História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

Saberes e fazeres ancestrais enquanto elementos culturais e identitários no quilombo Pedra D’Água em Ingá (PB)

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Bolo assado na palha da bananeira ou bola assado na pedra. Registro no Quilombo Pedra D’Água, em novembro de 2023. | Crédito: Foto: Arquivo pessoal.

O bolo de pedra é feito de forma artesanal, geralmente para momentos de festividades

Por Marciane Silva Ambrosio Benício*

O passado está em toda parte, seja por meio de uma prática, uma fala, um gesto, uma saudação, um chá. Enfim, o passado está também no presente ao nosso redor. Existem várias características herdadas pelos nossos ancestrais familiares. Histórias, culturas e memórias permeiam a experiência humana.  Nesse sentido, a memória passa a ser vista, segundo Maurice Halbwachs (1990), como “lembranças reconstruídas.” Hartog (2014) mostra a necessidade de olhar para o passado buscando legitimar o presente, pois é no presente que acontece a ação de transformar o agora. E esses sujeitos têm modificado sua condição de vida dentro do quilombo por meio de sua arte, do seu saber e fazer.

Desde o período colonial, os quilombos foram apresentados na historiografia brasileira como sendo redutos de negros fujões, salteadores sempre tratados de forma depreciativa, preconceituosa, mas, esses espaços também marcaram em todo o território brasileiro a materialização de uma oposição ao sistema que matava e oprimia. “[…] o quilombo representou uma afirmação da oposição do produtor feitorizado contra o escravismo, produto da singularidade desse tipo de sociedade” (FIABANI, 2012). Abdias do Nascimento apresentou o quilombo enquanto um espaço organizado e centrado em movimentos sociais e culturais, mantendo traços de suas raízes ancestrais. 


Quilombo Pedra D’Água, em Ingá (PB). / Foto: Arquivo pessoal.

Beatriz Nascimento, por sua vez, uma mulher negra que se incomodava com a forma que era mostrado conceitualmente o quilombo na história, preocupava-se epistemológica e teoricamente com a maneira que era difundido o conceito de quilombo no Brasil, levando-a a mobilizar e a criticar a historiografia referente ao conceito de quilombo, na qual muitos tratavam-no como algo atrasado e inerte. Na visão de Beatriz Nascimento, o quilombo não era algo parado, isolado, para ela, “[…] o quilombo, no seu sentido histórico, seria como um sistema social alternativo” (NASCIMENTO, 2021).

Nas linhas a seguir traremos de forma sucinta a questão ancestral e os elementos culturais que permeiam este cenário, a saber, a comunidade quilombola Pedra D’Água, localizada na cidade do Ingá na região agreste do estado da Paraíba.

O surgimento da Comunidade Pedra D’Água¹ remonta à figura de Manuel Paulo Grande, o primeiro homem que se estabeleceu na região após ter sua participação no movimento Quebra Quilos, revolta ocorrida no Nordeste brasileiro no final do século XIX contra a implantação de um novo sistema métrico. Segundo consta no Relatório Antropológico da Comunidade e nas falas de alguns moradores do quilombo, Manoel Paulo Grande, obedecendo ordens de um fazendeiro ingaense, participou ativamente da querela do Quebra-Quilos e passou a ser perseguido pelas autoridades que buscavam coibir os revoltosos.

Nesse cenário, a solução foi a fuga para áreas isoladas da região, fazendo surgir assim o que hoje conhecemos como quilombo Pedra D’Água. E, nesse local, conhecemos seu Antônio Firmino² , o seu Dom, um homem sábio, cheio de ensinamentos, que carrega em suas falas, no seu modo de vida e nos costumes herdados pelos seus ancestrais. Um exemplo disso é o bolo assado na palha de banana ou “bolo assado na pedra”.


Variedade de plantas frutíferas que compõem o cenário do quilombo Pedra D'água. / Foto: Arquivo pessoal.

O bolo de pedra é feito de forma artesanal, geralmente para momentos de festividades, como na festa do dia 20 de novembro, para receber visitantes que buscam conhecer a comunidade, e também é muito consumido na alimentação das famílias dentro da comunidade. De acordo com seu Dom, ele aprendeu a receita do bolo com sua mãe que aprendeu com sua vó que já aprendeu com outra ancestral e ele tem a missão de levar esse conhecimento para as novas gerações.

O saber de hoje são resquícios da sabedoria deixadas pelos seus antepassados, e segue toda uma ritualidade. No momento da produção, são seguidos passo a passo desde a escolha dos produtos até a preparação, a temperatura da pedra, tudo conhecimento adquirido com os que vieram antes dele.


Festa de comemoração do dia 20 de novembro de 2023, no Quilombo Pedra D'água. / Foto: Arquivo pessoal.

Ao analisar nesses relatos orais, podemos compreender como essas memórias são constituídas e primordiais nos processos identitários.

A partir das representações contidas no passado dessas comunidades, elas (re)constroem sua identidade, baseada na memória coletiva do grupo. Alberti já aponta a importância de que “a memória é especial a um grupo porque está atrelada à construção de sua identidade”. Portanto, ao analisar nesses relatos orais, podemos compreender como essas memórias são constituídas e primordiais nos processos identitários. Compreendendo assim, o aprendizado como processo que constrói não só o conhecimento, mas também sujeitos ativos na prática e na memória das pessoas, no tocante dos que vivem dentro de grupos e comunidades étnicas. Pois nessas localidades também estão inseridos os “lugares de memória” desses sujeitos e que, assim, fazem parte de suas lembranças, tanto individual como coletiva. Halbwachs (1990) aponta que quando um grupo se encontra inserido em um espaço, ele o transforma à sua imagem, além de se adaptar ao local e seus percalços diários. Eles se (re)constroem a partir de seus costumes, saberes e fazeres ancestrais.

Portanto, a ancestralidade é uma ponte de ligação entre as pessoas que vieram antes nós e as que ainda se encontram aqui, ela nos ajuda a compreender melhor quem somos. E principalmente, nos ajuda a entender as origens, crenças, costumes, culturas e identidades formadas a partir de seus saberes. Dessa forma, a conexão com a ancestralidade é a fonte de todo conhecimento, respeitar e honrar os nossos ancestrais, é antes de tudo, reconhecer a sabedoria dos que vieram antes de nós e para além disso, significa perpetuar esses conhecimentos para novas gerações. 

Notas

¹ A comunidade quilombola de Pedra D’Água limita-se, ao Norte, com o sítio Pinga, ao Sul, com a Lagoa dos Caldeiros, a Oeste, com a Vila Pontina e, a Leste, com o Sítio Poço Dantas. Como consta no Relatório Antropológico (2010), o quilombo Pedra D’Água, possui uma área de 132 hectares, conforme demarcação de seus limites definidos pela comunidade quilombola e coligidos pelos técnicos do INCRA-PB. Este território é intensamente ondulado, com boa parte destas terras constituída por montes altos e grandes rochas. A distância do quilombo Pedra D’Água para a capital, João Pessoa, é de 103 quilômetros; para o centro de Ingá são 21,3 quilômetros. A comunidade quilombola Pedra D’Água possui por volta de 100 famílias. Este número é aproximado, por conta da flutuação no número dos habitantes (RTID, 2010, p. 64).

² Seu Antônio Firmino dos Santos (conhecido como seu Dom), nascido e criado do quilombo Pedra D’Água. Agricultor que mantém uma relação íntima com a terra e grande respeito pela sua ancestralidade.

Para saber mais

BENÍCIO, Marciane S. Ambrosio. “Quilombola Sim”: o processo Identitário na Comunidade Quilombola Pedra D´Água em Ingá-PB. Campina Grande-UEPB, 2022. https://dspace.bc.uepb.edu.br/xmlui/handle/123456789/31222 

NASCIMENTO, Abdias. O Genocídio do Negro Brasileiro: processo de um racismo mascarado. São Paulo: Editora Perspectiva, 2016.

NASCIMENTO, Beatriz. Uma história feita por mãos negras: quilombos e movimentos. Organização: Alex Ratts. Rio de Janeiro: Zahar, 2021. 

*Marciane Silva Ambrosio Benício é licenciada em História, com monografia intitulada Caminhos da História, nos Rastros da Memória: Cultura e Identidade na Festa das Rosas de Ingá” (UEPB). Possui segunda licenciatura em pedagogia − Unifaveni (2023). Especialista em Estudos de História Local, Sociedade, Educação e Cultura (UEPB). Especialização em Educação Inclusiva − Centro Integrado de Tecnologia e Pesquisa (Cintep). Especialista em História e Cultura Afro-Brasileira − Unopar (2024). Mestra em História – UFPB (2024).

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Editado por: Carolina Ferreira

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