História Pública & Narrativas Afro-Atlânticas

Coluna escrita por integrantes do Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-Brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi-UFPB) e por colaboradores externos que lecionam e pesquisam sobre educação antirracista, relações raciais, classe e gênero.

Algoritmos que roubam o tempo de crescimento das crianças e adolescentes

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Ilustrar artigo. Imagem gerada por Gemini pela autora Dindara Rocha
‘A estrutura das redes sociais opera sob a lógica do capitalismo de vigilância, no qual o lucro é extraído da predição e do controle do comportamento do usuário’, afirma Dindara Rocha | Crédito: Imagem gerada por IA (Gemini) pela autora Dindara Rocha

As big techs aplicam uma moderação padronizada que enxerga a criança apenas como um usuário hiperconectado

Por Dindara Rocha*

Alguns minutos de rolagem em qualquer rede social para visualizar os algoritmos nos entrega um espetáculo perturbador. Crianças com menos de dez anos reproduzem rotinas complexas de skincare, dancinhas com conotação sexual ou discursos de influenciadores de alta performance. O fenômeno que tem sido chamado de Sephora Kids é apenas a ponta do iceberg de um processo no qual a arquitetura digital atropela deliberadamente o desenvolvimento humano. O que vemos na tela transcende escolhas individuais ou lacunas na vigilância dos pais. É, no fundo, o sintoma de uma arquitetura sistêmica projetada para converter a infância em um ativo financeiro de alta rotatividade igual à pessoa adulta.

Essa adultização não é um erro de cálculo, mas uma peça fundamental do modelo de negócio das plataformas. A estrutura das redes sociais opera sob a lógica do capitalismo de vigilância, em que o lucro é extraído da predição e do controle do comportamento do usuário. Para as empresas de tecnologia, a infância em seu estado natural é pouco lucrativa porque é imprevisível e menos focada no consumo material. Por outro lado, a criança adultizada é o consumidor ideal. Já entra na rede com desejos de compra moldados por padrões estéticos adultos, o que facilita o direcionamento de anúncios e a coleta de metadados valiosos.

O design persuasivo das interfaces utiliza gatilhos de dopamina para manter a criança conectada, transformando marcos do desenvolvimento psicológico em métricas de inventário publicitário.

O design persuasivo das interfaces utiliza gatilhos de dopamina para manter a criança conectada, transformando marcos do desenvolvimento psicológico em métricas de inventário publicitário. Como aponta a análise crítica sobre a moderação de algoritmos, o sistema premia o conteúdo que emula o comportamento adulto com maior alcance, já que retém a atenção por mais tempo e gera interações mais fáceis de converter em receita.

Ao ignorar as particularidades do desenvolvimento infantil, as big techs aplicam uma moderação padronizada que enxerga a criança apenas como um usuário hiperconectado. Essa negligência não é apenas ética, é técnica e política. É preciso compreender que as redes sociais não criam problemas do nada, porém amplificam problemas antigos da nossa sociedade. Questões sociais como os racismos, o bullying, o discurso de ódio, a pedofilia e a violência ganham uma escala sem precedentes no ambiente digital. A internet funciona como um megafone para essas mazelas, mas com características próprias que as tornam muito mais perigosas: a velocidade instantânea, o volume massivo de informações, o alcance global, a perenidade dos registros e a precisão cirúrgica dos dados.

O impacto dessa lógica é uma captura precoce da subjetividade. O lúdico, que é o espaço fundamental do erro e da descoberta espontânea, acaba substituído pelo performático. A criança não brinca mais, ela produz conteúdo. Ela não descobre um objeto, ela faz o unboxing para uma audiência invisível. O amadurecimento é forçado para caber no formato vertical da tela, gerando um quadro alarmante de ansiedade e uma erosão da infância em favor de métricas de vaidade que atendem apenas os acionistas das grandes empresas de tecnologia/Big Data.

Estamos diante de uma realidade que ultrapassa as fronteiras do ambiente doméstico e se consolida como uma questão urgente de soberania e saúde pública. Quando o tempo do amadurecimento passa a ser ditado pela métrica das redes sociais e pela ganância desenfreada das corporações, o que resta é uma geração de crianças e adolescentes precocemente exaustos, capturados por mecanismos de vício antes mesmo de atravessarem a infância.

No entanto, o cenário de anomia e terra sem lei que as plataformas tentam naturalizar encontrou um limite civilizatório fundamental no ECA Digital. A atualização do Estatuto da Criança e do Adolescente para a esfera virtual não é apenas uma mudança jurídica, mas um marco inadiável na defesa dos direitos humanos e na proteção da subjetividade brasileira no século XXI.

Na prática, o que muda com essa consolidação jurídica é a transferência necessária da carga de responsabilidade. Por décadas, o discurso das empresas de tecnologia foi o de que a segurança digital era um dever exclusivo da família. Hoje, essa narrativa caiu por terra diante da constatação de que nenhum núcleo familiar consegue competir sozinho contra sistemas automatizados de aprendizado de máquina e arquiteturas de software desenhadas para a extração predatória de dados. O algoritmo opera por meio de um processamento contínuo de sinais de engajamento, identificando vulnerabilidades comportamentais.

Com o vigor do ECA Digital, as plataformas passam a ter uma responsabilidade civil objetiva. Isso significa que as empresas podem e devem ser punidas se o desenho de seus produtos for inseguro ou se o seu algoritmo for configurado para expor vulnerabilidades e práticas racistas, por exemplo. Nesse último sentido, Cathy O´Neil destaca, em seu livro Algoritmos de destruição em massa: como o Big Data aumenta a desigualdade e ameaça a democracia, o viés racista do algoritmo como o reconhecimento facial, o qual por ter sido programado e treinado por pessoas brancas tendo-as como padrão em momento de exemplificar consumidores/as, mostrando, assim, a dificuldade de verificar a cor/raça da pessoas negras de qualquer idade, podendo gerar situações de racismo, ampliar estigmas e práticas discriminatórias, com o potencial de criar outros padrões de se vivenciar as relações étnico-raciais no cotidiano do século XXI.

Enfim, o conceito de segurança por design deixa de ser uma recomendação ética para se tornar uma obrigação legal. Se uma interface é criada para facilitar a exposição de menores ou para induzir o consumo por meio de algoritmos agressivos, a empresa responde legalmente pelos danos causados à formação daquele indivíduo. Não se trata apenas de moderar o que já foi postado, mas de exigir que a arquitetura da rede não seja hostil à infância e a adolescência desde a sua concepção. Essa mudança de paradigma é vital para que o princípio da prioridade absoluta saia do papel e se transforme em regra de programação sem provocar distorções sociais.

Além disso, as interfaces precisam ser pensadas para proteger e não para expor o público infantil e a juventude. Pelo contrário, o ECA Digital estabelece que o lucro não pode se sobrepor à proteção integral, obrigando as redes a oferecerem ambientes que respeitem a cronologia do desenvolvimento da pessoa em formação (cognitiva, emocional, etc.). Proteger a infância e a adolescência nas redes, portanto, exige uma moderação específica e transparente que limite severamente a coleta de dados da população mais jovem da sociedade nacional e global.

Não podemos aceitar que o futuro da nossa sociedade seja moldado por corporações que não têm compromisso com o nosso povo, mas apenas com a extração infinita de valor sobre o tempo de vida no fortalecimento do capitalismo global. Ter a aprovação e a vigência do ECA Digital é garantir que a infância e a adolescência no Brasil tenham o direito de ser, simplesmente, infância e o período da juventude. Poderá ser uma forma de manter/devolver às crianças e aos adolescentes o tempo necessário para o erro sem o peso do registro permanente; e para a brincadeira sem a pressão da audiência e um crescimento menos traumático. Regulamentar o presente digital, por fim, não é um ato de censura, mas um ato de soberania e cuidado com o único futuro que realmente importa. Somente por meio de uma regulação firme e de uma consciência crítica sobre a arquitetura das plataformas é que poderemos retomar o controle sobre o tempo de crescimento do ser humano.

Para saber mais

O’NEIL, Cathy. Algoritmos de destruição em massa: como o Big Data aumenta a desigualdade e ameaça a democracia. Tradução Rafael Abraham. Santos: Editora Rua do Sabão, 2021.

Reportagem no Valor Economico – Globo. 02/12/2025. ECA Digital e LGPD fortalecem a proteção de dados de menores.

Reportagem no Universo Online/UOL-SP/20/05/2026. A cientista da máscara branca: ela desmascarou o racismo das big techs.

Vídeo – Canal You Tube: Felca (Youtuber e Influenciado brasileiro). Adultização (6 agosto de 2025).

*Dindara Rocha é mestranda em Comunicação pela Universidade Federal Fluminense (UFF), com pesquisas acerca do racismo algorítmico e ética no uso da inteligência artificial. Tem atuado como colunista no Brasil de Fato PB, abordando, principalmente, temas relativos aos impactos sociotécnicos e raciais das tecnologias de IAs emergentes e integra o Núcleo de Estudos e Pesquisas Afro-brasileiros e Indígenas da Universidade Federal da Paraíba (Neabi/UFPB). Atualmente, atua como Consultora na área da Comunicação para organizações do terceiro setor.

**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil de Fato.

Editado por: Carolina Ferreira

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