A insistência permanente do discurso estadunidense em torno da luta contra as drogas parece evidenciar uma cruzada moral dos sucessivos governos estadunidenses para limpar seu país do consumo dos entorpecentes. No entanto, a realidade está muito distante da ideia simplista que costuma ser difundida nos meios de comunicação de massa. Na verdade, o que se busca com a denominada “guerra às drogas”, como demonstra a própria história de nossa região, é uma fachada para o desenvolvimento de diversos mecanismos de intervenção imperialista que, desde a década de 1970, implicaram a combinação de métodos que vão desde o financiamento militar aos países da região, a instalação de bases militares, até o apoio explícito a algum candidato em uma disputa eleitoral.
O mais recente dossiê lançado pelo Instituto Tricontinental de Pesquisa Social desenvolve justamente a hipótese de que, na realidade, a chamada “guerra às drogas” é, na verdade, dirigida contra as populações mais empobrecidas, o elo mais frágil da cadeia produtiva que resulta nos narcóticos. As drogas, precisamente, e especialmente seus vultuosos lucros, são o que menos interessa à classe dominante estadunidense – e aos circuitos financeiros do capital global – combater, ainda que façam todo o esforço propagandístico para desvinculá-las das práticas “legítimas” do capitalismo.
Na realidade, a empresa transnacional de caráter criminoso que constitui a indústria do narcotráfico é um elemento fundamental dos circuitos de acumulação do capitalismo em escala global. O documento afirma, por exemplo, que “a guerra contra as drogas é simplesmente uma tentativa dos Estados capitalistas de garantir que esses circuitos de narcóticos permaneçam clandestinos, para que o dinheiro extraído do comércio ilegal possa continuar dando liquidez a um sistema bancário que não funcionaria sem ele”.
Na América Latina e no Caribe, região principalmente afetada pela denominada “guerra”, destaca-se o caso colombiano como paradigmático para compreender as diferentes consequências dessa política estadunidense: desde a criminalização dos camponeses cultivadores da folha de coca até o financiamento de um aparato de guerra e repressão contra as classes populares, passando pela formação e financiamento concedidos pelos EUA às forças militares do país, com uma doutrina contra insurgente que encontrou neste elo sua desculpa perfeita.
A pesquisa aponta que a demanda por mercadorias ilícitas não muda substancialmente mesmo que haja alguma variação de preços, tornando-se um caldo de cultivo para a prática de pequenos delitos para que se possa, de alguma maneira, sustentar o consumo. “A violência no trajeto da droga das fazendas às ruas, e a violência das overdoses, raramente interrompem a produção ou o mercado”.
Dessa forma, vidas podem ser sacrificadas sem interromper o processo de acumulação de capital na economia formal. A economia das mercadorias ilícitas, com enormes níveis de exploração das/os trabalhadoras/es, produz grandes volumes de dinheiro em espécie que são lavados e ingressam – e lubrificam – o sistema financeiro, além de permitir o controle das comunidades marginalizadas por meio da desmoralização social e da intervenção policial.
Com uma revisão do processo produtivo da coca, o dossiê busca evidenciar de que maneira os lucros estão concentrados nos elos da cadeia mais distantes do cultivo das plantas, sendo, paradoxalmente, as e os trabalhadores desses cultivos os mais criminalizados e perseguidos pela suposta “guerra” contra o narcotráfico.
O papel das e dos camponeses cultivadores é uma das principais preocupações da pesquisa, ao evidenciar como, a partir da perspectiva do campesinato colombiano, a economia política da guerra contra as drogas responde a uma complexa conexão entre cultivos, falta de desenvolvimento rural e conflito armado que marcou a história agrária do país.
O caso colombiano tem sido paradigmático em nível continental para compreender o que está por trás da narrativa simplificada dessa denominada “guerra”. O aprofundamento do modelo neoliberal na agricultura acelerou a extinção das e dos pequenos agricultores. O campesinato enfrenta a falta de acesso e de posse da terra, bem como a exclusão social e econômica, o desemprego, a opressão e a marginalização, agravadas pela fragilidade das políticas públicas, pela saúde e educação rurais inadequadas e pela impossibilidade de acesso à moradia digna. Na Colômbia, a crise se intensifica ainda mais pelo acaparamento de terras, pela usurpação e pela “regularização” de terras ilegalmente desapropriadas, realizada por meio de um modelo paramilitar com financiamento e consentimento estatal a serviço de grandes corporações transnacionais.
O campesinato não é apenas o principal alvo dos discursos moralistas dos meios de comunicação, que ignoram sua realidade econômica e social; os grandes lucros do negócio ficam com os grandes capitalistas que, como o presidente colobiano, Gustavo Petro, já insistiu em diversas ocasiões, encontram-se em lugares como a Flórida e estão perfeitamente identificados pelas autoridades estadunidenses, que frequentam os mesmos círculos sociais onde circula a cocaína que tanto condenam e pela qual já morreram cerca de 1 milhão de latino-americanos/as.
Por outro lado, é importante destacar que o movimento camponês na Colômbia também construiu ferramentas para se organizar nos territórios onde se cultiva coca. Desde históricas marchas camponesas em meados dos anos 1990 até a atualidade, as comunidades camponesas produtoras da folha de coca exigem do Estado a substituição voluntária dos cultivos e o fim dos métodos de erradicação forçada com glifosato, que apenas trouxeram aos territórios o aumento do contingente militar, gerando violência e desapropriação.
“O problema não é a planta de coca, mas o sistema econômico que criminaliza as e os pobres das zonas rurais enquanto absorve e recicla a enorme liquidez gerada pelos mercados ilícitos. O setor financeiro depende desses fluxos. Os bancos mundiais os acolhem com satisfação. E as nações mais ricas que promovem a erradicação dependem, ao mesmo tempo, da estabilidade proporcionada por esse capital oculto. Tratar o campesinato como inimigo é ocultar a verdadeira arquitetura do narcotráfico, que se estende para cima, até os circuitos das finanças legais, das commodities globais e do poder estatal”, afirma a pesquisa.
Se o objetivo é acabar com a violência e com a dependência econômica do cultivo de coca, então o ponto de partida não deve ser nem a militarização nem a erradicação, mas a reconstrução da vida rural: reforma agrária, preços garantidos para cultivos lícitos, infraestrutura, serviços públicos e direitos políticos para quem cultiva a terra. Sem transformar as condições sociais e econômicas que empurram as famílias para a agricultura ilícita, o ciclo simplesmente se reproduzirá. Sem enfrentar as instituições financeiras que lavam os lucros, a economia mundial das drogas continuará funcionando como um pilar não oficial da liquidez capitalista.
*Laura Capote é formada em Ciências da Comunicação Social pela Universidade de Buenos Aires e mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Nacional de La Plata. Pesquisadora do Instituto Tricontinental de Pesquisa Social sobre a realidade política e social da América Latina e do Caribe. Este artigo foi publicado pela Globetrotter.
**Este é um artigo de opinião e não necessariamente representa a linha editorial do Brasil do Fato.
