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É sobre a extrema direita, mas é ainda mais sobre nós

As frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo estão convidando para, em 30 de março, irmos às ruas contra qualquer anistia

O termo técnico-científico para descrever o ato convocado por Jair Bolsonaro com o objetivo de pedir arrego e anistia no processo em que responde por diversos crimes é: “flopada”. Pois é. Aparentemente, salvo um ou outro dodói que resolveu passar o domingo em companhia de gente fascista e despirocada, o público esperado pelos organizadores simplesmente achou algo melhor para fazer no final de semana.

Não me cabe (nem desejo) analisar os motivos pelos quais os apoiadores ignoraram o chamado do ex-presidente (preguiça, cansaço, desilusão?). Mas começo a semana com outra convocatória, esta encabeçada pelas frentes Brasil Popular e Povo Sem Medo. A turma está convidando todo mundo às ruas no próximo dia 30 de março justamente para se manifestar contra qualquer anistia a quem arvorou-se contra a democracia no fatídico 8 de janeiro de 2023 — inclusive seu destrambelhado líder.

Enquanto escrevo ainda não há informações públicas sobre os detalhes do ato no Recife. Não sei se vamos nos concentrar no Derby, na Praça Osvaldo Cruz ou no Parque Treze de Maio, para seguir a tradição da esquerda. Ou será que, dessa vez, vamos ousar tirar nossa onda na orla de Boa Viagem, para irritar os poucos extremistas que sobraram no Recife? Não sei.

Mas sei que já está na agenda. Porque eu quero que Bolsonaro se arrombe, porque eu quero ver golpista responsabilizado, porque eu não resisto a um bom convite para ir às ruas. Mais do que tudo: quero reencontrar minha turma, dar um abraço apertado, olhar no olho e falar das tarefas que temos pela frente – e não são poucas.

Se é certo que o maior nome da extrema direita nacional está abalado, descompensado e choroso, com medo de ir em cana, também é verdade que não faltam candidatos ávidos e dispostos a tomar o seu lugar.

Entre politicões, ex-coaches, pseudo-artistas, mercadores da fé e aproveitadores de toda sorte, não faltam rostos para carregar o andor protofascista que ganhou peso no mundo inteiro nos últimos anos. Se botar o nome dessas almas sebosas todas num globo de bingo, aposto que o que sair já começa uma campanha presidencial com 20% dos votos.

Faltando menos de dois anos para uma disputa eleitoral perigosíssima, o que nós temos neste amplo, múltiplo e complexo campo progressista? Uma fé inabalável de que Lula segue sendo nossa única esperança — não para avançar com as políticas públicas que o país precisa para universalizar os Direitos Humanos, mas simplesmente para barrar a sanha reacionária que saliva ouriçada a cada tropeço do atual governo.

Verdade seja dita: em março de 2025, ninguém mais nas esquerdas, independentemente de experiência ou competência, parece ter votos para disputar o cargo mais importante da democracia formal brasileira no ano que vem.

Mesmo se a gente esticar a corda para o que temos chamado de “campo democrático”, que vai até a centro-direita, é difícil enxergar outro nome com capacidade eleitoral (hoje) de barrar o avanço daqueles que torcem pelo “quanto pior, melhor”.

E eles já não escondem o objetivo nítido de retroceder na garantia de Direitos Humanos, celebrando como um gol cada passo da barbárie que Donald Trump anda promovendo nos Estados Unidos.

Sim, responsabilizar Bolsonaro é para ontem. Não é nem escolha. Anistiar quem nos fez tão mal abre um precedente absurdo e perigoso. Só não podemos perder de vista o dever histórico de seguir adiante.

Conversar com mais gente, participar mais, cobrar muito e cobrar sempre. Formar novas lideranças e ocupar a política, partidos e mandatos, assembleias e conferências.

Se em 2022 o objetivo era “apenas” barrar o processo autoritário que se avizinhava, em 2026 precisamos querer mais. Democracia é bom, mas dá um trabalho danado.

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