado que, em meados do século XIX, andava pelas ruas do Recife com a Bíblia na mão para enfrentar a opressão e pecado escravagista por meio de uma pregação centrada na igualdade criada por Deus entre todas as pessoas.
Estudos recentes em exegese feminista e teologias pentecostais contemporâneas – vejam-se os trabalhos de Anathea Portier-Young e Jacqueline Grey – sugerem a dança de Miriã como inauguração de uma performance profética de libertação, que promove a autocura coletiva de um povo traumatizado pela escravidão através da educação estética e estésica de seus corpos para uma vida de aliança comunitária e sentido comum.
O que essas autoras mostram, ao lerem Êxodo 15 com atenção ao corpo, ajuda também a reconhecer a força autocurativa da espiritualidade e religiosidade das casas de axé e das comunidades cristãs nas periferias de nosso país, que continuam formando corpos para a esperança em meio ao racismo religioso.
Por isso tudo me parece importante afirmar sem medo: num país erguido sobre o trabalho escravo e o racismo, urge um cristianismo descolonizado, capaz de reconhecer-se religião de matriz africana. Não apenas por causa de suas origens históricas, mas porque, ao longo dos séculos, pela força do Sagrado que “sopra onde quer” (João 3:8), foi, a despeito de sua diabólica europeização, recontado, reapropriado e recriado pelas comunidades afro-ameríndias em resistência e luta.
Afirmar o cristianismo como religião de matriz africana é, portanto, mais que tese acadêmica: é um primeiro passo na direção de uma conversão necessária. Conversão antirracista, ecológica, ecossocialista, que nos chame a abandonar a fé usada como arma contra o povo e a abraçar uma fé que se faz aliada das lutas por justiça.

