“No entanto, diante da opressão, do saque e do abandono, nossa resposta é a vida.
Nem os dilúvios nem as pestes, nem as fomes nem os cataclismos,
nem sequer as guerras eternas ao longo dos séculos e séculos
conseguiram reduzir a vantagem tenaz da vida sobre a morte.”
“A solidão da América Latina”, Gabriel García Márquez, 1982.
Neste mês de maio, inaugurado pelo Dia Internacional das Trabalhadoras e dos Trabalhadores, atravessamos uma das conjunturas mais decisivas do panorama regional: as eleições presidenciais na Colômbia entraram em sua fase final. As últimas semanas têm sido intensas, e o desfecho final conheceremos no próximo 31 de maio, quando ocorrerão os pleitos e saberemos qual é a real correlação de forças em um país que, atualmente, determina em muito os rumos da América Latina e do Caribe.
A Colômbia sempre foi uma prioridade na estratégia geopolítica dos Estados Unidos na região. Historicamente, configurou-se como um dos principais aliados hemisféricos de Washington para garantir a presença estadunidense nos territórios latino-americanos, com especial importância por sua presença na Amazônia e sua extensa fronteira com a Venezuela. No entanto, com a terceira maior população do continente — mais de 50 milhões de pessoas — e a quarta economia mais importante da região, a Colômbia iniciou, nesses quase quatro anos de governo de esquerda sob a presidência de Gustavo Petro, uma mudança estrutural na ordem dominante do país em relação à sua política de soberania e integração regional.
Com posições firmes em defesa da soberania diante dos ataques impulsionados pelos Estados Unidos contra a região — que vão desde falsas acusações de vínculos com o narcotráfico contra Petro, passando pelo bombardeio de barcos pesqueiros no Caribe colombo-venezuelano, o aprofundamento do bloqueio a Cuba, até o bombardeio sobre Caracas e o sequestro do presidente Nicolás Maduro e da deputada Cilia Flores em 3 de janeiro — a Colômbia posicionou-se como uma das principais vozes regionais e globais na defesa dos Direitos Humanos, levando inclusive aos cenários multilaterais a acusação de genocídio contra o Estado terrorista de Israel e os Estados Unidos por suas ações contra o povo palestino.
Embora os EUA tenham recuperado diversos governos aliados no continente nos últimos anos (por meio de métodos fraudulentos de intervenção eleitoral e pela construção e financiamento de lideranças regionais), ter perdido a aliança estratégica com a Colômbia tornou-se uma das principais preocupações de Washington. A fotografia do “Escudo das Américas” mostra uma reconfiguração do panorama regional que ressalta a importância dos processos que ainda mantêm administrações de perfil progressista na América Latina e no Caribe, particularmente os governos do México, Brasil e Colômbia.
Essas preocupações, que não são apenas retóricas, ficaram evidentes com a publicação do chamado Hondurasgate, um escândalo que demonstrou a articulação e coordenação política de importantes referências da extrema direita do continente, sob orientação da Casa Branca, com o objetivo de atacar os governos progressistas mencionados anteriormente e buscar instabilidade nesses países. Protagonizado pelo ex-presidente de Honduras, Juan Orlando Hernández — condenado por conspiração para tráfico de drogas, uso de armas de fogo e conspiração para tráfico de armas na Corte Federal de Nova York, e indultado pelo presidente Donald Trump dias antes das eleições em Honduras —, o Hondurasgate revelou a participação e o financiamento de Donald Trump e Benjamin Netanyahu em governos da ultradireita no continente, como o de Javier Milei na Argentina, ao criar uma “unidade digital” voltada a afetar a gestão de Petro e Sheinbaum, em particular, e os cenários eleitorais dos seus respectivos países, respondendo claramente às intenções evidenciadas na própria estratégia de segurança nacional publicada pela Casa Branca em dezembro passado, na qual se faz referência ao reforço da Doutrina Monroe sob o chamado corolário Trump.
As posições da Colômbia na geopolítica atual significaram uma transformação importante em um país que outrora foi talvez o principal aliado dos EUA na região. No entanto, as preocupações do imperialismo e as razões dos ataques da direita continental não respondem apenas a fatores relacionados à política externa, mas também às conquistas alcançadas pelo governo de Gustavo Petro na política interna do país.
Petro e o início do processo de mudança
No próximo 7 de agosto, o governo de Gustavo Petro chegará ao fim e, com ele, terminará a primeira experiência de direção progressista no país. A gestão começou há quatro anos com a proposta de construir uma Colômbia Potência Mundial da Vida, como se intitulava o programa de governo que venceu as eleições de junho de 2022. Durante sua permanência na Casa de Nariño, promoveu uma verdadeira transformação no país nas áreas mais sensíveis e prioritárias de suas promessas de campanha.
O governo do Pacto Histórico representou um divisor de águas na história de um país que sempre teve como dirigentes as famílias mais poderosas da oligarquia e da burguesia nacional, proprietários rurais e latifundiários, sempre alinhados aos interesses estrangeiros em nosso território. Com a chegada de Gustavo Petro, “virou-se a mesa”, e passaram ao centro dos interesses do Executivo a garantia e ampliação dos direitos das maiorias empobrecidas do país e o desenvolvimento de avanços e reformas voltadas à transformação social para os setores populares.
As estruturas de poder viram-se ameaçadas pelos avanços da gestão do Pacto Histórico em áreas estratégicas: sob a política de Reforma Agrária, foram formalizadas mais de 2 milhões de hectares entregues às comunidades rurais do país e o campesinato foi reconhecido formalmente como sujeito de direitos; a taxa de desemprego caiu para 9,2% em fevereiro de 2026, a menor do século; cerca de 1,6 milhão de pessoas saíram da pobreza monetária e aproximadamente 2,5 milhões deixaram a fome; apesar das tentativas da oposição de barrá-la, consolidou-se a reforma trabalhista, que reduziu a jornada laboral e aumentou os adicionais por horas extras; houve um aumento acumulado de 23,4% no salário mínimo durante os quatro anos de governo, melhorando a renda de 2,4 milhões de pessoas; ocorreu um aumento significativo do financiamento da educação superior pública, respondendo a uma reivindicação histórica do movimento estudantil; garantiu-se o aumento do bônus previdenciário para mais de 3 milhões de aposentados; em matéria de transição energética, a energia solar superou o carvão na geração anual de eletricidade, e foram criadas quase 300 comunidades energéticas. Soma-se a esses números o recorde mundial de apreensão de cocaína, com 3.417 toneladas, a redução de 39% do desmatamento nacional e o pagamento integral da dívida com o FMI herdada da administração anterior, segundo dados do próprio governo.
Iván Cepeda e Aida Quilcué
Hoje, a Colômbia não está apenas diante da possibilidade de continuar o projeto de mudança iniciado há quatro anos e que impactou positivamente as condições de vida das grandes maiorias, mas também diante da possibilidade de aprofundar um projeto cujo centro esteja voltado para a vida, e não para o capital.
Iván Cepeda é um dos nomes mais destacados da luta social na Colômbia, sempre próximo do movimento popular do país. Com longa trajetória na defesa dos Direitos Humanos e no Congresso, onde atua como senador desde 2014, Cepeda é também vítima do conflito político, social e armado, pois seu pai, Manuel Cepeda Vargas — histórico dirigente comunista e senador pela União Patriótica — foi assassinado em 1994, em Bogotá, no contexto do genocídio cometido por forças estatais e paraestatais contra militantes desse partido político.
Por sua vez, Aida Quilcué é uma das principais lideranças indígenas do país. É conselheira maior do Conselho Regional Indígena do Cauca (CRIC) e atualmente atua como senadora no Congresso da República. Aida também é vítima do conflito: seu marido, também uma liderança indígena, foi assassinado pelo Exército em 2008.
Em seu programa de governo “O poder da verdade”, organizado em torno da proposta de três revoluções, Iván e Aida sintetizaram as principais necessidades enfrentadas hoje pelo povo colombiano, que começaram a ser abordadas no governo de Gustavo Petro e devem ser prioridades para a continuidade do projeto de mudança: a Revolução Ética, a Revolução Econômica e Social e a Revolução Política e Democrática.
Na proposta, a Revolução Ética implica uma transformação radical na forma de fazer política, na consciência social, na educação e na cultura. Em um país marcado por profundas feridas relacionadas à violência, à corrupção, à indiferença, à violência patriarcal e ao uso da política como espaço de enriquecimento fácil — e em um contexto regional e global atravessado pela crueldade e pela desesperança —, uma revolução dessa natureza representa uma aposta na humanidade e no futuro.
A Revolução Econômica e Social concentra-se na superação da pobreza e da desigualdade sofridas pelas grandes maiorias do país, incluindo a proposta de uma Revolução Agrária com redistribuição, restituição e recuperação de terras, um dos elementos mais importantes para o povo colombiano, considerando que a origem do conflito está profundamente relacionada à posse e concentração fundiária, além de outras propostas ligadas à transformação territorial e à revolução urbana.
Por fim, uma Revolução Política e Democrática, focada no fortalecimento da democracia como participação ampla no desenho e nas decisões das políticas que afetam as grandes maiorias, bem como no reconhecimento das estruturas organizativas da própria sociedade; na luta pela paz com justiça social, econômica e ambiental para superar o conflito político, social e armado por meio do diálogo e da negociação; e na defesa dos direitos humanos e do direito à vida, tão violados na história do país.
A campanha desenvolvida pelo Pacto Histórico demonstrou, inclusive na forma, os princípios fundamentais de sua proposta política: caracterizada pela austeridade e simplicidade, sem grandes outdoors publicitários ou espaços no horário nobre da televisão nacional, Cepeda baseou sua campanha em percorrer o país em seus quatro pontos cardeais e lotar praças públicas para apresentar suas propostas, apostando no boca a boca, na articulação com organizações sociais, políticas, sindicais e estudantis, entrelaçada com a criatividade popular que hoje se expressa em milhares de janelas pelo país com fotografias e desenhos estampando os rostos de Iván e Aida.
Correlação de forças
Todas as pesquisas apontam um panorama preocupante às extremas direitas que habitam o ecossistema político colombiano: a possibilidade real de Iván Cepeda tornar-se o próximo presidente do país, seja no primeiro ou no segundo turno. Com percentuais que variam entre 37% e 44% das intenções de voto para Cepeda, as extremas direitas — tanto a clássica, representada pela candidatura de Paloma Valencia pelo partido de Álvaro Uribe Vélez, o Centro Democrático, quanto a “nova”, liderada por Abelardo de la Espriella, um “Milei” que se gaba de não fazer parte da política tradicional e recebe financiamento de algumas das famílias mais poderosas do país — encontram-se em uma disputa sobre qual das duas expressões poderá derrotar Cepeda, recorrendo a todos os meios possíveis.
Nesse contexto, foi revelado no fim de abril o chamado Projeto Júpiter, um plano de empresas e think tanks da direita colombiana que promove oficinas e estratégias digitais para intervir nas eleições por meio da geração massiva de conteúdos nas redes sociais com três objetivos centrais: semear medo, indignação e incerteza em relação à candidatura do Pacto Histórico, alcançando cerca de 17 milhões de pessoas, segundo o próprio Jaime Bermúdez, ex-chanceler de Uribe Vélez e organizador do projeto.
Essas forças de oposição — ambas de ultradireita, embora com estilos diferentes — chegam bastante divididas ao primeiro turno, mas certamente não hesitarão em construir pontes de unidade em um eventual segundo turno para derrotar Iván Cepeda. De modo algum o cenário é simples, pois contam com toda a máquina política do país, grande parte do empresariado e a bênção de Washington para fazer o que for necessário para derrotar o Pacto Histórico e conquistar cenários semelhantes aos revelados pelo Hondurasgate.
Por sua vez, o desafio das forças populares do país é aprofundar os espaços de diálogo e campanha com o povo colombiano nas ruas e praças, ouvir, compreender, propor e explicar que estamos vivendo um momento histórico. Trata-se de uma responsabilidade não apenas com a conjuntura nacional, mas sobretudo com o contexto regional e global: conquistar uma vitória na Colômbia é uma vitória do futuro, a certeza de que superar a violência e a espoliação é possível com a continuidade de processos alternativos na direção política do continente, sempre acompanhados pelas grandes massas populares, com sua clareza histórica e sua defesa irrestrita da alegria.
* Laura Capote é militante social e pesquisadora colombiana. É co-coordenadora do Escritório Nuestra América do Instituto Tricontinental. Também integra a Secretaria Operativa Continental da Alba Movimentos, responsável pelo Sistema Continental de Formação Política. É licenciada em Ciências da Comunicação Social pela Universidade de Buenos Aires e mestranda em Relações Internacionais pela Universidade Nacional de La Plata.
** Este é um artigo de opinião e não necessariamente expressa a linha editorial do Brasil de Fato.
