Instituto Tricontinental de Pesquisa Social

O Instituto Tricontinental de Pesquisa Social é uma instituição internacional, orientada pelos movimentos populares e políticos da Ásia, Africa e América Latina, que tem como objetivo promover o pensamento crítico por meio de uma perspectiva emancipatória em prol das aspirações dos povos.

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Mesa Alternativas em uma era de dilemas, na conferência Dilemas da Humanidade, realizada em São Paulo (SP), em abril de 2025
Mesa Alternativas em uma era de dilemas, na conferência Dilemas da Humanidade, realizada em São Paulo (SP), em abril de 2025 | Crédito: Priscila Ramos

O momento é de unir teoria e prática, resistência e projeto

Por Miguel Enrique Stédile

Durante quatro dias, reunidos no Sesc Pompeia, em São Paulo, entre os dias 7 a 10 de abril, economistas, intelectuais e ativistas políticos foram consensuais em afirmar que as múltiplas crises do capitalismo – marcada por guerras, desigualdades extremas e colapso ambiental – exigem mais do que reformas superficiais e a urgência de um projeto emancipatório é inegável. Mesmo formado por um público de diversas opiniões e correntes políticas de diferentes partes do mundo, especialmente do Sul Global, a conferência Dilemas da Humanidade: Perspectivas para a Transformação Social reafirmou a necessidade de uma agenda econômica que combata a lógica do sistema atual e a ascensão da extrema-direita, que ameaça direitos e aprofunda a barbárie.

Ironicamente, a atividade ocorreu na mesma semana em que Donald Trump ameaçava todos os países do globo, revelando a ineficiência das instituições globais. Diante disso, a conferência se debruçou sobre a falência do modelo de desenvolvimento baseado em exploração predatória, em que o Norte Global mantém seu domínio via controle financeiro e tecnológico, enquanto o Sul sofre com endividamento crônico, desindustrialização e a espoliação de seus recursos naturais. A resposta reacionária a essa crise — como o avanço do fascismo na Europa, nos EUA e na América Latina — só agrava o quadro, criminalizando movimentos sociais e destruindo conquistas democráticas.

O evento não apontou uma agenda definitiva, mas pilares para a construção de um projeto de transformações estruturais e que não se limite a ajustes cosméticos; como destaque, ressaltou-se a necessidade de uma economia que esteja à serviço da vida, com políticas que priorizem necessidades humanas e que tenha em mente os limites ecológicos; a soberania popular, com controle estatal e social sobre recursos naturais, dados digitais e sistemas financeiros; e a integração Sul-Sul por meio do comércio e cooperação tecnológica entre os países periféricos.

Os debates também não lançaram para o futuro a necessidade de luta e construção destes pilares. Ao contrário, algumas medidas defendidas pelos palestrantes e debatedores – como a retomada do controle público dos Bancos Centrais, a integração regional via BRICS e uma transição energética justa, são ferramentas para um programa do presente. Ao mesmo tempo, movimentos e intelectuais alertaram aos governos progressistas eleitos nos últimos anos de que sem ruptura com um modelo econômico de extrativismo, commoditização e rentismo, processos populares podem ser neutralizados ou cooptados, inviabilizando ajustes estruturais.

Diante da emergência de um mundo multipolar e da resistência estadunidense a este novo planeta, exigem-se medidas cooperadas e integradas. Não existirá nenhuma saída ou mudança que ocorra de forma isolada. No caso latino-americano, nossa melhor oportunidade é a integração e a ação conjunta. Tanto para se postar nos fóruns e mecanismos multilaterais quanto para enfrentar a atual arquitetura financeira global, comandada pelo FMI e por bancos privados – responsável por estrangular os Estados nacionais com dívidas insustentáveis -, assim como para enfrentar a ofensiva conservadora na batalha de ideias e valores.

Nada disso é possível sem força social organizada e ousadia para sairmos do deserto da mediocridade que assola os debates econômicos. É preciso coragem para enfrentar os interesses consolidados do mercado financeiro e das indústrias bélica e tecnológica que sequestraram e desintegraram os organismos de governabilidade global. O preço da covardia será cobrado pela acentuação das crises ambientais, energéticas, migratórias, econômicas e sociais. O momento é de unir teoria e prática, resistência e projeto. O futuro não está bloqueado. Ele ainda está em disputa.

* Miguel Enrique Stedile é integrante da coordenação do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social.

Editado por: Nathallia Fonseca

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