Por Wanessa Horrana F. da Silva*
Em 2025, celebramos o centenário de nascimento de Clóvis Moura (1925–2003), intelectual cuja obra continua sendo uma das mais potentes e insurgentes sobre a interpretação do Brasil. Nordestino, sociólogo, jornalista e militante, Moura ousou pensar as rebeliões negras em um momento em que a historiografia oficial ainda exaltava o Isabelismo e destinava o mérito da abolição exclusivamente às elites brancas e o movimento abolicionista. Fora do círculo acadêmico paulistano que norteava grande parte do debate sobre o país, ele construiu uma leitura inédita das lutas da população negra escravizada, reconhecendo nelas o motor do processo de libertação.
Já em 1959, publicou a obra pioneira Rebeliões da Senzala: quilombos, insurreições, guerrilhas, primeiro estudo sistemático da historiografia brasileira dedicado às lutas negras. Na sua obra, ele rompe com a visão paternalista que representava o escravizado como passivo, “objeto” da história, e inaugurou uma perspectiva crítica que inscrevia a população negra como sujeito histórico e político. Como lembra Kabengele Munanga, “foi ele o primeiro a desmontar o mito do negro submisso e a colocar em pauta a centralidade da luta escrava para o abolicionismo”.

Mais do que um historiador, Clóvis Moura foi um intelectual orgânico, no sentido gramsciano: sua produção não se limitou aos muros acadêmicos e esteve profundamente vinculada aos anseios e às lutas dos movimentos sociais. Seu trabalho intelectual, portanto, só tinha sentido quando dialogava com a prática de transformação da realidade, em suas próprias palavras: “Não houve propriamente uma aproximação ao marxismo imediata, mas uma necessidade permanente de encontrar respostas para grandes interrogações do mundo contemporâneo”.
Essa busca por respostas concretas orientou sua crítica tanto à sociologia e antropologia dominantes quanto a certas leituras estéreis do marxismo, que ele chamou de “marxismo desdentado”. Para Moura, a teoria só se justificava quando enraizada na práxis, ou seja, nas formas reais de luta e organização da população negra.
Sua trajetória política foi marcada por esse compromisso. Em 1942, ainda em Salvador, ingressou no Partido Comunista do Brasil (PCB), atuando como jornalista no jornal O Movimento e, em 1947, foi eleito deputado estadual, entretanto, teve sua candidatura cassada com a ilegalidade do PCB. Anos mais tarde, em São Paulo, estabeleceu vínculos com figuras como Caio Prado Júnior e seguiu engajado nas lutas políticas e culturais do partido. Essa vivência militante moldou sua interpretação da sociedade brasileira. Para ele, o racismo não era apenas uma questão étnica, mas um mecanismo de dominação política e ideológica e estruturante da formação nacional.
Em livros como Sociologia do Negro Brasileiro (1988) e História do Negro Brasileiro (1989), Moura aprofunda essa leitura evidenciando como o racismo atravessava tanto as relações de classe quanto a produção do conhecimento. Sua análise das rebeliões e dos quilombos não se restringia ao passado, era também uma ferramenta para compreender as desigualdades e exclusões persistentes no Brasil contemporâneo. Um dos conceitos mais originais de sua obra é o de Quilombagem, entendido como um fenômeno histórico e político que extrapola a experiência dos quilombos em si, abarcando toda a tradição de resistência negra contra a escravidão e o racismo estrutural. Ao formular essa categoria, Moura nos oferece uma chave interpretativa capaz de pensar a insurgência negra como parte constitutiva da história brasileira, e não como episódio isolado ou periférico.
Essa perspectiva é fundamental para a construção de uma educação antirracista. Ao reinscrever a população negra como protagonista da história, Moura desafia a lógica eurocêntrica e colonial que, por muito tempo, silenciou essas experiências. Seu trabalho é, assim, uma rebelião intelectual contra os mitos fundadores da nação, o mito da democracia racial, da harmonia entre as raças e da suposta benevolência da abolição.
Em Rebeliões da Senzala, Moura já alertava que a abolição de 1888 foi menos uma solução do que um compromisso inconcluso, que deixou marcas profundas na formação social brasileira: “A própria Abolição, como foi feita, significou mais um compromisso que uma solução. Os problemas não resolvidos com o 13 de maio deixaram aderências e canalizaram forças negativas que até hoje continuam influindo na nossa história social”.
Ao evidenciar que a escravidão não terminou com a assinatura da Lei Áurea, mas que suas estruturas se perpetuaram na República e no capitalismo dependente brasileiro, Moura expôs o caráter estrutural do racismo. Mais do que denúncia, sua análise oferece caminhos para pensar as divergências sobre a historiografia da abolição, pois reconhecia que as resistências negras, os quilombos, as insurreições, greves, organizações culturais e políticas foram e continuam sendo o motor das transformações sociais.
No centenário de seu nascimento, revisitar sua obra é reconhecer o valor de uma epistemologia insurgente, que não aceita a marginalização dos sujeitos negros nem no campo social, nem no campo do conhecimento. É afirmar que a rebelião intelectual de Clóvis Moura permanece atual, convocando-nos a repensar o Brasil sob o prisma da luta de classes racializadas e da práxis negra.
Mais do que um exercício de memória, celebrar Clóvis Moura em 2025 é projetar seu legado para o futuro. Sua obra nos interpela a seguir questionando as narrativas oficiais, a resistir contra as hierarquias raciais ainda vigentes e a construir, a partir da história das lutas negras, as bases de uma sociedade efetivamente antirracista.
Para saber mais
FARIAS, Marcio. Clóvis Moura e o Brasil: um ensaio crítico. Dandara Editora, 2021.
ALMEIDA, Silvio et al. Marxismo e questão racial: dossiê margem esquerda. Boitempo Editorial, 2021.
GÓES, Juliana. Du Bois e Clóvis Moura: a diferença entre o trabalhador e o escravo no marxismo negro. Sociologia & Antropologia, v. 15, n. 1, p. 1-24, 2025.
* Wanessa Horrana F. da Silva é mestre e doutoranda em História pela Universidade Federal da Paraíba (UFPB). Atualmente, tem se dedicado a pesquisar a categoria Quilombagem na obra de Clóvis Moura e as epistemologias negras como norteadoras de fundamentos para uma historiografia antirracista.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.
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