Ivan Moraes

Ivan Moraes é pai, jornalista, sonhador, escritor, conversador, defensor de Direitos Humanos e ex-vereador do Recife pelo PSOL.

Pela revitalização do Centro; por um projeto popular de cidade; por uma política sem lacração

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Imagem digital da avenida Guararapes no projeto “Distrito Guararapes”
Imagem digital da avenida Guararapes no projeto “Distrito Guararapes” | Crédito: Criação digital / Prefeitura do Recife

João Campos tem as condições e obrigações institucionais de conduzir esse debate em outro nível

João Campos é jovem, comunicativo e preparado. Lido como um “craque” das redes sociais, ele é antes disso herdeiro de uma longa linhagem da política tradicional que ocupa posições de poder há décadas. Talvez por isso mesmo precise ouvir com mais cuidado quando alguém discorda dele – até porque muitas vezes quem critica acaba contribuindo muito mais do que quem apenas elogia.

Buscar compreender quem pensa de outra forma e aprender com as diferenças não é sinal de fraqueza, mas de maturidade política. Quando um prefeito chama de “lacração” a crítica que recebe, ele não apenas desqualifica um argumento: ele empobrece o debate público e flerta com uma lógica que o campo democrático, historicamente, sempre combateu.

O Recife conhece bem esse roteiro. Sempre que decisões estruturais sobre a cidade são apresentadas como “técnicas demais” para serem questionadas, “modernas demais” para serem debatidas ou “urgentes demais” para serem amadurecidas, alguém paga a conta. Via de regra, quem paga são os moradores empurrados para fora, o patrimônio público transformado em ativo financeiro e a política urbana reduzida a um exercício de planilha financeira.

O chamado Distrito Guararapes nasce exatamente nesse terreno. A Prefeitura o apresenta como “a” solução para reocupar o Centro, atrair moradia e dinamizar a área. O discurso é sedutor. Afinal, quem é contra a moradia no Centro? Quem é contra a revitalização? Quem é contra fazer algo depois de décadas de abandono? A questão nunca foi essa. A questão é como, para quem e com que garantias.

Imagem digital da Praça da Independência no projeto “Distrito Guararapes”
Imagem digital da Praça da Independência no projeto “Distrito Guararapes” | Crédito: Criação digital / Prefeitura do Recife

Até aqui, o projeto como é conhecido não apresenta ações distributivas objetivas. Não há mecanismos explícitos que assegurem mistura social, permanência ou incentivo à ocupação por populações de baixa renda ou proteção efetiva contra a gentrificação. O mercado entra forte. A contrapartida social é, para dizer o mínimo, fraca. E isso não é detalhe técnico: é escolha política.

Em várias cidades do mundo, inclusive em capitais europeias frequentemente citadas como “exemplo”, esse problema foi enfrentado de forma direta. Em Paris, há uma política pública que obriga a reserva de uma cota mínima de habitação social nos bairros. É algo que começou com 20% do estoque residencial e depois foi ampliado para 25%.

Não é favor do mercado: é regra. É política redistributiva aplicada ao território urbano. É o reconhecimento de que a cidade não pode ser organizada apenas pela lógica do valor imobiliário. Como dizia o ex-prefeito João Paulo, um dos melhores que a cidade já teve, “a grande obra é cuidar das pessoas”.

No Recife, ao contrário, o que se apresenta é um projeto que aposta majoritariamente no uso do Minha Casa Minha Vida nas faixas 3 e 4. Vale aqui uma pausa para tirar o debate do slogan e trazê-lo para o chão da realidade. As faixas 3 e 4 atendem famílias com renda mensal que começa acima de quatro mil reais e pode ultrapassar oito, dez ou até doze mil reais, dependendo da configuração. Trata-se, portanto, de setores da classe média.

Isso não é, em si, um problema. O problema é chamar isso de habitação de interesse social sem nenhum cuidado conceitual. Historicamente, quando falamos em habitação de interesse social (HIS), falamos de políticas voltadas prioritariamente às camadas de menor renda, à redução das desigualdades de acesso ao solo urbano e à permanência de comunidades populares em áreas bem localizadas da cidade. Não falamos apenas de crédito imobiliário facilitado.

Imagem digital da avenida Guararapes no projeto “Distrito Guararapes”
Imagem digital da avenida Guararapes no projeto “Distrito Guararapes” | Crédito: Criação digital / Prefeitura do Recife

O próprio Plano Recife 500 Anos, elaborado pela Aries e patrocinado pela prefeitura na gestão de Geraldo Júlio (do mesmo PSB de João), aponta nessa direção quando defende moradia no Centro associada à inclusão, à diversidade social e à densidade populacional, não apenas à densidade construtiva.

Esse mesmo documento negrita que a prefeitura deveria “executar a dívida ativa de imóveis em áreas centrais”, em consonância com um estudo de 2018 produzido por organizações como a Habitat Brasil, a FASE e os coletivos CAOS e A cidade somos nós, estudo este que identificou, só no bairro de Santo Antônio, 42 imóveis abandonados que, em sua maioria, deviam mais do que valem.

Usar o discurso da habitação social para justificar um modelo que, na prática, atende majoritariamente camadas médias é, no mínimo, um deslocamento semântico que merece ser debatido com seriedade. Quando setores da sociedade civil organizada, pesquisadores, urbanistas e movimentos populares levantam essas questões, não estão “lacrando”, mas fazendo política da forma mais legítima possível: disputando o projeto de cidade.

A Prefeitura afirma que “fez o dever de casa” e que houve consulta pública. Formalmente, é verdade. O projeto ficou disponível para consulta entre 6 de outubro e 4 de novembro de 2025. Um mês para “analisar” centenas de páginas de estudos que levaram meses para serem realizados. Uma audiência pública remota foi realizada no dia 28 de outubro, com participação restrita ao chat. Pessoas que participaram relatam perguntas ignoradas, ausência de respostas e nenhuma devolutiva sistematizada.

Consulta pública não é upload de PDF. Participação social não é contador de caracteres.

O prefeito do Recife, João Campos (PSB), durante a apresentação do projeto “Distrito Guararapes”
O prefeito do Recife, João Campos (PSB), durante a apresentação do projeto “Distrito Guararapes” | Crédito: Edson Holanda/Prefeitura do Recife

Faço aqui uma observação pessoal, não para reivindicar autoridade, mas para situar o debate. Como vereador, realizei diversas audiências públicas e estudos sobre moradia e sobre moradia no Centro do Recife. Foram processos abertos, presenciais, conflituosos, produtivos. Em muitas dessas ocasiões, sequer houve presença de secretários municipais. Agora, quando parte dessa mesma sociedade apresenta críticas e alternativas, é acusada de não propor?

Propor nunca foi o problema. Há propostas. Muitas. Elas estão em planos oficiais, em estudos técnicos, nas universidades públicas da cidade. Nisso, inclusive, Recife é referência. Aqui tem o curso de Arquitetura e Urbanismo da Unicap, responsável pelo Plano Centro Cidadão, de 2014 e por, mais recentemente, criar junto a brincantes históricos a proposta de Cidade das Culturas Populares, que traria mais vida ao bairro de São José.

A cidade também abriga o Mestrado em Desenvolvimento Urbano da UFPE, que completou 50 anos recentemente. Meio século estudando o direito à cidade. Tenho a forte impressão que “dever de casa” não é problema para este grupo de acadêmicos de excelência que agora lutam para serem ouvidos e ouvidas.

O que se pede não é veto automático nem imobilismo. É outra postura. É reconhecer que conceder partes da cidade à iniciativa privada não é um gesto neutro. Que concessões moldam usos, preços, permanências e expulsões. Que parques públicos com eventos pagos não são detalhe administrativo, mas sinal de uma lógica que precisa ser discutida com profundidade.

A gente sempre soube que fazer política dá trabalho. Dá conflito. Dá desgaste. Exige escuta. Exige tempo. Quando começamos a tratar críticas como ruído e participação como entrave, algo se desloca perigosamente.

Enquanto prefeito da cidade, João Campos tem todas as condições e obrigações institucionais de conduzir esse debate em outro nível. Com mais abertura e menos ironia defensiva. Com menos slogans e mais diálogo. O Recife não precisa de um prefeito que “vença” a sociedade civil no argumento ou na força. Precisa de um prefeito que caminhe com ela, mesmo quando isso é desconfortável.

Porque a cidade não é startup. Centro urbano não é ativo financeiro. E política definitivamente não é lacração.

Imagem digital da rua do Sol no projeto “Distrito Guararapes”
Imagem digital da rua do Sol no projeto “Distrito Guararapes” | Crédito: Criação digital / Prefeitura do Recife
Editado por: Vinicíus Sobreira

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