Querida gente leitora do Brasil de Fato Pernambuco, o ano começou sob uma avalanche de fatos que atravessam religião, política e cultura. Em cada um deles há uma dimensão ao mesmo tempo global e local (“glocal”) que embaralha o olhar. Sendo 2026 um ano de eleições gerais e de disputa dura pelos rumos nacionais, proponho um ponto de partida: escutar o sentido religioso e espiritual dos atos que, neste janeiro, três anos depois, lembraram e denunciaram a tentativa de golpe do 8 de janeiro de 2023.
Para dar conta desse debate, precisamos complexificar o que chamamos de democracia. Nela, existe uma dimensão “procedimental”: regras do jogo, eleições competitivas, alternância, instituições funcionando (Schumpeter; Dahl). Essa dimensão é necessária se não quisermos que o arbítrio vire método. Mas ela é insuficiente quando separa política e vida cotidiana, como se o povo pudesse escolher “livremente” sob coerção econômica, fome, medo, precarização e desinformação (Marx).
A sociologia política crítica lembra que cidadania não é só votar: ela inclui direitos civis, políticos e sociais, tais como acesso a educação, proteção, renda e condições dignas de vida (T. H. Marshall). Sem isso, a participação vira formalidade. E, numa sociedade desigual como a brasileira, o campo político é atravessado por poder econômico, hegemonia e aparelhos ideológicos de produção de consenso (Gramsci; Althusser), subordinando prioridades públicas à “necessidade” do mercado e estreitando, na prática, o alcance do povo sobre decisões estratégicas (Polanyi).
Neste ponto, o horizonte de um projeto democrático-popular para o Brasil ajuda a dar conteúdo a um termo que costuma andar junto à democracia: soberania. Diante da geopolítica produzida pelo capitalismo planetarizado, a soberania só é possível numa democracia que parta das necessidades do povo trabalhador. E ela só se realiza quando o povo entra organizado no comando das decisões do Estado, disputando orçamento, políticas públicas e prioridades nacionais. Soberania popular, nesse sentido, não é slogan: é direção concreta do fundo público para o bem viver coletivo.
Por isso falamos em democracia popular. Ela mede seu valor pelo destino do povo trabalhador e por investimentos públicos que garantam condições materiais de vida: SUS e SUAS fortes, escola pública de qualidade, transporte digno, trabalho com direitos, comida na mesa, teto e descanso. Sem isso, a democracia vira vitrine para nos encantar enquanto as elites mantêm seus privilégios e nossa exploração: bonita por fora, vazia por dentro.
Essa distinção é decisiva para falar de golpe e de ruptura. Nem toda quebra de “normalidade institucional” tem o mesmo conteúdo social (Skocpol; O’Donnell). Há golpes antipopulares: fecham o horizonte de direitos, concentram poder, criminalizam movimentos, protegem privilégios. E há rupturas empurradas por baixo, quando pressão popular abre espaço para mais participação e mais direitos, ainda que em meio a contradições e disputas duras. Trata-se, muitas vezes, de recomposição do poder de classe em crises de hegemonia, quando o comando social perde consenso e tenta se recompor por cima (Poulantzas).

Para quem lê o mundo com a Bíblia na mão e os pés no chão, esse critério é evangélico. Jesus diz que se reconhece a árvore pelos frutos (Mateus 7.15-20; Lucas 6.43-45). Os profetas denunciam culto que convive com injustiça (Isaías 1.10-17; 58; Amós 5.21-24; Jeremias 7.1-11; Miquéias 6). E, seguindo a tradição profético-messiânica judaica, o programa público do Nazareno é boa notícia às pessoas empobrecidas, libertação às encarceradas, oprimidas e exploradas (Lucas 4.18-19). Se o resultado de qualquer ruptura for o esmagamento das de baixo e privilégio das de cima, o que temos é idolatria. Seja ela chamada de golpe ou de revolução.
A história republicana brasileira é atravessada por rupturas pelo alto, com forte marca antipopular em quase todas: o golpe de 1889 foi articulado por elites agrárias e cúpulas militares; o de 1937, que inaugura o Estado Novo, e o de 1964, movimento político-militar que depõe João Goulart, contaram com apoio decisivo das Forças Armadas e frações economicamente dominantes. Já 1930 e 1945, com contradições e limites, reconfiguram o Estado em chave ambivalente, abrindo disputas e brechas democratizantes sob tutela.
A deposição de Dilma, em 2016, operou como ruptura institucional a serviço de uma agenda regressiva. A “intentona” bolsonarista de 8 de janeiro de 2023 tentou acrescentar mais um item a esse histórico: quando algum avanço democrático ameaça mexer em privilégios, nossas elites acionam atalhos e o povo paga o preço sob repressão, carestia e silenciamento.
Neste ponto, a fé cristã tem uma régua exigente: palavra piedosa pode ser cilada quando a prática desmente a confissão. A Escritura insiste que não há culto verdadeiro sem justiça. E aqui chegamos a um ponto que precisa ser dito sem rodeios: no 8 de janeiro de 2023 vimos parcelas de lideranças midiáticas autonomeadas evangélicas e redes político-religiosas oferecendo linguagem, símbolos e “cobertura espiritual” para incubar um golpismo antipopular, espalhando “profecias”, pânico moral e fantasia de “guerra santa”.
Não acuso o povo evangélico, mas denuncio estruturas de mediação (púlpitos-empresa, mídias religiosas, redes de influência) e um mercado da fé que, aliado ao autoritarismo neofascista, tem fabricado extremismo e obediência cega. Houve ali, reconheçamos, uma liturgia política. Cânticos, símbolos, “profecias” de redenção nacional e promessa de salvação pela violência.
Apesar de absurdos a ponto de se fazerem risíveis nos vídeos que circulam, nada ali foi inocente. Foram estratégias de mobilização, com engrenagens materiais: redes de desinformação, logística e coordenação em plataformas digitais – inclusive com convocações e intensificação de mensagens na semana do 8 de janeiro, como mostram pesquisas e relatórios. Os documentos também evidenciam como redes comunitárias cristãs serviram como nós fundamentais, como se a mentira fosse “zelo espiritual”.

À luz da Boa Notícia do Nazareno, aquilo foi culto idolátrico: trocou-se o Deus da vida por um bezerro de ouro pintado de patriotismo, tomou-se o Nome em vão para autorizar a morte. Chamou-se de “bem” o que esmaga as oprimidas. A religião cristã foi usada como tecnologia de dominação.
Daí a importância dos atos públicos que, neste janeiro, tomaram as ruas do país sob o grito “Sem Anistia!”, em defesa da democracia e da soberania nacional e latino-americana. À liturgia macabra do golpismo antipopular respondeu-se com uma firme liturgia democrática. E vale dizer com toda clareza bíblica: paz não é silêncio imposto e nem acordo sobre a mentira. “O fruto da justiça será paz” (Isaías 32.17) e a Escritura manda amar “a verdade e a paz” (Zacarias 8.16–19); por isso ela denuncia a falsa paz que encobre feridas (Jeremias 6.14). A paz de Cristo derruba a inimizade, não a administra (Efésios 2.14–17).
Tendo participado da organização local desse ato em defesa da democracia em Petrolina e acompanhado as movimentações em outras cidades de Pernambuco e do país, senti falta de mais lideranças e comunidades cristãs nas ruas. Ora, janeiro é Tempo da Epifania: memória da manifestação humana de Deus-Amor no Cristo Luz para os povos, no Emmanuel, o Deus-Conosco, que escolheu estar entre o povo trabalhador e denunciou a ganância opressiva do poder a serviço da desigualdade.
A narrativa de Mateus sobre seu nascimento é uma pequena aula de posicionamento político para cristãs: os magos vão ao encontro de uma criança periférica e, diante de Herodes, senhor do palácio, recusam o roteiro centralizador do tirano. Advertidos em sonho, “voltaram por outro caminho”: negam a estrada do império, interrompem a cadeia de cumplicidades, recusam prestar serviço ao poder que mata.
A tendência é que, ano após ano, pessoas, movimentos e partidos comprometidos com verdade, justiça e vida renovem atos de memória-denúncia do 8 de janeiro de 2023. A cada janeiro, portanto, lideranças e igrejas cristãs terão outra chance de, no espírito da Epifania, “voltar por outro caminho”: sair da sombra de Herodes e caminhar com o povo, por democracia popular, direitos e soberania.
Que Deus nos dê lucidez para reconhecer ídolos, coragem para não nos ajoelharmos diante deles, e uma ternura teimosa para sustentar o povo na travessia. Que a Epifania nos encontre escolhendo a simplicidade profunda das crianças e recusando falsos messias, em quaisquer de suas versões.

